Depois do alagamento: como vivem os refugiados climáticos em Natal
Natal, RN 22 de jun 2024

Depois do alagamento: como vivem os refugiados climáticos em Natal

24 de maio de 2024
6min
Depois do alagamento: como vivem os refugiados climáticos em Natal
Rua alagada em Natal | Foto: Vinícius Marinho/Inter TV Cabugi

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As chuvas que afetaram a capital potiguar atingiram e prejudicaram a vida de dezenas de famílias que, de um dia para o outro, perderam tudo que tinham dentro de casa, ou até mesmo, a própria casa. Em novembro de 2023, as precipitações que caíram na cidade, alagaram grande parte da Zona Norte. Depois disso, nas chuvas da última semana, três lagoas de captação transbordaram e alagaram os bairros mais uma vez. Dessa vez, a prefeitura de Natal já sabia do problema.

A agência Saiba Mais conversou com moradores que perderam a casa para as chuvas de novembro na capital e moradores que só não perderam dessa vez porque decidiram abandonar suas residências antes disso, com medo do pior acontecer. São os chamados: “Refugiados Climáticos”, pessoas forçadas a sair de suas residências por causa de desastres ambientais.

Como é o caso dos avós de Maria Eduarda, que moravam no conjunto Panatis, na Zona Norte de Natal. As precipitações de novembro encheram a lagoa de captação do Panatis e alagou vias e casas na região, sendo a casa dos idosos uma delas. A residência do casal foi completamente destruída pela força das águas e, desde então, os idosos vivem na casa dos filhos. Maria Eduarda explica que os idosos não conseguiram acesso ao benefício do Aluguel Social, devido a alta demanda de pedidos, e por isso, foram forçados a morar na casa dos parentes.

“Eles só interditaram e não falaram nada. Sumiram do mapa. Quando vai atrás não tem ninguém pra resolver nada. Ficam jogando de um pra outro, e meu avô é idoso pra ficar sendo feito de bola de tênis”, desabafa.  

Agora, seis meses após serem forçados a sair de casa, o casal de idosos se vê sem autonomia, desamparados pelo poder público e com medo de ter que reviver a situação mais uma vez, porque a tragédia que os deixou desabrigados não foi a primeira que aconteceu no bairro deles. A casa do casal chegou até a ser invadida por peixes contaminados que viviam na lagoa de captação próxima a casa. 

Casa do casal de idosos foi completamente destruída | foto: cedida/reprodução TV Tropical

O Aluguel Social é benefício que dá proteção às famílias em situação de vulnerabilidade temporária pelo advento de desastres, calamidade pública ou ocorrências de riscos, perdas e danos à integridade pessoal e familiar, decorrentes da falta de moradia, segundo a Prefeitura de Natal. Ainda segundo o município, Qualquer membro familiar pode solicitar o auxílio temporário, por meio da Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social – Semtas. São prioridade crianças, idosos, pessoas com deficiência, gestante, nutriz e as famílias envolvidas em situações de calamidade pública.

Outros moradores anteciparam a saída das casas com medo do pior 

Cansados de ver a água invadindo suas casas por descasos do poder público, alguns moradores optaram por deixar as suas casas e ir viver de aluguel em regiões mais “seguras”. Como é o caso de Cláudia Dantas, auxiliar de limpeza, que morava no Bairro Nossa Senhora da Apresentação e teve sua casa invadida pela água diversas vezes. Cláudia morava em um ponto mais baixo da Rua Sampaio Correa e diante de tantos alagamentos, optou por sair da sua própria residência e ir morar de aluguel.

E ela não foi a única, Cláudia comenta que quase todos seus vizinhos já fizeram a mesma coisa, ficando somente aqueles que, por diversos motivos, não podem deixar a casa para trás. “É triste porque a gente tem que abandonar a casa que mora, muitas vezes quitada, como é o meu caso, e passar a viver morando de aluguel.”, explicou. 

“Não é um problema novo, já aconteceu diversas vezes e chega uma hora que a gente cansa. É a sensação de ser abandonada pelo poder público, porque sempre que chove acontece a mesma coisa”, finaliza.

Na Zona Norte de Natal, os repetidos alagamentos são comuns. Tanto é que, cansados de esperar pelo poder público, moradores da rua Rua Tenente de Souza, no bairro Pajuçara, decidiram denunciar a situação através de vídeos humorísticos na internet. Veja aqui. Esses moradores sofrem com repetidos alagamentos há, pelo menos, uma década, como já denunciaram a Agência Saiba Mais. 

RN tem 31 cidades com risco de desastre ambiental

Além de Natal, outros municípios potiguares podem sofrer com desastres ambientais, como mostrou o mapeamento feito pelo governo federal. O estudo apontou 1.942 municípios brasileiros mais suscetíveis a desastres associados a deslizamentos de terras, alagamentos, enxurradas e inundações, o que representa quase 35% do total dos municípios brasileiros. No Rio Grande do Norte, foram identificados 31 municípios em maior risco. Veja as cidades potiguares:

“O aumento na frequência e na intensidade dos eventos extremos de chuvas vem criando um cenário desafiador para todos os países, em especial para aqueles em desenvolvimento e de grande extensão territorial, como o Brasil”, diz o levantamento que deve subsidiar obras previstas para o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). 

As áreas dentro dessas 1,9 mil cidades no país consideradas em maior risco concentram mais de 8,9 milhões de brasileiros, o que representa 6% da população nacional. Os dados foram sistematizados até o ano de 2022. 

O RN está fora da lista dos estados com a maior proporção da população em áreas de risco, sendo eles: Bahia (17,3%), Espírito Santo (13,8%), Pernambuco (11,6%), Minas Gerais (10,6%) e Acre (9,7%). No entanto, o estado potiguar também não está entre as unidades da federação com a população mais protegida contra desastres, ou seja, Distrito Federal (0,1%); Goiás (0,2%), Mato Grosso (0,3%) e Paraná (1%). O Rio Grande do Norte tem 6,9% de sua população em risco, um total de 142.369 pessoas, de acordo com o estudo. Leia a matéria completa aqui. 

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