Mudas e cheiros
Natal, RN 15 de jun 2024

Mudas e cheiros

28 de janeiro de 2023
4min
Mudas e cheiros

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 Nina Horta, uma das maiores cronistas sobre alimentação no Brasil, em seu “O frango ensopado da minha mãe”, fala em algum momento sobre o cheiro dos ares internos das casas de praia. Uma das coisas que mais me emocionam com certeza são os cheiros das coisas etéreas, cheiro das coisas intangíveis.

Vejam bem, Nina não falava simplesmente do cheiro das casas da praia, não. Ela descrevia a sensação de felicidade de respirar o denso e salgado ar do interior de uma casa de praia. Um daqueles cheiros que se confundem com sensações, aqueles cheiros que nos remetem e nos arrematam. Aqueles cheiros que são puro suco de pulsos elétricos cerebrais dançantes de nossas terminações nervosas.

Vocês, caros olhos alheios, devem ter percebido, que houve um certo cheiro de ausência de meus caracteres. Para o exercício de voltar a escrever essas crônicas com cheiro de comida, saudades, experiências e gente, eu fui reler alguns dos meus antigos textos. Muito curioso como a gente muda todos os dias. Algumas coisas eu não mais escreveria, outras eu nem lembrava, algumas fiquei feliz de rever, enquanto tentei “desver” as que me deixaram envergonhado. Mas esse cheiro de mudança é algo que o vento traz quando a gente dobra em qualquer esquina da vida.

Durante esse hiato, foram tantas esquinas e tantos cheiros, que o setor da repartição pública de minha cabeça nesse instante está em polvorosa. Neurônios engravatados, correndo com seus carrinhos de arquivos para um lado e para outro, querendo que essa crônica aconteça. Cheiro de recordação.

Uma semana antes de fazer meus 30 anos, em novembro passado, me deparei com um cheiro de pânico, um cheiro de que “agora ou vai ou racha”. Mil cobranças em forma de panos escuros brilhosos voadores dançavam ao meu redor na cosmologia de minha sala, do meu quarto e no setor de minhas responsabilidades. “Agora você tem que organizar isso e aquilo”, “Agora você não pode mais deixar para depois aqueles exercícios”, “Agora você não pode mais apenas encostar aqueles livros de Bourdieu, Lévi-Strauss e Kopenawa na estante”, me diziam os panos dançarinos.

Esses dias, enquanto sentíamos cheiro de estrada, eu e Bruna nos deparamos com a realidade do cheiro de mudança, esse na verdade estava insistentemente presente desde do dia 30 de outubro de 22, se acentuou no dia 01 de janeiro de 23 e desde então se faz presente. Um cheiro afável, um cheiro que cuida e que nos tranquiliza, um cheiro que tranquiliza um país inteiro.

Estávamos voltando de uma ida à praia quando o Spotify tocou “barracos da cidade" de Seu Gil, percebemos naquele instante, enquanto tentávamos disfarçar o líquido salgado que vibrava em nossos olhos, que aquele cheiro de mudança política nos alivia e faz querer viver e construir esse Brasil da retomada.

Esse cheiro de alívio me tranquilizou. Agora podemos enfim cuidar para que os Yanomamis não precisem mais ser cuidados? Agora podemos comemorar um efetivo combate às fomes todas? Agora podemos esperar o resultado da investigação de Marielle? Agora podemos esperar que racistas, golpistas, genocidas e seus asseclas sejam punidos? Agora podemos esperar o desmantelamento do maquinário que atente nossa gente? Gente de verdade.

Temos ao menos o direito de achar que sim, podemos efetivar a justiça social que todos nós almejamos. O cheiro de mudança, o cheiro de gente, o cheiro que me tranquiliza, inibem o fétido da maldade que estava posta em nossos celulares e ceias natalinas. Será que conseguiremos? Só o tempo dirá. Porém, é inevitável que esse perfume de esperança tome conta de nossos dias e nos façam querer ser vetores de melhores cheiros.

E quando tudo isso se faz presente, quando todos esses espectros olfativos bailam em minhas lembranças e constroem afavelmente minhas memórias, a comida, a gastronomia, a gente, as curvas e linhas imaginárias de nosso paquiderme potiguar me dizem: “Ei Max, essa é sua casa e aqui você sempre encontrará seus amigos etéreos e físicos, todos de verdade”.

Talvez por isso, esse cheiro de vontade de vir aqui mais uma vez se faça necessário vez por outra. A gastronomia e a alimentação me ensinaram ao longo desses quatro anos natalenses o que é o verdadeiro cheiro do pertencimento, sendo assim, que venham as crônicas. Afinal do que é feito um povo senão de suas lembranças, memórias, histórias, comidas e cheiros?

 

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