Homero Costa
Em 2019, a cultura do cancelamento foi eleita o termo do ano pelo Dicionário australiano Macquarie, “um dos responsáveis por selecionar anualmente as palavras e expressões que mais moldaram o comportamento humano” (https://canaltech.com. br/redes-sociais/a-cultura-de-cancelamento-foi-eleita-como-termo-do-ano-em-2019-156809/).
O cancelamento é um ataque à reputação, unilateral, generalizante, que não aceita erros e contradições; portanto, sem a possibilidade do diálogo e de defesa de quem é acusado. Trata-se de uma forma de punir pessoas que têm ou tiveram (há casos de cancelamentos retroativos) comportamentos, falas, escritos, etc. considerados racistas, homofóbicos, misóginos, entre outros. Nesse sentido, o ato de cancelar pode ser compreendido como uma tomada de posição diante de condutas, atitudes, escritos ou palavras que quem acusa julga censuráveis. Entre os alvos principais estão pessoas famosas (mas não apenas) que são, por motivos distintos, “cancelados” por determinadas pessoas ou grupos, porque fizeram, disseram ou escreveram (e publicaram) algo considerado inadequado, errado ou preconceituoso.
Também pode se estender a filmes, músicas e até mesmo obras literárias, como o que ocorreu em relação às acusações de racismo nas obras de Monteiro Lobato e o seu “cancelamento”. Esse caso gerou muitas polêmicas e entre outros desdobramentos, em março de 2024, o Instituto da Linguagem da Unicamp promoveu debates com a participação de especialistas nas obras dele, cujo consenso foi considerar injusto o cancelamento, fundamentado pelas análises de suas obras, o contexto e a trajetória intelectual e pessoal de Monteiro Lobato.
Com o surgimento, expansão e o alcance da internet e das redes sociais em particular, o cancelamento se transformou em punição, no qual o julgamento depende apenas de quem cancela, e o justiçamento é imediato, mesmo que a pessoa, por exemplo, tenha mudado de atitudes, opiniões etc.
Entre outras consequências, danos psicológicos, às vezes graves, como depressão. Ou seja, são inegáveis os impactos do cancelamento na saúde mental de quem foi cancelado, além de outros aspectos em sua vida como a possibilidade de perda de emprego etc.
O cancelamento pode atingir também empresas, com o consequente boicotes a seus produtos e pressões para que marcas vinculadas a elas rompam seus contratos.
No caso das pessoas, quando alguém, principalmente quando é conhecido, é exposto, acusado de algum escândalo, usuários – mesmo que não o conheça – se unem contra o(s) acusado(s). Não apenas em relação a quem se acusa, mas também muitas vezes, de forma extensiva a amigos, familiares, etc.
Uma referência importante em relação à cultura do cancelamento é o movimento Me Too, criado nos Estados Unidos em 2017, com o objetivo de proteger vítimas de violência sexual, a partir de denúncias. Entre suas ações públicas, vinculadas nas redes sociais, estão denúncias de inúmeros casos de abusos sexuais e estupros dentro de Hollywood, revelando o que não se sabia (ou não era público) sobre artistas e diretores. As sofriam caladas por medo, ganharam forças para expor seus agressores. E houve casos que tiveram ampla repercussão e também consequências aos acusados.
Talvez tenha a sido a primeira grande ação com maior visibilidade contra agressores famosos.
As denúncias de assédios, violências, intolerância etc., são parte constitutivas da cultura do cancelamento e para muitos analistas, tem aspectos considerados justificáveis, como as denúncias do Me Too: há comportamentos que não podem e nem devem ser aceitos, como as diversas formas de intolerância, racismo, xenofobia, violência, preconceitos, misoginia, homofobia, pedofilia, etc.
Um dos casos de grande repercussão em relação à cultura do cancelamento é o da autora da série de livros Harry Potter, J. K. Rowling, acusada de transfobia (preconceito e ódio contra pessoas trans) em função de declarações sobre o que consideraria ou não “ser mulher”. Além de desapontar muitos fãs, que a cancelaram, atores de seus filmes também repudiaram suas afirmativas, assim como escritores da mesma editora, que informaram que não publicariam mais livros por ela. Depois, a escritora criou uma organização privada que luta contra os direitos de transgêneros (Para mais detalhes sobre as acusações contra ela, ver o artigo J.K. Rowling e transfobia: entenda a polêmica escrito por Mariana Canhisares e disponível em https://www.omelete.com.br/quadrinhos/j-k-rowling-transfobia-entenda-polemica#14).
No Brasil, houve vários casos, com grande repercussão, mas por razões distintas. Um deles foi o do médico Drauzio Varela, cancelado depois de entrevistar uma pessoa trans num presídio em Guarulhos – como parte de uma matéria sobre as vivências de mulheres trans em presídios masculinos. Uma das entrevistadas havia sido presa por estuprar e assassinar uma criança (o que o médico disse depois que não sabia), e ele lhe deu um abraço. Foi o suficiente para uma avalanche de críticas e o seu imediato cancelamento.
A médica Julia Rocha (autora do livro Pacientes que curam: o cotidiano de uma médica do SUS, Editora Civilização Brasileira, 2021) publicou no seu blog (9/3/2020) um artigo intitulado “Por que a internet massacra Drauzio e aplaude Bruno?” referindo-se ao caso de grande repercussão na época do ex-goleiro do Flamengo, acusado, com outros parceiros, de assassinato da ex-mulher, afirmando que “há dez anos um homem e seus amigos mataram, esquartejaram e deram aos cachorros o corpo de uma mulher que inclusive era mãe de seu filho” e que este homem havia anunciado a sua volta ao futebol. E ela diz “que sintomático, não? Para este ex-atleta comprovadamente feminicida devotamos admiração e muitos pedidos de selfies” e pergunta: “seria nossa transfobia maior do que nossa capacidade de se compadecer com a mãe que perde a filha assassinada?”. (https://juliarocha.blogosfera.uol.com.br/2020/03/09/mais-que-cancelar-drauzio-querem-justificar-o-proprio-odio/).
Outro caso que também teve grande repercussão foi o da rapper Karol Congá, analisado no artigo de Alexandre Putti publicado na revista Carta Capital em 24/02/2021 (Caso Karol Congá: qual o limite da cultura do cancelamento?). Ela tinha à época, milhares de seguidores em suas redes sociais e, ao participar de um dos programas Big Brother Brasil, da TV Globo, foi acusada de “impor, por diversas vezes, pressão psicológica sobre alguns participantes do programa”. Com a ampla divulgação nas redes sociais de críticas ao seu comportamento, o público (99,17%, um recorde) votou para retirá-la do programa. Além de sua eliminação, foram criadas páginas com discursos de ódio contra ela, inclusive com ofensas racistas e até mesmo ameaças de morte, até do seu filho menor de idade.
As consequências foram devastadoras para ela, que perdeu milhares de seguidores, teve cancelado um programa no canal GNT, além de cancelamentos de shows e contratos publicitários.
Em julho de 2020 foi publicada na Harper’s, uma revista mensal de cultura geral e uma das mais antigas publicações periódicas dos Estados Unidos (criada em 1850), uma carta sobre o que foi chamado de clima de ‘inquisição moderna’ “que veio à tona com a chamada cultura do cancelamento”. Intitulada “Uma carta sobre Justiça e Debate Aberto”, foi assinada por 153 artistas e intelectuais, entre eles, Noam Chomsky, Salman Rushdie, Margaret Atwood, Martin Amis e Yascha Mounk, que afirmam: “a inclusão democrática que buscamos só pode ser alcançada se nos manifestarmos contra o clima de intolerância que se instalou por todos os lados”.
Defendem a liberdade de expressão e dizem que “o livre intercâmbio de ideias, força vital que alimenta uma sociedade liberal, está sendo mais restrito a cada dia que passa” e que “as forças do iliberalismo vêm ganhando espaço em todo o mundo e contam com um aliado poderoso em Donald Trump, que representa uma ameaça real à democracia”.
E ao se referir a essa cultura do cancelamento, destacam que se insere no contexto da disseminação do que chamam de “uma intolerância às visões opostas, uma propensão a humilhar as pessoas publicamente e submetê-las ao ostracismo, a tendência a dissolver questões políticas complexas em uma certeza moral ofuscante”, no qual, às vezes, as difamações ocorrem com falas ou escritos tirados do contexto, com interpretações equivocadas, com o objetivo de prejudicar a imagem de alguém e, assim, se tornar espaço para bullying, ódio e linchamento virtual.
Há, na Carta, a compreensão na Carta que se deve preservar o direito de discordar, mas não o de silenciar dissidências, que são legítimas e parte do debate público, e que “o melhor modo de derrotar más ideias é pela sua exposição, a discussão e persuasão, não por tentativa de simplesmente desejar que não existissem”.
Embora muitos defendam que tem sido um meio eficaz de combater pessoas privilegiadas, expondo-as publicamente com diversas acusações, o fato é que, se pode cair na mesma lógica e práticas que se pretende criticar, ou seja, revelar intolerância com dissidências e adversários e, assim, abrir a possibilidade de cometer, muitas vezes, injustiças por vezes irreparáveis).
Em entrevista ao G1 no dia 24/08/2020 (“Cultura do cancelamento: psicologia explica tudo”), o psiquiatra Galiano Brazuna afirma que “A grande crítica a respeito desse movimento é que, apesar de ser nobre, a execução pode apresentar problemas. O cancelamento age como uma punição mais do que apontar uma conduta errada e permitir que aquele que comete o erro se redima. Ao mesmo tempo aquele que pede o cancelamento pode estar fazendo um julgamento precipitado de situações que por vezes são mais complexas do que aparece na mídia”.
Os jornalistas João Batista Jr e Marcelo Marthe, em artigo publicado na revista Veja (24/07/2020), afirmam que “Às vezes, o público reclama, xinga e deleta em nome de causas legítimas”, mas salientam: “o que dificulta a percepção negativa sobre o cancelamento é um paradoxo intrínseco a essas manifestações. Seu método – a demolição das reputações em um frenesi massivo, sem direito de defesa – merece repúdio e, em muitas ocasiões, pessoas e empresas são atacadas de forma leviana e até com fake news”.
Uma questão relevante nesse sentido é: e se o que foi divulgado e motivo de cancelamento forem mentiras, difamações e calúnias, como reparar os danos? Como proceder em casos de “linchamentos virtuais” e cancelamentos injustos? Há procedimentos jurídicos possíveis, a que muitos têm recorrido, mas o tribunal virtual é implacável. Não possibilita o direito de defesa.
Não se trata de “cancelar” a cultura do cancelamento, mas de ampliar o debate e encontrar soluções para não ocorrer justamente o contrário do que se pretende, ou seja, com o argumento de se buscar por justiça, ser usado indiscriminadamente e sem a possibilidade de redenção, transformando-se em um tribunal virtual, no qual se cria um processo em que o(a) cancelador(a) se torna júri, juiz(a) e executor(a), não dando ao acusado(a) o direito de defesa.