20 anos depois: O que pensa sobre o Brasil e o RN uma jovem que nasceu no ano em que Lula subiu a rampa do Planalto pela 1ª vez
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20 anos depois: O que pensa sobre o Brasil e o RN uma jovem que nasceu no ano em que Lula subiu a rampa do Planalto pela 1ª vez

1 de janeiro de 2023
15min
20 anos depois: O que pensa sobre o Brasil e o RN uma jovem que nasceu no ano em que Lula subiu a rampa do Planalto pela 1ª vez

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Por Ana Beatriz Sá, especial para a agência SAIBA MAIS

Eu nasci 53 dias depois da posse do Lula em 2003, no dia 23 de fevereiro, época de carnaval. Eu estava quase pronta pra sair da barriga da minha mãe quando, pela primeira vez na história, um operário, ex-metalúrgico e ex-preso político, assumia a presidência da república no Brasil. Minha mãe sempre conta o quanto chorou assistindo a posse na televisão na casa dos meus avôs, e só pela fala dela eu conseguia sentir a emoção daquele momento, tão singular na história do meu país. Um país que sempre foi construído pelas mãos de quem trabalha, mas que nunca tinha visto uma dessas pessoas alcançar o poder na democracia burguesa.

Quando era pequena e ouvia essa história, eu não sabia que Lula tinha passado diversas eleições sem conseguir se eleger, e que em sua campanha vitoriosa, abriu mão de um horizonte revolucionário, no qual não só ele poderia chegar ao “poder”, mas toda a sua classe. Apesar disso, o sentimento naquela hora parecia esse. Mas só parecia.

Basicamente, cresci boa parte da minha vida no governo Lula. Cantava seu jingle de campanha em casa, e era sempre uma alegria falar do Lula. Pra mim era unânime que aquele senhor barbudo era adorado pelas pessoas. Acompanhar momentos históricos enquanto criança às vezes é difícil. Você só compreende plenamente tempos depois, e quando forma uma opinião política sobre, dizem que “você não acompanhou o processo de verdade”.

Aos 4 meses de idade, Ana Beatriz e a mãe, a jornalista Jana Sá / foto: cedida

Eu acompanhei minha família vibrar com as conquistas da anistia dos presos políticos e suas famílias - que foram indenizadas financeiramente pelo Estado brasileiro, acompanhei a melhoria na qualidade de vida na minha casa, acompanhei minha família conseguindo - pela primeira vez - comprar um carro 0km e reformar a casa, acompanhei minha mãe conseguindo estudar e se formar com uma bolsa do FIES, acompanhei partidos de esquerda crescerem e ascenderem na política, acompanhei minha família militante comemorar as vitórias daquele tempo histórico.

Eu, que sempre ouvias histórias do meu avô materno - comunista e preso político da ditadura -, que construiu a Frente Brasil Popular e militou tantos anos pela eleição, ainda não vitoriosa, de Lula. Os conceitos de campo político, de esquerda e de direita, não eram tão bem formados na minha cabeça. Só sabia que existiam forças opostas, uma espécie de bem e mal, mas que o mal parecia distante e que, como nas histórias de criança, ele nunca vencia. Só o bom e o justo podiam triunfar de verdade.

E tudo sempre parecia bom e eterno, como se fosse o estado natural das coisas. Não existiam contradições, nem grandes problemas na política, e todas as famílias, assim como a minha, também eram felizes. Essa era minha impressão enquanto criança.

A primeira vez que participei de uma campanha de maneira consciente, ou seja, compreendia, nem que fosse um pouco, a conjuntura política da época, foi na reeleição de Dilma em 2014. Foi muito difícil.
Era difícil entender porquê meus colegas da escola privada caçoavam e xingavam aquela figura política de maneira tão odiosa.

Quando aquilo tinha começado? Os dias na escola durante a campanha eram torturantes, tendo que acompanhar meus amigos e os pais deles saírem com seus carros adesivados de “Tchau, querida” e “Fora Dilma! Fora PT”. Pegava brigas constantes com meus amigos, e eu me esforçava para me carregar de argumentos de maneira a conseguir rebater aqueles absurdos que eu ouvia. Às vezes não conseguia argumentar, e me enchia de uma raiva gritante. Como pode? Ouvia pela primeira vez argumentos conservadores, e eles soavam completamente alucinatórios. Meu estado de normalidade era posto à prova, e eu morria de medo de uma derrota eleitoral naquele ano, pela primeira vez.

Naquele ano participei conscientemente dos meus primeiros atos. Eu queria entender tudo o que tava acontecendo. Eu via as pessoas falando das “jornadas de junho” de 2013, e eu sempre ficava me perguntando se eu tinha dormido, porque na época meus maiores desafios eram as provas de matemática. Eu via as capas da revista Veja na casa dos meus avós paternos e me enchia de raiva. Meu consolo era avistar todos os dias um menino do grêmio da minha escola atravessar pela minha sala, adesivado de uma estrela vermelha. Ficava feliz e pensava, ele sabe! Era uma salvação.

Minha mãe me explicava que existiam pessoas que não simpatizavam com os conceitos - que pra mim eram tão unânimes e consensuais - de justiça social, reparação história, distribuição. Fiquei muito revoltada esse ano. Mas muito feliz quando veio a vitória. Uma vitória tão momentânea, curta. Uma amiga minha veio me dizer, no dia seguinte da reeleição, que agora teria que se mudar para os Estados Unidos, porque aqui seria difícil ficar. Em 2015 eu sentia os problemas vindo. As ameaças golpistas e as criticas ferrenhas a um partido político tão conhecido meu, que eu simpatizava tanto. E a impressão era de que os ataques vinham e nós estávamos só recebendo passivamente, mas eu tinha a certeza de que tudo passaria, como sempre passou.

Um sentimento terrível de derrota consumiu o ano de 2016. Pela primeira vez, ouvi falar do Michel Temer. Ficava sem entender como tinham escolhido ele como vice-presidente, em que momento aquilo fazia algum sentido. Participei de todos os atos contra o golpe. Naquele ano eu tinha feito 13 anos, e minha inquietação sobre as coisas crescia. Em uma manifestação que participei, a seguinte música tocava no carro de som: “Não vai ter golpe de novo! Reage, Reage meu povo!” E eu olhava para as pessoas nas ruas durante a caminhada, e não era bom. Em um dia na escola, havia uma discussão sobre o MST. Uma menina disse que eram criminosos, e me ouvindo rebater, disse que era melhor então eu leva-los pra morar na minha casa. Quando as pessoas se tornaram tão estúpidas? Era só o que eu me perguntava. Foi nesse ano também que ouvi pela primeira vez o nome de “Bolsonaro”, e a mesma menina na minha sala alegou que ele era um pai de família, um ótimo homem. Um sentimento terrível, terrível de medo e derrota era o que eu sentia. O dia da aprovação do impeachment no Congresso foi devastador. O mesmo sentimento de derrota, tristeza e impotência me acompanhavam até o ano de 2018. Eu usava bottons de “Fora Temer” na minha bolsa da escola, e já era conhecida como a “petista” da sala. Vinham me perguntar se eu era comunista e eu dizia que sim!, porque pra mim sempre foi um conceito conhecido, falado em casa, mas que ainda não era tão formado na minha cabeça.

Bia e a avó Fátima Sá a caminho de Monteiro (PB), onde viu de perto Lula inaugurar a transposição do Velho Chico / foto: cedida

Foram três anos, desde 2016, muito difíceis. Agora eu vejo que eu procurava muito entender a origem daqueles problemas, vejo que eu era posta à prova do meu estado de normalidade, do que eu sempre estive acostumada. As derrotas também eram sentidas em casa, com uma maior dificuldade de se manter financeiramente, tendo uma mãe jornalista e militante e um pai funcionário da Petrobras. Uma mistura de mudanças da idade, conflitos internos e uma conjuntura desfavorável me faziam sentir mal. Mas o sentimento que tudo iria mudar permanecia. E permaneceu até as eleições de 2018, com a vitória do Bolsonaro pra presidência e a prisão de Lula. Esse ano foi um ano de absurdos pra mim. Nunca tinha convivido com discursos conservadores na minha vida, e diariamente ouvir as mentiras da campanha era agoniante. Sempre sentia que faltava alguma coisa. Pra explicar, pra rebater.

Nunca tinha visto uma eleição tão acirrada. Me envolvi completamente na campanha. Nunca tinha usado as redes sociais pra falar de política, e de uma hora pra outra, me vi escrevendo textos, postando de tudo como se pudesse salvar sozinha aquela eleição. Não podia votar ainda, tinha 15 anos.

Chorei desesperadamente no dia do resultado. Era como se o dia seguinte não estivesse garantido, e não tivesse mais nada a se fazer. Queria culpar cada pessoa que eu conhecia por aquela derrota, pessoas da minha família, amigos, qualquer pessoa. Tudo se desintegrava. Hoje percebo a ingenuidade com que lidei com tudo naquela época. Faltava alguma coisa pra explicar aquilo, e eu queria entender mais.

Senti as perdas e as derrotas fortemente no ano de 2019. Me tornava adolescente num período crítico do Brasil. Ameaças de desemprego na família, dificuldades financeiras. Além do peso descomunal de derrota de abatia a todos. Odiava, odeio até hoje esse sentimento.

O ano de 2020 foi meu último ano de ensino médio, estava terminando a escola, teria que prestar Enem, entrar em uma universidade, era o 2º ano de governo Bolsonaro e surgiu a pandemia. Não poderia escrever um cenário mais caótico e desolador.

Foi no ano de 2020 que eu me tornei comunista.

Já tinha lido muita coisa sobre o assunto, sempre foi uma palavra conhecida, mas parecia que nunca me pertencia de fato. Meu avô era militante comunista, minha mãe também, mas parecia que não chegava até a mim. Mas foram as condições históricas do meu tempo, as contradições que surgiam na minha cabeça, a raiva descomunal que eu sentia e a vontade de contra-atacar que me forjaram nesse ano. Sentia na pele as dificuldades da ascensão de um governo fascista, e foi o materialismo histórico-dialético que me fez entender o desenvolvimento de tudo o que eu tinha vivido e visto acontecer. O sentimento de derrota, impotência foi criando uma nova cara. Foi se transformando na capacidade de ação, de entender e agir, na capacidade de construir algo novo, que não parecia com os meus primeiros anos de vida quando criança, nem com os anos difíceis que passei na adolescência. Algo que me remetia à história da minha família, do meu avô, uma história do Brasil que eu não conhecia. “Luta de classes”, “Marxismo-leninismo”, “Revolução” eram termos novos e que me faziam tremer de indignação, mas que também preenchiam um vazio. Uma espécie de conexão, de pertencimento, finalmente. Foi um ano extremamente difícil.

A Petrobras aos poucos foi saindo do Rio Grande do Norte, ameaçando o emprego do meu pai. Minha mãe e o resto da minha família também sentia essa instabilidade política que refletia nas coisas em casa. O medo constante do vírus, a miséria que acometia o país, as dificuldades e a pressão pra passar numa universidade pública no meio disso tudo. Que ano difícil!

Bia com o pai, Rodolpho Vasconcelos, em manifestação em Natal / Foto: cedida

Foi em 2020 que entendi de fato o significado de militância política. Pisei numa ocupação urbana do Movimento de Luta nos Bairros (MLB) pela primeira vez naquele ano, e vi que, no meio da pandemia, existiam pessoas que lutavam permanentemente, conscientemente. Não eram as mesmas pessoas que eu via nos anos de 2014, 2016, 2018… Foi nesse ano que conheci a Unidade Popular pelo Socialismo e a União da Juventude Rebelião, organizações políticas as quais cresciam e se organizavam principalmente naquele ano. Eu estava decidida. Quando passasse no Enem, eu iria me organizar, iria virar militante comunista.

Uma conexão sem igual com meu passado foi despertada em mim, e as dificuldades de viver sob um governo fascista se transformavam numa saída revolucionária.

Hoje em dia sou presidenta do Centro Acadêmico de Psicologia, coordenadora de mulheres do Diretório Central dos Estudantes da UFRN, militante comunista da União da Juventude Rebelião (UJR) e da Unidade Popular Pelo Socialismo (UP). Sou militante do movimento estudantil. Vivi os piores momentos pra ser jovem no Brasil. Vivi os anos em que a UFRN corria risco de ser fechada por falta de verba. Nenhuma perspectiva de emprego pros jovens no país, um vírus matava centenas de pessoas por dia, o Brasil voltou pro mapa da fome e da miséria extrema, a qualidade de vida diminuiu brutalmente, as pessoas catam no lixo restos de alimento pra alimentar sua família, o SUS, as universidades perdem cada vez mais investimentos, uma ameaça de golpe paira no ar e uma grande crise política e econômica acomete o país. Não teve um mês que não participasse de luta, de manifestações, agitações e atividades políticas de militância. Foram dois anos incansáveis, e completo no ano que vem dois anos de militância política.

Acompanhei um ano de eleição para presidência, entre Lula e Bolsonaro. Um momento histórico. Uma eleição em que pela primeira vez eu poderia votar e atuar como militante. Mas tudo era diferente de 2003.

De lá pra cá eu nasci, vivi os altos e baixos do Brasil, perdi e ganhei muitas coisas, mudei de opinião, construí e destruí pensamentos e crenças, me formei e cresci. Vi uma vitória, vi Lula ganhar para presidente da república, pude votar nele. Mas nada é como 2003.

Hoje, percebo que as vitórias precisam ser completamente coletivas.

Tenho 19 anos hoje. Ser comunista no Brasil hoje é acreditar na possibilidade de construir algo novo. Enquanto jovem, e a juventude tem essa característica, tenho espírito de indignação e não me contento com pouco. Ser jovem e viver momentos históricos é uma experiência única. Quando meu avô tinha minha idade, ele pegou em armas e foi construir uma guerrilha no campo. Tudo fervilhava, na época, e sinto que a juventude de hoje tem a mesma indignação e pulsa essa vontade de alcançar algo novo, sempre sonhando, mas com os pés na realidade concreta das coisas. Sonho muito hoje em dia, e sonho com o socialismo no meu país.

Hoje sei que Lula não é mais um operário, não pertence mais à minha classe e não pode nem quer conquistar esse futuro revolucionário que almejo coletivamente. Hoje são as mãos da minha geração, dos meus companheiros - novos e velhos - de luta que construirão esse caminho. Hoje eu vejo os erros do passado e não acredito em traidores da classe trabalhadora, a classe que quase nunca teve vez nesse país. Tenho muitos planos e sei que, nos grandes limites da falsa democracia burguesa - uma democracia mutilada - a vitória de Lula representará um respiro pro nosso povo. Mas não passará de um respiro, porque eu sei, e a juventude me permite ter isso de forma fervorosa em mim, que podemos e devemos querer mais.

Vou fazer 20 anos no ano que vem, sou militante, tenho fé no povo brasileiro e quero uma revolução socialista no Brasil, quero ver com meus próprios olhos o povo tomando o poder e anos de paz e prosperidade para os meus.

Vou assistir a posse de Lula em casa, com uma alegria no peito, mas sabendo que não acaba ali.

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