O poder é mesmo um afrodisíaco – trocadilho à parte – dos mais poderosos. Provas disso não nos faltam. Que o digam os vários espécimes dessa raça de animal político que, quando no poder, são fortes e viris, mas, quando perdem a cadeira de rei, andam se arrastando e até mudam de voz (isso aqui, cá para nós, como cantava o malandro Bezerra da Silva).
Lembra daqueles presidentes dos Estados Unidos que povoam nossa história recente?
Nixon, Carter, Reagan, Clinton, Bush pai, Bush filho, Biden e Obama, quando no poder, apareciam nas fotos sorridentes, cheios de marra e vigor.
Quando deixaram a cadeira mais afrodisíaca do mundo, que ocupa lugar de destaque na Casa Branca, definharam a olhos vistos.
E o que dizer do eterno príncipe Charles, que bastou virar rei, com a morte da mãe, para se tornar um velhinho daqueles de propaganda de casa de repouso?
Por aqui, temos dois exemplos recentes e muito emblemáticos.
Quando estava fora do poder, depois de passar dois mandatos na cadeira de presidente, Lula enfrentou todo tipo de mazelas. De problemas na garganta a mais da metade das doenças listadas naquele livrinho da CID (Classificação Internacional de Doenças) que os médicos usam para nos dar atestados.
Isso sem falar nos 580 dias que passou na cadeia, sem reclamar ou inventar doença para ir para casa. Bastou se eleger para mais um mandato, e Lula ficou curado de tudo.
Até aquelas doencinhas que lhe aparecem hoje em dia são resolvidas rapidamente, a ponto de não dar chance para seu vice, Geraldo Alckmin, de também provar da catuaba da Presidência.
Talvez, quando deixar o poder, daqui a uns anos, Lula volte a sofrer das doenças que figuram na CID e atazanam a vida de todo cidadão com mais idade. Nessa hora, Lula não terá mais ao alcance da mão a garrafa do poderoso afrodisíaco que o mantém de pé.
Outro exemplo recente dessa história é o ex-presidente Jair Bolsonaro, que, quando presidente, se vangloriava de ter Messias no nome (só para concorrer com o outro, o ungido Filho de Deus) e até criou um neologismo (“imbrochável”) para chamar de seu e autoproclamar sua virilidade.
Desde que deixou o Palácio do Planalto pela porta dos fundos e viajou para os Estados Unidos, porém, Bolsonaro não pode ouvir uma sirene de ambulância passando nos arredores de sua mansão, no Jardim Botânico de Brasília, que cai doente.
A agenda do agora brochável ex-presidente virou um festival de cirurgias, doenças, surtos e pitis, o que já lhe assegura a condição de primeiríssimo colocado no ranking dos ex-presidentes mais bichados da República brasileira.
Sem sua dose diária do afrodisíaco do poder, Bolsonaro desenvolveu até um sintoma que lhe alerta quando a coisa está se complicando para o lado dele e de seus meninos travessos.
Basta que ele ouça a expressão “Polícia Federal” para que não lhe saia da cabeça a cena dos homens de preto batendo à sua porta ao raiar do sol, e irrompa uma crise de soluços sem fim. Pensando bem, pelo menos para Bolsonaro, elas só lhe fizeram bem.
Por conta dessas crises, que os médicos classificam como singulto e às quais conferem o CID R06.6, ele trocou a cela em que vivia desde que foi condenado, na sede da PF em Brasília, por um presídio cinco estrelas que os candangos apelidaram de Papudinha.
Mais uma crise de soluços, e lá vai Bolsonaro para a prisão domiciliar, gozar do conforto de seu lar e da companhia de sua bela, mas nem tão recatada, nem do lar, Michelle.
E basta falar em cadeia para ele ou para seus filhos traquinos que o soluço reaparece. E lá vem um atestado médico garantindo que Bolsonaro sofre de um mal irremediável, que pode levá-lo à morte.
Clinicamente, essas crises são provocadas por uma contração involuntária e repetitiva do diafragma que, pelo visto, aparece sempre que Bolsonaro sente medo. No meu tempo de criança, era outro diafragma, nas redondezas do cóccix, que se contraía em casos de medo.
E foi naquele tempo de infância, também, que aprendi com minha avó que soluço se cura com uma linha molhada no meio da testa. Simples assim. Fiz isso quando meus filhos pequenos tinham soluços, e funcionou.
Só não entendi até agora por que ninguém usou esse santo e ingênuo remédio para curar Bolsonaro. Talvez porque esse não seja o interesse…