Entre Argentina e Espanha, eu fico com o movimento negro
Natal, RN 25 de jul 2026

Entre Argentina e Espanha, eu fico com o movimento negro

25 de julho de 2026
4min
Entre Argentina e Espanha, eu fico com o movimento negro

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Brasil é mesmo o país onde o racismo é o mais cínico que existe, peeeeense! Nesta final de Copa, eu vi várias pessoas aglomeradas assistindo à final dos jogos, torcendo pela Espanha e xingando a Argentina. Atitudes assim me impressionam? Não! Gente, o Brasil é um dos países mais racistas do mundo, mas aqui ninguém é racista. A avó de todo mundo é negra, ué! Mas o que mais me chamou a atenção foram influenciadores sérios e intelectuais que respeito fazendo vídeos nas redes sociais a favor da Espanha. Qual é o problema de vocês?

Estamos falando de dois países colonizadores e extremamente racistas. “Aaaaah, mas, nos últimos meses, quem mais atacou brasileiros com ofensas racistas foram os argentinos…” E vocês estão esquecendo que quem pendurou um boneco do Vini Jr. foram os espanhóis? Mas não vou nem argumentar por este caminho, até porque racismo não se mede… ou mede? Não é porque, na sua cabeça, um país tem sido menos racista do que outro, levando em consideração as últimas notícias, que vamos apoiá-lo, certo? “Aaaah, mas eu quero ver a Argentina perder.” Minha gente, o Brasil perdeu e não foi na Copa. Perdemos quando esquecemos nosso senso de irmandade racial. E aqui não estou falando só de pessoas negras, porque nesse debate todo, não vi ninguém falando do massacre dos povos indígenas e dos ciganos, que foram perseguidos e expulsos. A comoção de vocês é seletiva?

É por isso que a luta contra o racismo não avança no Brasil, porque ele nos distrai com muita facilidade. Enquanto estamos defendendo um outro país racista e colonizador, uma certa escritora brankkka está dando entrevistas defendendo o livrinho racista dela, e já se cogita a possibilidade de uma nova impressão da primeira edição, com ilustrações horrendas. Nesse debate, só vi os intelectuais da literatura falando. E por que isso é tão sério? Porque o tema “Copa do Mundo” em breve será esquecido, mas, todos os dias, nas escolas, “Menina Bonita do Laço de Fita” estará lá, difundindo, mais uma vez, o discurso falacioso da democracia racial de Gilberto Freyre e reforçando estereótipos racistas no imaginário coletivo das nossas crianças. Daqui a quatro anos, teremos uma nova classe de supremacistas brancos e um grupo de pessoas negras torcendo, mais uma vez, por um país racista…

Infelizmente, as contas que mais mereciam nossa atenção não são de pessoas famosas. São de intelectuais sérios que estão fazendo a diferença com uma literatura afrocentrada, indígena e cigana, mas que não ganham visibilidade porque o brasileiro se encanta com jogadores loiros. Eu aprendi como é a rotina do Haaland, o que ele come no café da manhã e sua vida simples no campo. Vi crianças andando na rua e cantando a música que leva seu nome e mulheres sonhando em casar-se com ele (e olhe que o cara nem é bonito). Ah, o privilégio branco…

O mais engraçado é que não vi debates nas escolas sobre o fato de o Neymar apoiar bets, sonegar impostos ou ter financiado a liberdade de um estuprador. Nas lojas, as camisas com o número 10 estão sendo vendidas a todo vapor. Eu lutei para achar uma com o número 7 e nada. Vini é preto demais pra gente querer saber o que ele come no café da manhã?

Nessa disputa sem vencedores, estamos esquecendo que, na Argentina, no dia 19 de julho de 1924, na província do Chaco, cerca de 400 a 500 indígenas Qom e Moqoit foram fuzilados e mutilados pela polícia e pelas forças estatais após protestarem contra condições análogas à escravidão nas plantações de algodão, ou do decreto mais brutal da história espanhola, também conhecido como o “Grande Êxodo Cigano”, no qual, sob o reinado de Fernando VI, uma operação militar secreta prendeu cerca de 9.000 a 12.000 ciganos. Homens foram enviados para minas e arsenais, enquanto mulheres e crianças foram forçadas ao trabalho em fábricas. Milhares de famílias foram separadas. Maaaaas, a Espanha venceu!

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