Trans-escrita
Natal, RN 5 de jun 2026

Trans-escrita

4 de janeiro de 2025
5min
Trans-escrita

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Esses dias terminei de ler um livro muito instigante, um ensaio sobre o processo da leitura e sobretudo da escrita feito por uma autora travesti argentina, a Camila Sosa Villada. Para quem nĆ£o a conhece, indico seu romance ā€œO parque das irmĆ£s magnĆ­ficasā€ e seu livro de contos ā€œSou uma tola por te quererā€ ambos editados e publicados pela Editora Planeta do Brasil, alĆ©m, claro, do ensaio autobiogrĆ”fico ā€œA viagem inĆŗtil: Trans-escritaā€, publicado pela Fósforo, texto do qual despertou minha vontade de escrever a crĆ“nica de hoje.

Logo nas primeiras pĆ”ginas, Villada diz que ā€œlendo na minha cama, o mundo Ć© gentil. Encontro um refĆŗgio.ā€ Parei nessas frases e um filme da minha vida se estampou diante dos meus olhos. Quantas vezes os livros foram meu refĆŗgio, foram meu chalĆ© na floresta, minha casa da Ć”rvore, minha cabana armada no quarto trancado. Quantas vezes me protegi do mundo com folhas, pĆ”ginas e mais pĆ”ginas de livros. Elas e eles me protegiam e me protegeram de vĆ”rias formas. (AtĆ© hoje!)

Muitas pessoas nĆ£o se aproximavam de mim porque os livros as impediam. Eram meus escudos. E tambĆ©m minhas armas de defesa. Por estar sempre lendo, eu era a CDF, a nerd da turma, a ā€œinteligenteā€. NĆ£o sabiam elas, as outras pessoas que me cercavam, que os livros eram muros de proteção e afastamento. Algumas vezes amuletos de aproximação e de sedução. E eles me salvavam das violĆŖncias, das chacotas, e da solidĆ£o profunda (apesar de sempre ter tido facilidade em fazer amigos… amigas, sobretudo).

ā€œ[…] existe um poder no exercĆ­cio da leituraā€. E eu o experimentei muito cedo. PorĆ©m, discordando da autora, digo mais, existem poderes: o de se tornar invisĆ­vel, o de nĆ£o se sentir sozinha, o de se fazer ser lida como inteligente e, portanto, aceita em certos ciclos, o de desenvolver pensamento crĆ­tico, repertório e oratória e, assim, fazer-se persuasiva, decidida, firme… Ah, a linguagem e seus mĆŗltiplos poderes. Eu os experimentei, repito, das maneiras mais eficazes que pude: com eles, sobrevivi.

A leitura me deu vazĆ£o para a escrita muito cedo. E escrever – descobri isso mais tarde – era outro poder, Ć© outro poder. Villada registrou em seu ensaio: ā€œEscrevo… e assim, como se nĆ£o fosse nada, salvo minha vida. Salvo minha tristeza. Invento um mundo só pra mim.ā€ Sim, a leitura e a escrita me salvaram. Me fizeram feliz e me deu meu mundo. Com essas ferramentas, eu ā€œConstruĆ­ meu mundo de delĆ­ciasā€ – tĆ­tulo que dei para uma publicação minha de 2011.

Em um trecho dessa antiga crĆ“nica se diz: ā€œFiz meu mundo, apesar de…/ Adaptei-o a mim o quanto pude. Transformei-o em meu habitat e fui aceita em alguns lugares. Talvez pela sutileza ou naturalidade como o deixei me conhecer. / Hoje ele se encaixa em muitas das minhas necessidades. Sinto que ele necessita de mim, Ć s vezes, e nĆ£o raras. Tornei-me importante para ele. (Ɖ nisso que eu preciso crer.)ā€

E posso crer porque Ć© assim que o registro, e Ć© assim que o leio, e foi assim que o fiz e o compreendo e, lendo e escrevendo esse mundo, me salvo. ā€œA literatura Ć s vezes faz profecias, busca encontros, estimula o desejo dos outros sobre mim mesma, celebra-se como ato de amor, e entĆ£o Ć© uma bĆŖnção ser escritoraā€, diz Villada em seu ensaio, e tomo para mim seu trecho. Talvez a leitura e a escrita tenham sido a sutileza e a naturalidade das quais falei na minha crĆ“nica de 2011. E isso foi uma bĆŖnção!

De muitas formas a leitura e a escrita me fizeram e me protegeram de ā€œtodo o preconceito… que existe em relação Ć  travesti.ā€ Pelo menos de boa parte dele. Deram-me abrigo, funcionaram como barreiras, fizeram-me uma promessa, uma profecia. Fizeram-me ver que ā€œUma filha travesti, escritora, um monstro desse tamanho, retorcido em si mesmo, prisioneiro do mundo, sempre propenso a cair em covas cada vez mais profundas, uma criatura lamuriosa, solitĆ”ria, sempre pronta para se rebelar, atĆ© mesmo quando os ventos estĆ£o a seu favorā€ poderia se ressignificar no mundo e ser aceita, e ser respeitada, e ser amada.

Assim como a Villada, ā€œMeu primeiro ato de travestismo foi pela escrita.ā€ Nela eu jĆ” era Bia. ā€œEscrever implica uma rebeldia…ā€ e eu me rebelei atravĆ©s dela. Escrever me deu permissƵes: a de existir como eu queria, onde eu queria, com quem eu queria, mostrando todas as identidades com as quais eu poderia performar. Permitiu-me dizer ao mundo que estamos aqui, nós, mulheres Trans/Travestis, ocupando lugares diurnos e cotidianos, para alĆ©m da noite e da sarjeta e do ostracismo (lugares e situaƧƵes nos quais condicionaram nossa existĆŖncia ā€œnaturalā€).

Escrever me permitiu acender um holofote sobre nossas existências humanamente iguais, mas socialmente distintas. Sobre nossos sofrimentos, nossas solidões, nossas vÔlvulas de escape, nossos corpos fetichizados, nossos sonhos e desejos. Permitiu-me ser vista e amada, e, de alguma forma, experimentar a imortalidade, mesmo que, neste país haja uma sentença de morte aos 35 anos para nós, mulheres Trans/travestis.

Que a leitura e a escrita continuem salvando nossas vidas. Que a leitura e a escrita continuem sendo nossas armas e escudos de resistência e sobrevivência. Que a Literatura, sobretudo a Literatura, seja um ato de amor como dizia Borges, de amor por todos nós, por todas nós.

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