OPINIÃO

Hélio Gavião

O apelido devia ser por conta de seu nariz adunco.

Eu costumava chamá-lo de “Paco Gavillan”, o bandido das montanhas. Um personagem de uma história que li.

Ele, ficava feliz e dava uma risada, de hiena, gostosa.

Era alto forte. E tinha um jeito característico, cadenciado, de andar.

As pernas grossas, e tortas, por isso  facilmente confundido, ainda garoto de 15, 16 anos, com jogador de futebol.

Parecia, acreditem, um jogador de futebol, mas era muito ruim de bola.

No entanto, estava metido em tudo que fosse pelada de rua e tentou jogar, sem sucesso, nos vários times de futebol da cidade.

Morou alguns anos na Cidade Alta, na esquina da Rua Padre Pinto, no final da Apodi, cruzando as ruas Vaz Gondin, Gonçalves Ledo, Voluntários da Pátria, Santos Antônio e Padre Calazans.

As velhinhas e velhinhos das imediações não iam muito com a cara dele. Fazia muita zoada na esquina e tinha mania de correr atrás dos gatos e cachorros.

Eles diziam: “esse bicho dos ‘zói’ de gato não vale nada”.

Era malvado demais, o Gavião.

E a sua risada de hiena era conhecida na esquina da padaria Avelino Teixeira e mercearia de Júnior.

Sabe aquele tipo de cara bagunceiro, mas que todo mundo gostava de ter por perto? Era ele.

Suas histórias eram sempre as mais engraçadas, para não dizer suas mentiras. Todo dia chegava com uma nova.

Sem falar que tinha as velhas “requentadas” tantas vezes repetidas, sempre modificadas, mas que nos fazia rir cada vez mais.

Tinha as ideias mais maldosas.

Na casa da velhinha que criava nove cachorros pequenos, ele combinava, juntava a turma e fazia todos passarem correndo e bater no portão.

A cahorrada ladrava furiosamente por mais de dez minutos a cada batida. Maldade pura com a velhinha que furava as bolas que caíam em seu quintal.

Foi dele também a “criação” de encher saco plástico de xixi e jogar nos ônibus lotados. Horrível essa…

E de aproveitar ovos podres no lixo da mercearia de “Seu Joaquim” para jogar nos alunos que tinham a infelicidade de passar pela rua para pegar ônibus na parada, antiga, da Rafael Fernandes, a “rua da catinga”.

As histórias que mais gostava de contar envolviam sempre um amigo seu, O Selvinho, Sérvulo Deus.

Selvinho era alecrinense, e gostava de jogar no gol, e nas narrativas de cobranças de pênaltis ele inventava as grandes mentiras.

Num dia falava como o Sérvulo foi parar no hospital por bolada no estômago. No outro, zombava de como ele caiu com bola e tudo dentro da rede porque quis agarrar um chute de um adulto; a intenção dele era sempre ridicularizar o amigo.

E ele ia contando tudo isso, como se fosse um locutor de futebol, e terminava sempre empolgadamente: “defendeuuuuuuuuuuuuuuuuu ….o goleirão Sérvulo de Deuuuuuusss…sensacional…!

Só que, quando Selvinho estava presente, ele se mancava. Selvinho olhava feio e ele mudava de assunto.

Era muito divertido.

Parece que o amigo, mais antigo, tinha uma arma secreta para calar a boca do nosso Gavião.

Ria, fechava a juntando os dedos em forma de bico e colocava na sua própria boca… era a única maneira de calar Hélio Gavião, apelidando-o de “Chuchupa Hélio”…

O Gavião gostava de falar também sobre as faltas de Icário, atacante, paraibano, famoso, que passou pelo Alecrim, campeão invicto, artilheiro em 1968.

Ele costumava dizer que as cobranças de Icário, sempre de curva, davam a volta no Morro de Mãe Luiza e entravam no gol do ABC, time que ele odiava.

Falava também que certa vez Icário bateu uma falta tão forte que derrubou os “abecedistas lisos” que assistiam ao jogo pendurados numa mangueira fora do JL.

Suas maiores brigas, e birras era com Toinho Nicotinha, outro personagem que já desfilou aqui no blog.

Ele repetia sempre um causo acontecido entre eles: todos os dias Hélio Gavião, ainda novato na rua, para passar pela esquina, passar por Toinho Nicotinha, tinha que “pagar o pedágio”, dar um pão ao “nêgo que, não duvidem, talvez fosse pecinha pior ainda que o “Paco”.

E por conta desse “pão faltando” todo dia Hélio levava uma surra da sua mãe quando chegava em casa.

Ele contava, e Nicotina não desmentia que, certo dia, puto da vida, já tendo levado uma surra antes mesmo de sair de casa, pensou consigo “esse neguinho hoje me paga…”

Na passagem,. Para lhe irritar mais ainda, o Neguinho disse: “Ei, Gavião, hoje eu quero pão de côco”.

O nosso herói conta que baixou a cabeça, trincou os dentes e pensou. “Destá que eu vou lhe dar o pão de coco nego safado”, e foi para a padaria.

Na volta, quando o Neguinho foi metendo a mão no saco de pão, Hélio Gavião deu-lhe um soco espetacular que o sem vergonha caiu por cima da porta de Zé Sapateiro, causando um rebuliço enorme na esquina já famosa.

E foi assim. Nunca mais Nicotina ficou de botuca na esquina querendo lhe tomar um pão.

E depois de contar, caía na gargalhada, com a sua característica risada de hiena.

Tem mais umas duzentas histórias de Hélio Gavião, algumas impublicáveis. Mas era uma figura.

O time da rua, a seleção da Cidade, ia jogar na Colônia Penal João Chaves, o Caldeirão do Diabo, no tempo de bandidos famosos e perigosos como Severo, Arnaldo, José Vilarin, os irmãos Ruela, Mago, a família Timbira e tantos outros.

Eram jogos de futsal.

Gavião, com seu jeito debochado, metia o cacete para cima nos caras. Isso garantido pelos fuzis dos vigias na torre.

Tinha um bandido perigosíssimo, o Dedê, que jogava muito bem, e limpo. Hélio Gavião, não tinha o que fazer, derrubou o cara, fez falta feia e ainda pisou nas costas dele.

Nem precisa dizer que os guardas de fuzis se prepararam…a coisa ia feder.

Dedê levantou, caminhou na direção de Gavião, olhou duro e disse: “bicho do oi de gato, aqui dentro você é valente, confia nos hômi do fuzil, mas lá fora até as pregas se encontra…”

Pensa que o desgraçado ficou com medo? Que nada. Passou o resto do jogo e do dia dando risada do bandido.

“Sai daí, tu vai morrer aqui dentro…” foi a resposta do desinfeliz. Sorte dele que o Dedê nunca saiu, e se saiu ninguém teve mais notícia.

Hélio Gavião, não me perguntem por que, era titular no time da rua. No meio dos vários craques, craques mesmo, Zé Carlos, Toinho, Pequeno das Cachorras, PPO, Paulinho, Zé Perequeté… ele dava um jeito de ser escalado.

Vestia a camisa e ninguém tinha coragem de deixar ele no banco.

Ele só não se criava no Independente de Edival. O negão dizia logo: “Não Hélio, tu é ruim demais, não joga no meu time não…”.

Talvez tenha sido por isso que, macomunado com Toinho Nicotina e o carcereiro Assis,  no mesmo “Caldeirão do Diabo” fez uma armação para assustar o pobre do Edival. Mas esta é outra história.

Hélio Gavião, que figuraço! Foi surfista, jogador de botão, tentou jogar no América, não conseguiu, nem futebol ou futsal.

Por falar em América, essa é a última dele e vou contar:

Era tempo da escolinha de Sombra, ex-goleiro que passou no clube nos anos 70 e teve essa ideia.

Hélio Gavião foi lá treinar. Mas fez tanta confusão, provocou tantas brigas nos treinos, que o goleirão carioca perdeu as estribeiras…

“Saia, saia, saia daqui senhor olho de gato, o senhor é marginal! É marginal! É marginal! E ficou repetindo isso.

Essa frase dita por Sombra ficou famosa na rua e nem precisa dizer que ele mesmo ficava dando gargalhadas rememorando o carão que levou de Sombra.

Hélio Gavião, Raimundo Hélio, perdeu o contato com a turma da Cidade Alta. De vez em quando alguém dá notícia dele, segundo Edival, nosso treinador do Independente da Cidade Alta, Hélio Gavião já não está entre nós.

Não sei. Não duvido nada que ele, dias desses, reapareça na nossa equipe famosa com suas histórias e risada de hiena.

Afinal, ele é o “Paco Gavillan”, o bandido das montanhas.

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Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos