No reino da imaginação
Natal, RN 15 de jul 2026

No reino da imaginação

15 de julho de 2026
6min
No reino da imaginação

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Leio nos portais uma matéria cuja manchete de cara me perturbou pela bizarrice: “Chefe da Casa Imperial do Brasil ameaça mudar ‘linha sucessória’ se ‘príncipe’ Dom Rafael se casar com italiana”. Curioso, li a matéria cujos trechos narram o seguinte: “O chefe da Casa Imperial do Brasil pelo ramo de Vassouras, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, anunciou que não reconhecerá o casamento de seu sobrinho e herdeiro dinástico, Dom Rafael de Orleans e Bragança, com a aristocrata italiana Margherita delle Piane, previsto para novembro. O comunicado foi lido no sábado durante o 36º Encontro Monárquico Nacional, realizado em São Paulo, diante de integrantes da família e apoiadores da causa monárquica. Segundo a carta apresentada por Dom Bertrand, caso Dom Rafael, considerado pela família como o príncipe imperial do Brasil, decida manter o casamento sem a autorização do chefe da Casa Imperial, deverá renunciar aos seus direitos dinásticos, conforme as regras. De acordo com o documento, uma eventual renúncia faria com que os direitos sucessórios passassem para a princesa Dona Maria Gabriela de Orleans e Bragança, irmã de Dom Rafael”.

Hã, como assim? Primeiro, o Brasil é uma República desde 1889 e não tem, portanto, “herdeiros ao trono”, posto que nem existe um, portanto, não existe uma “linha sucessória”. E ainda, Encontro Monárquico Nacional? Esse pessoal não tem mais o que fazer? Uma pia para lavar? Chama minha atenção a mídia hegemônica dar espaço e pauta para esse tipo de alucinação. O G1 ainda teve a dignidade jornalística de colocar os termos entre aspas. Alguns, nem isso.

Cheguei a conhecer um “adepto da causa monarquista”. Quando apresentava o programa Conexão Potiguar, o saudoso amigo e chefe José Pinto Júnior me escalou para entrevistar um professor monarquista, que defendeu ao vivo e a cores sua, digamos, causa. Depois, no bate papo com café pós-programa, ainda tentou me convencer sobre as vantagens que o Brasil teria se voltasse ao sistema monárquico e defendia, de verdade, um plebiscito popular. Ainda me mandou umas mensagens por zap depois, mas acho que depois bloqueamos um ao outro. Com filhos para criar, à época, e boletos a pagar (estes ainda tenho) não tinha tempo para ouvir alucinações anacrônicas.

Sim, pois defender, ou ainda mais, legitimar uma “bandeira” tão sem sentido como o monaquismo é bater palma para maluco dançar. Nos países europeus onde a figura real ainda existe, trata-se de papel simbólico, quase decorativo, sem qualquer poder real. No caso da Inglaterra, onde a família real é bem criticada, ela ao menos ajuda no turismo. O Brasil, país colonizado por Portugal, recebeu a realeza em 1808, com a vinda de D. João VI ao Brasil, fugindo de Napoleão Bonaparte. Com o retorno de João a Portugal, seu filho, Pedro I, realizou a independência do Brasil em 1822 e foi coroado primeiro rei do país enquanto nação independente. Menos de 10 anos depois. D. Pedro I retornou a Portugal em 1831 , após abdicar do trono brasileiro e deixou o Império nas mãos de seu filho, que tinha apenas 5 anos e viria a ser coroado como Dom Pedro II em 1841.

Como se sabe, em 1889 um grupo de militares, insuflado pelos movimentos republicanos pelo mundo afora e também por interesses pessoais, destituiu D. Pedro e proclamou a República, elegendo o Marechal Deodoro da Fonseca como primeiro presidente. A família real brasileira à época deu sorte sendo apenas exilada, mantendo as posses e recebendo direitos no país, ao contrário da família real Romanov, na Rússia, que foi totalmente executada pelos bolcheviques. Ou ainda Maria Antonieta e parte da aristocracia francesa após 1789, guilhotinadas em praça pública.

Que os Orleans e Bragança se sintam pessoas “de sangue azul”e que mantenham seus rituais e posturas como se ainda tivessem um trono para ocupar, eu até entendo. Tudo que envolve dinheiro e poder mexe com as pessoas, e, afinal, ter sido criado com um sobrenome quilométrico, tataraneto de um imperador, como possível herdeiro de um trono, deve mexer com o psicológico da pessoa desde criança, elevando o conceito de mimado até a estratosfera.Não por acaso, quando quer se referir a uma criança mimada demais falamos “ela parece um reizinho”.

Como eu disse, não me estranha a postura “real” da família. O que acho esquisito é “plebeus” terem esse fascínio pela monarquia. Gente como a gente, que nasceu em família batalhando o pão nosso de cada dia, defendendo que uma determinada família volte ao poder simplesmente porque foi ungida por Deus em algum momento da História.

Mas é certo que o brasileiro tem um fascínio coletivo pelo simbolismo da realeza. Quem se destaca e alcança excelência em sua função é automaticamente coroado pelo senso comum. Pelé se tornou o Rei do Futebol. Roberto Carlos, com suas tantas emoções, também é rei. Xuxa ganhou o apelido de Rainha dos Baixinhos. Reginaldo Rossi foi o Rei do Brega. Também acho fascinante a obsessão que donos de restaurantes, principalmente churrascarias, tem com a simbologia monárquica: Rei da Costela, Rainha da Picanha, Príncipe do Espeto, Frango Real, Rei do Galeto, são nomes que vemos aos montes pelo Brasil afora. Quem mora ou morou em Parnamirim e não frequentou a Rainha do Pastel, que atire a primeira pedra.

Ah,lendo a matéria do G1, após a reportagem reproduzir as alucinações da família sobre o casamento lá, no final, restou fazer jornalismo de verdade: “Apesar de os descendentes de Dom Pedro II continuarem utilizando títulos como príncipe e princesa, eles não possuem reconhecimento jurídico pelo Estado brasileiro. Segundo historiadores ouvidos pelo g1, os títulos de nobreza deixaram de produzir efeitos oficiais com a Proclamação da República, em 1889. Em 1993, um plebiscito nacional consultou os brasileiros sobre a forma de governo. Cerca de 66% dos eleitores optaram pela manutenção da República, enquanto pouco mais de 10% defenderam a restauração da monarquia.”

É isso. O reinado da família real brasileira é tão verdadeira como as realezas do Reino das Águas Claras, do Sítio do Pica Pau Amarelo ou de Nárnia. Pura imaginação.

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