“Passe livre já”: por onde andam algumas das lideranças das Jornadas de Junho de 2013 em Natal
Natal, RN 22 de abr 2024

“Passe livre já”: por onde andam algumas das lideranças das Jornadas de Junho de 2013 em Natal

5 de fevereiro de 2023
15min
“Passe livre já”: por onde andam algumas das lideranças das Jornadas de Junho de 2013 em Natal

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Era agosto de 2012 quando um aumento de R$ 0,20 na tarifa dos ônibus de Natal acendeu os ânimos de estudantes e trabalhadores. Aquele foi o estopim para os movimentos Revolta do Busão - que se seguiu ao Fora Micarla - e transformou Natal na pioneira das Jornadas de Junho de 2013, no ano seguinte. Uma década depois, algumas lideranças daquela época relembram o movimento, erros e acertos e orgulhos gerados pela mobilização que ganhou capas de jornais no Brasil e no mundo.

Socialista, Géssica Regis mudou de estado e hoje constrói movimento feminista

Para Géssica Regis, 31, é impossível esquecer o principal ato das Jornadas de Junho em Natal. No dia 20 de junho de 2013, mais de um milhão de pessoas foram às ruas em quase 400 cidades do país. Naquele dia, também, era o aniversário da jovem, então militante do PSTU e dirigente da Assembleia Nacional dos Estudantes - Livre (Anel). A entidade era um braço do partido, fundado em 2009 para fazer frente à União Nacional dos Estudantes (UNE). Hoje, a Anel já está extinta, e os rumos de Regis na militância também mudaram.

“Antes das grandes jornadas de Junho, Natal já tinha um histórico de lutas massivas contra o aumento da passagem da tarifa, e inclusive a gente conseguiu barrar vários aumentos. Antes da grande eclosão em junho de 2013, a gente já tava se mobilizando contra o aumento da tarifa, aí veio junho e foi o estopim”, relembra a historiadora, formada pela UFRN.

Segundo a professora, a pauta do transporte coletivo já era um problema naquela época, com tarifas caras e ônibus sucateados. Para ela, o 20 de junho foi um “misto de sentimentos”.

“A gente tava muito feliz, porque estávamos nos mobilizando há um tempo e num ato massivo na cidade, com muito orgulho”.

Géssica Regis, à frente, com camisa branca da Anel, em protesto na CMN em favor do projeto do passe livre | Foto: Alex Régis/Tribuna do Norte

Uma das disputas mais marcantes da época foi entre os organizados em partidos políticos e pessoas independentes, refratárias às bandeiras das organizações. De acordo com Géssica, a violência praticada contra os militantes organizados partia de infiltrados de direita. No dia 20, a tensão também esteve presente.

“A gente teve que sair do ato por motivo de segurança. Lembro que saiu PSTU, PT, várias organizações juntas porque não dava mais. Só que aquelas agressões e aquela violência não eram por parte das pessoas que eram do MPL ou eram anarquistas, inclusive essas pessoas estavam com a gente defendendo a gente. O conflito no 20 de junho foi infiltrados da direita mesmo”, afirma.

Como feminista, Regis diz que não era fácil atuar em meio a um movimento de massas sendo mulher e de partido. Na época, também integrava a direção do DCE da UFRN representando o PSTU.

“Naquela época era muito duro ser uma mulher jovem organizada em partido nos movimentos, porque a gente sofria alguns silenciamento. Mas a gente conseguiu avançar. Mesmo com todas as divergências, esses momentos difíceis em assembleias, o movimento ia unificado para a rua na Revolta do Busão, então isso foi ótimo, e depois na luta do Passe Livre”, lembra.

Para ela, analisar junho de 2013 e seus desdobramentos não é tarefa fácil.

“Teve também a disputa da direita, mas foi um momento muito simbólico para parte de setores de esquerda, para quem estava na rua se mobilizando em atos massivos. Não pode só resumir junho como responsável por gestar o MBL [Movimento Brasil Livre] ou setores de direita, mas também como um momento que foi importante para a história do Brasil, de manifestações populares, de uma juventude que estava indo para rua pela primeira vez, uma geração que foi marcada por esses atos, de formação de lideranças. Isso foi muito importante”, aponta.

Regis chegou a ser candidata a deputada federal pelo PSTU em 2014. Rompeu com o partido, entrou para o PSOL e hoje mora em Guaratinguetá-SP, além de compor a Executiva Estadual do PSOL.

“Acho que lembrar todas essas jornadas de 10 anos atrás é pensar que foi uma escola para muitos de nós que continuamos na luta hoje. A gente vê esse momento da nossa história de militância que perpassa toda a história de mobilização de Natal com orgulho por tudo que a gente fez coletivamente”, resume.

"Abaixo a burguesia", pedia pichação no 20 de junho em Natal | Foto: Folha de SP

De acordo com ela, a bandeira do passe livre continua viva.

“Ainda continua o monopólio do Seturn [Sindicato das Empresas de Transportes Urbano] em Natal e ainda tem muita luta para as novas gerações se mobilizarem, mas acho que a gente também deixou um legado que é possível. A gente barrou o momento da passagem por várias vezes, e mostrou que é possível se mobilizar como já fizemos na cidade em outros momentos coletivamente”.

Autonomista, Franklin segue organizando batalhas de hip hop

Franklin Roosevelt, 32, era um jovem estudante quando deu os primeiros passos na militância. Na adolescência, fez parte do PCdoB, foi diretor da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas (Umes) e compunha uma torcida organizada. Se vendo inquieto, entendeu que seus ideais não cabiam dentro de partidos políticos e iniciou uma militância autônoma, sendo um dos nomes do Movimento Passe Livre (MPL).

Antes da eclosão de junho de 2013, participou das mobilizações pela saída da então prefeita de Natal em 2012, Micarla de Sousa.

“Fui estudando um pouco mais sobre a luta autônoma até desencadear as primeiras movimentações da Revolta do Busão. A partir daí comecei a ter contato com o MPL, que já veio da criação do Fórum Social Mundial em 2005 e vinha se articulando na universidade. Como também sempre fui um cara muito crítico da estrutura universitária, que só se prende ao conhecimento e não descentraliza, então ficava muito incomodado com a construção do coletivo dentro da universidade que não saía para a periferia, que era o lugar que sou até hoje”, relembra.

Para ele, a eclosão de mobilizações foi necessária para o momento. 

“Talvez a gente pudesse ter prolongado para realmente ter conseguido fazer uma transformação social a partir daquele momento, se a gente tivesse outra cabeça. Todo mundo era muito novo no que se relaciona à construção política de base. Eu enxergo que foi um movimento totalmente importante para ruptura do que a gente tinha antes, de centralidade de poderes, das construções verticalizadas”, analisa

“A gente não precisava ser acadêmico, ser intelectual, para montar um movimento e fazer a sua militância, porque o hip hop já faz isso há anos sem uma formação política de base direcionada”, observa Franklin.

Para Roosevelt, um dos seus principais orgulhos é a ocupação da Câmara Municipal de Natal.

“A gente passou 11 dias numa ocupação reprimida com alta violência. A galera foi massacrada realmente, mas a gente se manteve firme e forte, mesmo com todas as narrativas de que não era um movimento legítimo, até por parte da própria esquerda”, explica.

O projeto, redigido pelo MPL e apresentado pela então vereadora Amanda Gurgel, chegou a ter parecer favorável na Comissão  de Legislação, Justiça e Redação Final, mas ao final foi barrado. 

“Os caras sempre tentavam vetar, vetar, vetar, até um dia que a gente ocupou a Câmara e passamos 11 dias até a votação do MPL. Foi derrubado, porém, a gente tem esse marco na história do movimento autônomo, que foi a construção política e abrir as portas da Câmara Municipal, da participação popular, a partir dali”, destaca.

Petista, Dany Guedes é sindicalista e dirigente do PT em Caicó

Dany Guedes em um dos 'roletaçõs' | Foto: cedida

Em 2013, Danielly Guedes era a coordenadora-geral do DCE da UFRN e estudante de Pedagogia, no campus de Natal. Ela defende que o movimento era suprapartidário.

“Havia militantes de vários partidos e também os anarquistas, todos juntos na organização. As deliberações eram tiradas em assembleias e a divisão das tarefas também”, descreve.

De acordo com Guedes, as manifestações trouxeram um recado às próximas gerações.

“O grande legado foi a mobilização da juventude. Mostrou que a juventude tem força e poder de organização. Era um movimento do povo, para o povo, que conseguia o apoio e a adesão dos trabalhadores. Acredito que 2013 foi o start pra mostrar que estávamos acordados e com disposição de lutar e ir às ruas. Foi o despertar”, aponta.

Mídia tradicional se tornou alvo dos manifestantes | Foto: Felipe Ramos

Danielly morou em Natal de 2010 a 2018. Em 2014, entrou na assessoria da então deputada (e hoje governadora) Fátima Bezerra, e se formou no curso de Pedagogia em 2015. No mesmo ano, foi convocada no concurso para professores do Governo do Estado e entrou na direção do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do RN (Sinte), onde permanece até hoje.

Em 2019, a petista se mudou para Caicó para trabalhar na assessoria do deputado estadual Francisco do PT, e também assumiu a presidência da sigla na cidade.

“Tenho muito orgulho de tudo que vivemos e fizemos. Foi um período de muito trabalho e tensão. Estávamos sempre a postos para qualquer novidade. O DCE, além do viés de estar ativamente nos protestos, também estava nos debates institucionais buscando dialogar com sindicatos, com o prefeito, com a Câmara Municipal”, lembra.

“Praticávamos o roletaço, pulávamos a catraca e colocávamos todos para entrar grátis”, recorda.

Apesar disso, também se recorda de divergências travadas no seio da organização. 

“Natal foi a pioneira nos movimentos de 2013, que acabaram eclodindo em todo o país. Em determinado momento houve entraves no movimento pois começou a ter divergências nas pautas. O foco já não era mais o aumento de passagem. Começou sobre corrupção, era o ‘Fora Todos’ e nosso grupo não concordava muitas vezes”, aponta.

Ainda assim, vê o movimento como vitorioso. Em uma das faixas produzidas pelo DCE à época, o diretório parabenizava “todos os estudantes e aqueles que construíram a Revolta do Busão, conquistando a revogação do aumento da passagem”.

Cientista social, Altanir foi às ruas com o MPL contra “tubarões do transporte”

Em 2013, Altanir Morais, 37, ainda estava na graduação em Ciências Sociais na UFRN e vinha de passagens por direções de entidades como UMES, Apes [Associação Potiguar dos Estudantes Secundaristas] e Ubes [União Brasileira dos Estudantes Secundaristas], até romper com essas forças.

No primeiro ato que se recorda, em março de 2013, descreve a repressão vivida pelos estudantes. Na época, já era ligado ao Movimento Passe Livre.

“Eu conhecia uma galera que já era da política e geral organizou o primeiro ato, que foi brutalmente reprimido pelo BP Choque da PM e PRF, que encurralaram os manifestantes no túnel do Quarto Centenário e ‘tacaram’ bomba em geral. Até então, o que era uma manifestação completamente pacífica passou a ter conotação de ‘massacre’ pelas forças de segurança”, critica.

De acordo com o cientista social, a “agressão desproporcional” da Polícia gerou a organização de novos atos, mas com diferenças entre os autonomistas e organizados em partidos. Ele integrava o MPL.

Discussão de manifestantes com policiais | Foto: reprodução

“A gente defendia a construção de um movimento amplo, popular e de massa, para resistir à repressão e pautar a luta, que naquele momento era só contra o aumento dos transportes. Já a galera dos partidos e entidades defendiam um movimento de vanguarda, onde a liderança deles e das entidades que eles dirigiam fossem superiores às demandas populares. A sugestão deles era que eles, os representantes, ditassem a pauta do movimento e a condução”, afirma.

É daí, segundo Altanir, que nascem as críticas à Junho de 2013 por parte de setores partidários. 

“A Revolta do Busão se organizava em grandes comissões, como comunicação, segurança, finanças e etc. Cada comissão dessa tinha pelo menos 10 cabeças, que vinham dessa diversidade toda, inclusive dos partidos, mas tudo construído coletivamente”, aponta.

As jornadas trouxeram à tona outros personagens. Adeptos da tática black blocs, anarquistas iam mascarados e de preto, para evitar a identificação da Polícia. Para Morais, a tática de defesa surgiu como reação à violência policial, mas sofreu críticas da própria esquerda.

“A esquerda institucional, que já estava abalada por não liderar um movimento, passou a criminalizar esses manifestantes. Ora, pra galera da classe média é muito fácil ir para uma manifestação e depois ir pra sua casa num condomínio, mas em 2013 era muita galera da periferia mesmo, movimentos do hip hop, skate e underground. Era um movimento muito diverso, mas que tinha uma preocupação de não ser identificado para não sofrer repressão”, explica.

Protesto aglutinou outras pautas. Na imagem, cartaz contra a então governadora Rosalba Ciarlini | Foto: Felipe Ramos

“Quando você vai pra rua, em geral tem conflitos com as forças de segurança e tem seu rosto exposto. É um risco. Inclusive, diversos manifestantes em 2013 tiveram ‘visitas’ indesejadas da polícia, mesmo sem ter nenhum inquérito ou processo. Não era tão simples ir sem máscara pra rua. Também tinha o gás lacrimogêneo. A polícia ‘testou’ todo o aparato que depois iria usar na Copa do Mundo, nos manifestantes em 2013, mas a esquerda institucional, nessa altura do campeonato, já estava ajudando a direita, criminalizando o movimento, e separando os manifestantes entre legalistas x vândalos”, critica o antigo membro do MPL.

De acordo com Altanir, Junho de 2013 mostrou que é possível ter uma ampla mobilização popular sem direção dos partidos, e tendo os moradores da periferia como protagonistas.

“Esses movimentos também serviram pra mexer com essa esquerda, que naquele momento estava muito confortável e apática às demandas sociais, uma vez que nos governos progressistas era difícil saber o que era partido, movimento social e governo”, defende.

De acordo com Morais, a pauta de 2013 continua atual e mostra que não é preciso buscar somente a redução das tarifas, mas o fim das cobranças.

“Esse modelo de transporte privado é falido desde sempre, porque se utiliza de um direito constitucional para obter lucros. É necessário não mais debater a redução das tarifas, mas o fim delas, o direito à cidade e a todos os aparelhos que ela produz”, pontua.

“As ciclovias, calçadas acessíveis, ônibus acessíveis, vias exclusivas, integração dos meios de transporte público, municipalização, estatização ou federalização dos transportes são pautas que compõem o modelo de cidade que queremos construir. O que está claro é que, nesse modelo, não cabem os empresários de ônibus, nem muito menos as cobranças absurdas e a influência política que eles exercem sobre nossa cidade”, defende.

Atualmente autônomo, Altanir segue na militância e integra o Coletivo Autônomo Potiguar – Assum Preto (CAPOT-RN), grupo libertário e antifascista que atua em Natal e região metropolitana.

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.