A palavra me faz existir! Já escrevi sobre isso e já verbalizei isso muitas vezes. Gosto de repetir essa frase como um mantra, como um lembrete diário de que minha existência depende da existência da palavra. Nomeio, logo existo, logo resisto. Sou bakhitiniana, heterodiscursiva, plurivocal…
Uso as palavras que aprendi com muitas outras vozes… vozes que me sussurraram segredos e dores, que gritaram impropérios e ordens, que disseram que me odiavam ou que me amavam, que indagaram minha existência e minha autenticidade, que se expressaram de n formas…
É! A palavra, as palavras, todas elas são meu combustível, meu alicerce, minha energia… me levaram longe, me mantém onde estou, me impulsionam a ir além… me faz existir, resistir – já disse isso, mas é importante repetir, afinal, é um mantra, né!?
Tenho alguns mantras colecionados além desse: “Viver é luxo”, clariceano; “sumarenta” – um verdadeiro dogma de vida; “Sonhos são inegociáveis” – mantra que tomei de empréstimo de um homem que amo profundamente.
Todos feitos de palavras… tijolos dessa construção que sou eu. Palavras que leio, que ouço, que canto, que rezo, que ensino, que aprendo, que afirmo, que nego, que minto, que uso para dizer verdades, as minhas… tudo feito de palavras.
Talvez você me pergunte por que escolhi esse tema para escrever a crônica dessa semana… e eu respondo que é porque, de vez em quando, sou tomada por essa consciência da importância das palavras na minha vida.
Foram elas as responsáveis pela construção da minha história. Desassociá-las de mim é desmontar um quebra-cabeças e deixar perder peças fundamentais, muitas… é tornar o desenho que se formaria um queijo suíço cheios de buracos, daqueles de desenhos animados.
São elas as responsáveis pelo meu autoconhecimento, pela minha autoafirmação, pelo surgimento de Bia, pela manutenção dessa pessoa que se fez de, nas, pelas, com as palavras. Cada uma delas com sua camada semântica na feitura de um eu.
Às vezes penso que não sou eu quem segura as palavras. São elas que me seguram quando tudo parece escorregar das mãos. Elas me encontram antes mesmo que eu saiba o que sinto. Dão nome ao que era apenas um aperto, uma saudade sem rosto, uma alegria tímida, um medo antigo. E, quando nomeiam, me devolvem inteira. Nomeio, logo existo, logo resisto. Sou bakhitiniana, heterodiscursiva, plurivocal…
Talvez seja por isso que nunca deixei de acreditar nelas: porque as palavras têm esse estranho poder de me lembrar de mim quando me esqueço. Então continuo escrevendo. Não para concluir alguma coisa, mas para permanecer. Porque descubro, a cada frase, que existir não é chegar a um destino. É continuar dizendo, ouvindo e me deixando atravessar pelas palavras que, desde sempre, pacientemente, escrevem a minha história.
No fim das contas, eu nunca fui apenas eu. Talvez eu seja esse encontro infinito entre vozes que vieram antes, vozes que caminham ao meu lado e aquelas que ainda encontrarão abrigo em minhas palavras.
Afinal, nenhuma palavra nasce sozinha; nenhuma existência se faz em absoluto silêncio. Habito esse espaço de diálogos permanentes, onde cada dizer responde a um outro dizer e já espera uma nova resposta.
É nesse movimento que me reconheço: inacabada, múltipla, atravessada por discursos que acolho, confronto, transformo e devolvo ao mundo com a marca singular da minha experiência. Acho que existir, para mim, sempre foi isso: participar da conversa infinita da humanidade.
E enquanto houver uma palavra capaz de encontrar outra palavra, haverá também um lugar onde eu possa continuar sendo.