Luciano Almeida: a coragem escrita na história
Há pessoas que morrem deixando saudade. Outras deixam também uma responsabilidade.
A morte de Luciano Almeida nesta terça, 28 de julho, me impõe justamente essa segunda tarefa, a de não permitir que sua história seja reduzida à notícia de sua partida.
Luciano pertenceu a uma geração que pagou com a liberdade o preço de sonhar um Brasil democrático. Sua trajetória começou ainda na juventude, nos movimentos da Ação Católica em Natal, onde tantos jovens descobriram que a fé também podia significar compromisso com a justiça social. Dali seguiu para o movimento estudantil organizado e, quando a ditadura fechou todas as portas da democracia, escolheu a resistência clandestina. Integrou organizações revolucionárias, enfrentou o regime militar, foi preso em 1970, torturado e permaneceu quase dez anos como preso político.
Mas nem as grades conseguiram prender aquilo que sempre pareceu ser sua maior vocação, a palavra. Enquanto a ditadura tentava encarcerar corpos, Luciano escrevia. Escrevia clandestinamente.
Foi dentro da Penitenciária Professor Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá, entre 1976 e 1977, que nasceu A Esquerda em Questão. O livro, publicado anos depois pela Cooperativa dos Jornalistas de Natal (Coojornat), não foi apenas uma obra escrita na prisão. Foi uma reflexão produzida em pleno cárcere por quatro militantes do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), quando pensar criticamente o país também era um ato de resistência.
Não era um livro escrito depois da tempestade. Era um livro escrito no meio dela.
Ali, entre muros, grades e vigilância permanente, Luciano ajudava a elaborar uma das primeiras grandes reflexões produzidas por militantes da esquerda armada ainda durante a ditadura sobre os caminhos que haviam sido percorridos e aqueles que ainda precisavam ser construídos. Era um exercício de coragem intelectual. Não significava renunciar aos ideais de transformação social, mas compreender que a democracia exigiria novos instrumentos de luta.
Talvez seja essa uma das maiores grandezas de Luciano. Ele nunca confundiu firmeza com rigidez. Teve coragem para enfrentar a ditadura. E teve coragem, também, para revisar suas próprias certezas. Poucos conseguem fazer as duas coisas.
A prisão também não foi um tempo de resignação. Luciano participou das greves de fome organizadas pelos presos políticos, transformando o próprio corpo em instrumento de denúncia contra a violência do regime. Quando quase tudo lhes havia sido retirado — a liberdade, o convívio com a família, a profissão, os sonhos mais imediatos — ainda lhes restava a possibilidade de dizer “não”. E foi esse “não”, sustentado muitas vezes pelo próprio sacrifício físico, que ajudou a expor ao país e ao mundo a brutalidade da ditadura brasileira.
Meu pai, Glênio Sá, caminhou ao lado dele em parte dessa história. Os dois conheceram o peso da repressão, das prisões, das perseguições e da clandestinidade. Pertenceram a uma geração que compreendeu que democracia não nasce espontaneamente, ela é construída por pessoas que, muitas vezes, sequer viverão para colher todos os seus frutos.
Nós, filhos e filhas dessa geração, herdamos não apenas suas lembranças. Herdamos uma dívida.
Nos últimos meses, eu vinha conversando com Juan e com seus irmãos sobre um desejo antigo. Queria entrevistar Luciano.
Não seria uma entrevista qualquer. Queria ouvir dele aquilo que os documentos jamais conseguem registrar: as pausas, os silêncios, as dúvidas, os medos, as convicções e, sobretudo, a impressionante capacidade que alguns homens possuem de atravessar o sofrimento sem permitir que ele lhes roube a humanidade.
A entrevista foi sendo adiada.
Mas o tempo, às vezes, decide por nós.
A diabetes começou a impor um ritmo diferente à vida. O corpo foi sendo obrigado a renunciar, pouco a pouco, a partes de si. Mas nunca tive a impressão de que Luciano estivesse diminuindo. Ao contrário. Enquanto seu corpo perdia território, sua história parecia crescer.
Porque existem pessoas cuja grandeza deixa de morar apenas no presente e passa definitivamente a ocupar a memória coletiva. É assim com Luciano. Seu legado não está apenas na resistência à ditadura. Está na redemocratização. Na reconstrução da vida política brasileira. Na defesa permanente da democracia. Na atuação como jornalista. No trabalho desenvolvido no Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Norte, do qual foi dirigente após deixar a prisão. Está, sobretudo, na convicção de que nenhuma sociedade pode abrir mão da liberdade sem pagar um preço altíssimo.
Depois da prisão, ele voltou a fazer aquilo que sempre acreditou ser indispensável para qualquer democracia, comunicar. Exerceu o jornalismo, participou da organização da categoria, escreveu, refletiu sobre a esquerda, sobre a democracia e sobre o país que ajudara a reconstruir. Sua militância não terminou quando os portões da prisão se abriram. Apenas encontrou novas formas de existir.
Hoje sinto um enorme vazio por nunca ter conseguido ligar o gravador diante dele.
Há entrevistas que não poderão mais ser feitas. Felizmente, existem vidas que já responderam às perguntas mais importantes antes mesmo que elas fossem formuladas.
Luciano respondeu com sua coragem. Com sua coerência. Com sua escrita. E com a serenidade de quem atravessou uma das páginas mais violentas da história brasileira sem abandonar a esperança de um país mais justo.
Seu filho escreveu, ao reconstruir sua trajetória, que contar a vida de Luciano é também compreender os caminhos da resistência à ditadura, da luta pelas liberdades e da construção da democracia brasileira.
É exatamente isso.
A vida de Luciano nunca pertenceu apenas à sua família ou aos seus companheiros de geração. Ela pertence à história do Brasil.
Seu livro permanece. Sua história permanece. Sua luta permanece.
E enquanto houver quem conte às novas gerações quem foi Luciano Almeida, a ditadura continuará perdendo, todos os dias, a batalha que mais desejou vencer: a do esquecimento.
Hoje o Brasil perde um de seus homens de coragem. Eu perco a entrevista que sonhei fazer. Seus filhos perdem o pai. Seus amigos perdem uma presença. Mas a história ganha mais uma obrigação, a de não permitir que Luciano Almeida seja lembrado apenas pela morte.
Alguns homens atravessam o tempo porque compreenderam que viver é deixar marcas.
Luciano foi um deles.