Falta de hormônios afeta atendimento em ambulatório trans do Giselda
A falta de hormônios para terapia hormonal, a limitação da equipe médica e dificuldades relatadas por usuários para a realização de exames têm marcado a rotina do Ambulatório Trans Murilo Gonçalves, serviço de referência estadual para atendimento à população trans no Rio Grande do Norte, localizado no Hospital Giselda Trigueiro, em Natal. Pacientes ouvidos pela reportagem afirmam que problemas estruturais e de abastecimento vêm comprometendo o acompanhamento de saúde de centenas de pessoas cadastradas no serviço.
Homem trans acompanhado pelo ambulatório desde 2023, Céu Antônio Rodrigues afirma que a principal preocupação dos usuários atualmente é a interrupção no fornecimento da Hormus, medicamento utilizado por parte dos pacientes em processo de hormonização. Segundo ele, a reposição do hormônio não ocorre há cerca de dez meses, período em que muitos usuários passaram a depender de compras particulares para manter o tratamento.
De acordo com Céu, durante esse intervalo o ambulatório recebeu uma doação de Deposteron, outro medicamento à base de testosterona. A substituição, entretanto, não teria sido acompanhada de orientações prévias aos pacientes e o estoque também se esgotou meses depois. “O resultado prático é que centenas de pessoas transmasculinas estão com o processo de hormonização completamente suspenso ou precisando arcar com os custos por conta própria, sem qualquer previsão de reabastecimento do estoque oficial”, relata em entrevista à Agência Saiba Mais.
Além da questão dos medicamentos, o paciente aponta dificuldades relacionadas à estrutura do serviço. Segundo ele, o ambulatório atende pessoas de todas as regiões do estado e conta atualmente com apenas uma médica responsável pelos acompanhamentos. Também são relatadas limitações para realização de exames hormonais de rotina e de outros procedimentos necessários ao acompanhamento da terapia hormonal.
“A situação afeta diretamente a saúde física e mental da população trans de todo o estado. Trata-se de uma demanda urgente. É totalmente inviável que uma população já marginalizada não tenha acesso ao mínimo que lhe é garantido por lei”, afirma.
As dificuldades descritas por Céu também aparecem no relato de Caeu Leonardo Nunes Santos, que iniciou o acompanhamento no ambulatório em julho de 2024. Segundo ele, logo após a primeira consulta precisou comprar o próprio hormônio porque o medicamento já não estava disponível na unidade.
“Na primeira consulta levei os exames e a médica me passou a receita, mas na época o Giselda estava sem hormônio. Como eu estava trabalhando e recebia bolsa da UFRN, consegui pagar. Comprei a Hormus e depois precisei comprar novamente porque o estoque continuava sem reposição”, conta.
Morador de Parnamirim, Caeu relata que também enfrentou dificuldades para realizar exames e comparecer às consultas. Segundo ele, a coleta de exames acontecia em horários limitados e o deslocamento até a unidade exigia longos trajetos de transporte público. Além disso, afirma que houve ocasiões em que consultas foram canceladas sem aviso prévio.
“Tive alguns problemas com marcação de consultas porque às vezes a médica não ia e não era avisado. Eu me locomovia de Parnamirim até o Giselda e perdia a viagem. Isso aconteceu mais de uma vez”, relata.
O paciente também afirma que a ausência de profissionais substitutos durante férias ou afastamentos da médica responsável gerava longos intervalos entre as consultas. Segundo ele, a situação dificultava o acompanhamento clínico e aumentava o tempo de espera para remarcações.
No segundo semestre de 2025, quando o ambulatório passou a disponibilizar o Deposteron recebido por doação, Caeu deixou de comprar o hormônio e passou a custear alguns exames laboratoriais. Apesar disso, afirma ter enfrentado efeitos adversos durante o uso do medicamento e voltou a arcar integralmente com os custos do tratamento após o fim do estoque.
“Hoje pago o hormônio e também alguns exames quando não consigo fazer pelo SUS. Não é o ideal porque nem sempre tenho condições de comprar a Hormus e a Deposteron também pesa no orçamento”, afirma.
Ele destaca, porém, a experiência positiva no Ambulatório Trans do Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol), onde passou a ser acompanhado paralelamente. Segundo Caeu, a regularidade das consultas e o acompanhamento multiprofissional contribuíram para o controle da terapia hormonal e para o cuidado com outras demandas de saúde.
O que diz a Sesap
Coordenador do Ambulatório Trans Murilo Gonçalves, Miguel Tavares da Silva Bisneto confirmou que atualmente o serviço conta com apenas uma médica responsável pelos atendimentos e informou que a ampliação da estrutura está entre os objetivos da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap).
Segundo ele, está em fase de conclusão um convênio entre o Hospital Giselda Trigueiro e o Instituto de Medicina Tropical (IMT), que poderá ampliar os espaços disponíveis para funcionamento do ambulatório e de outros serviços da rede estadual.
Sobre a falta de hormônios, Miguel informou que o processo de aquisição dos medicamentos já está em andamento. De acordo com ele, além da compra realizada pelo próprio hospital, a Sesap busca incluir esses hormônios na lista de medicamentos adquiridos regularmente pela Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat), o que permitiria uma dispensação contínua aos pacientes.
Em relação às reclamações sobre exames, equipamentos e insumos, o coordenador afirma que os usuários do ambulatório têm acesso à estrutura do Hospital Giselda Trigueiro, considerado uma das unidades mais equipadas da rede estadual. Segundo ele, há processos de compra em andamento para ampliação dos equipamentos e materiais disponíveis.
Questionado sobre a ausência de substituição durante férias, afastamentos ou viagens da médica responsável, Miguel confirmou que atualmente não existe outro profissional para assumir os atendimentos do ambulatório.
“Não há substituição para a profissional que atende o ambulatório trans. Devido à especificidade do serviço e ao fato de contarmos com apenas uma profissional, casos de afastamento e férias são conduzidos conforme protocolos de renovação de prescrição”, afirma.
O coordenador acrescenta que pacientes em acompanhamento não ficam sem assistência e que situações consideradas urgentes recebem encaixes conforme avaliação da equipe.
Sobre a possibilidade de ampliação dos serviços ofertados, incluindo encaminhamentos para procedimentos cirúrgicos destinados à população trans, Miguel afirma que a medida depende da contratação de prestadores especializados. Segundo ele, um grupo de trabalho envolvendo os ambulatórios trans do estado discute atualmente a habilitação desses serviços na rede pública.
Enquanto as mudanças anunciadas não se concretizam, usuários seguem cobrando a regularização do fornecimento de hormônios e a ampliação da estrutura do ambulatório, considerado a principal porta de entrada para o acompanhamento especializado da população trans no Sistema Único de Saúde no Rio Grande do Norte.
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