“Fascismo nunca mais”: agressão a professor da UFRN provoca onda de solidariedade
Na noite da última quinta-feira (14), o auditório da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) foi palco de uma cena que atravessou o ritual festivo da colação de grau e expôs uma ferida ainda aberta na sociedade brasileira. O professor Adriano Gomes, paraninfo das turmas de Comunicação Social e orador do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), encerrou seu discurso com a frase: “fascismo nunca mais”. Em seguida, foi agredido por um homem que o interpelou, atacou verbalmente e chegou a cuspir em seu rosto.
O episódio ressoou de imediato. Entidades, movimentos sociais, coletivos acadêmicos e parlamentares manifestaram repúdio e solidariedade, destacando que o ataque se insere em uma disputa mais ampla sobre memória, democracia e liberdade de expressão.
O Comitê Estadual de Memória, Verdade e Justiça do RN classificou a agressão como um reflexo do autoritarismo ainda presente no país. Em nota, afirmou que “não se trata apenas de um ataque a um professor, mas de uma tentativa de silenciar vozes críticas e naturalizar o fascismo”. O Comitê relembrou a perseguição política vivida durante a ditadura militar e destacou que a defesa da democracia e dos direitos humanos permanece como um compromisso inegociável.
A própria UFRN se pronunciou oficialmente, prestando solidariedade ao docente e reiterando “o repúdio a qualquer tipo de violência, preconceito ou discriminação”.
Movimentos estudantis também reagiram. O Movimento Correnteza-RN relacionou o episódio à continuidade da violência política contra a universidade e recordou casos históricos, como o de Emmanuel Bezerra dos Santos, estudante morto pela ditadura militar e recentemente diplomado postumamente pela instituição. Para o movimento, a agressão evidencia que o fascismo, longe de ser uma invenção, permanece como ameaça concreta à educação crítica. “Nos solidarizamos ao professor e reafirmamos a luta contra o fascismo dentro da nossa universidade e da nossa sociedade. Foi o fascismo que em 1964 torturou, perseguiu e assassinou centenas de estudantes“.
No mesmo tom, o coletivo Democratiza UFRN destacou que a violência contra Adriano Gomes não é um fato isolado, mas “parte de um padrão de ataques que seguem instigados por forças reacionárias que afrontam a democracia brasileira”.
As manifestações de solidariedade também vieram de entidades de classe. O ADURN-Sindicato afirmou que divergências de opinião são parte do Estado democrático de direito, mas “não existe possibilidade de acordo com o fascismo ou com atos de violência”. Já a Associação em Defesa da Justiça e da Cidadania (ADJC Potiguar) ressaltou que o ataque “não foi apenas contra um professor, mas contra princípios constitucionais e direitos fundamentais garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição de 1988”.
Parlamentares potiguares, como a deputada federal Natália Bonavides (PT), o deputado federal Fernando Mineiro (PT) e o vereador de Natal Daniel Valença (PT), também se manifestaram. Para Bonavides, a agressão reforça a necessidade de “gritar sempre: fascismo nunca mais”. Mineiro destacou que atos violentos “são típicos daqueles que não respeitam a democracia” e defendeu a responsabilização do agressor. Da mesma forma, Valença afirmou confiar “na Polícia Civil para identificar e punir o agressor“.
Em mensagem pública, o próprio professor Adriano Gomes agradeceu a solidariedade recebida e informou que já tomou medidas formais:
“Agradeço a todos e todas vocês que me prestaram solidariedade ante a atitude truculenta que sofri por um fascista na colação de grau da UFRN. Informo que o B.O. já foi feito e agora o caso segue com a polícia e com a justiça. Fascismo nunca mais!”
As reações mostram que, ao dizer “fascismo nunca mais”, Adriano Gomes não apenas ecoou uma frase, mas acendeu um campo de disputa simbólica. O ataque sofrido dentro da universidade revela o incômodo que a memória histórica e a crítica ao autoritarismo ainda provocam em setores da sociedade.
Entre notas, falas e gestos de apoio, o episódio reafirma que o fascismo e o jornalismo não se encontram: enquanto o primeiro busca silenciar, o segundo insiste em narrar, denunciar e manter viva a possibilidade de um debate público baseado na liberdade e na democracia.
Leia também – Professor da UFRN é agredido em colação de grau após frase “fascismo nunca mais”