Os corvos de Ramon Felipe voam sobre um país exausto
Há quem imagine os corvos como mensageiros do fim. Ramon Felipe preferiu imaginá-los pousando onde eles aparentemente não deveriam estar: à beira-mar. Foi assim que nasceu o título de seu terceiro livro de poemas. Não em uma mesa de trabalho nem durante uma longa pesquisa, mas em um sonho breve, numa madrugada de exaustão, depois de mais uma semana dando aulas.
“Cheguei bastante cansado numa sexta-feira à noite. Dormi imediatamente. Acordei por volta das três da manhã após um sonho que durou poucos segundos, mas me marcou por trazer a imagem de corvos em um lugar improvável, perto do mar, entre a madrugada e o amanhecer“, lembra o poeta.
Daquela imagem onírica nasceu Corvos à beira-mar, publicado pela Editora Minimalismos. Antes de escrever os poemas, Ramon mergulhou em diferentes tradições culturais, na literatura e na música para compreender o simbolismo dessas aves. Passou inevitavelmente por Edgar Allan Poe, mas a pergunta que realmente conduziu o livro era outra.
“Como eles chegaram até ali?“
A resposta nunca é literal. É poética.
Um livro sobre fronteiras
A “beira” do título não é apenas geográfica.
“No dicionário, a palavra ‘beira’ carrega uma dualidade: é tanto o limite que demarca quanto o ponto de contato onde a terra encontra o mar”, explica.
Essa ideia organiza toda a arquitetura da obra, dividida em três partes — Sobrevoando Fronteiras, Pernoite em um Campanário Vazio e Sankofas na Enseada. Ao longo desse percurso, os corvos deixam de ser apenas aves para se transformarem em metáforas dos sujeitos que vivem permanentemente atravessando fronteiras: sociais, afetivas, políticas e existenciais.
Mais do que responder como esses pássaros chegaram ao litoral, o livro pergunta como nós chegamos até aqui.
A poesia depois do ponto
Há um momento da conversa em que Ramon deixa de falar apenas do livro para falar de milhões de brasileiros.
“Professores, vendedores, pedreiros, operadores de máquinas; brasileiros, latino-americanos, habitantes deste planeta.”
Não há separação entre poesia e realidade.
Um dos poemas do livro, intitulado “6 x 1”, talvez seja a expressão mais contundente dessa perspectiva. Visualmente, a página é ocupada quase inteiramente pela repetição da palavra “trabalho”. Aos poucos, a palavra “vida” encolhe até desaparecer. Na linha final, resta apenas uma palavra: “morte”.
Sem recorrer a explicações, o poema transforma a própria disposição gráfica das palavras numa crítica à lógica da exaustão que organiza a vida contemporânea.
É impossível não relacioná-lo à reflexão do autor sobre o mito de Sísifo — condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima —, referência assumida por Ramon durante a entrevista.
“O livro é uma forma de reiterar que é preciso imaginar Sísifo feliz.“
A frase, tomada do filósofo Albert Camus, aparece aqui menos como consolo do que como desafio, como preservar a imaginação, a sensibilidade e o desejo quando a rotina parece reduzir a existência ao trabalho?
Entre o macro e o íntimo
Embora dialogue constantemente com desigualdade, racismo, violência e exploração, Corvos à beira-mar evita transformar a poesia em panfleto. Ramon prefere falar do encontro entre escalas.
“Hoje dou esta entrevista, mas em muitas noites, no coração do bairro das Rocas, olhei para a lua e pensei: essa é a mesma lua vista por todas as pessoas que estudo nos livros de História.“
É talvez a imagem mais bonita da conversa.
Da janela de uma casa nas Rocas, um dos bairros mais antigos de Natal, o poeta conecta sua experiência cotidiana à longa duração da humanidade. O mesmo céu cobre trabalhadores que acordam às quatro da manhã, personagens históricos, pessoas anônimas, amantes, refugiados e leitores.
“É na poesia que o macro e o micro da vida se encontram.“
Essa percepção atravessa todo o livro. As notícias chegam pelo celular: guerras, racismo, desigualdade, crises ambientais. Mas, entre um ônibus e outro, alguém escuta uma música, olha pela janela, faz uma declaração de amor ou simplesmente observa um raio de sol.
Esse gesto aparentemente pequeno também é político.
“Por mais que o sistema nos empurre para a mera subsistência, há em nós uma chama inextinguível que nos torna força criadora, combatente e afetiva.“
Um corvo comum
Ao final da entrevista, Ramon recusa qualquer imagem romantizada do poeta. Define-se como um sujeito comum.
“Este é um livro escrito por um sujeito comum — que levanta às quatro da manhã, que bate o ponto, sem sobrenome ‘importante’. Um corvo à beira-mar.”
Talvez seja justamente essa recusa da excepcionalidade que torne sua poesia tão próxima. Em vez do poeta isolado em uma torre de marfim, encontramos um trabalhador da linguagem que conhece a fadiga, o transporte público, a sala de aula, a periferia e o relógio.
Seus corvos não anunciam o apocalipse. Anunciam que ainda existe imaginação suficiente para sobreviver ao mundo.
Serviço
Corvos à beira-mar está em pré-venda no site da Editora Minimalismos. O período de quatro semanas antecede a impressão da obra, modelo adotado pela editora para viabilizar a publicação em um cenário de aumento dos custos gráficos e fortalecer a produção literária independente.
Como incentivo aos leitores, a editora lançou uma campanha: caso a pré-venda alcance a marca de 100 exemplares nesse período, cada comprador receberá um segundo livro, sem custo adicional, para presentear outra pessoa.
Corvos à beira-mar
Autor: Ramon Felipe
Editora: Minimalismos
Gênero: Poesia brasileira
Onde encontrar: disponível no catálogo da Editora Minimalismos.