Prefeito de Mossoró politiza ação da PF e fala em “perseguição”
Natal, RN 15 de jun 2026

Prefeito de Mossoró politiza ação da PF e fala em “perseguição”

27 de janeiro de 2026
4min
Prefeito de Mossoró politiza ação da PF e fala em “perseguição”

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Horas após a Polícia Federal cumprir mandados de busca e apreensão em sua residência no âmbito de uma operação que apura um suposto esquema de fraudes em licitações e desvios de recursos da saúde no Rio Grande do Norte, o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil), divulgou um pronunciamento em tom político, no qual associa a investigação ao calendário eleitoral e à sua projeção nas pesquisas para o Governo do Estado.

Na fala, o prefeito afirma que recebeu os agentes “com cordialidade”, que teve celulares, notebook e HDs apreendidos e que confia na Justiça. Ao mesmo tempo, sustenta que o inquérito teria origem em 2023 e que só agora, “em ano eleitoral”, seu nome teria sido citado, sugerindo uma suposta tentativa de desgaste político. “Eu não poderia esperar passar por esse ano sem que nada fosse feito contra mim”, declarou, em referência direta ao cenário de 2026.

A estratégia discursiva, no entanto, contrasta com o conteúdo objetivo da investigação, que não foi deflagrada por motivações políticas, mas a partir de auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU), que identificaram indícios de não entrega de medicamentos, fornecimento inadequado e sobrepreço em contratos da saúde, além de possíveis fraudes em procedimentos licitatórios. Trata-se de uma apuração técnica, conduzida por órgãos de controle e autorizada pela Justiça Federal, que resultou no cumprimento de 35 mandados em diversas cidades do estado, incluindo Mossoró.

Ao atribuir a operação a um suposto contexto de perseguição e ao invocar reiteradamente a fé e o apoio popular, o prefeito evita enfrentar o núcleo da investigação: a existência de indícios concretos de irregularidades em contratos públicos sensíveis, que envolvem recursos destinados ao Sistema Único de Saúde e, portanto, impactam diretamente a população usuária dos serviços.

Também chama atenção o esforço em apresentar como prova de transparência um decreto que obriga o registro de medicamentos no sistema federal Hórus. Embora o mecanismo seja, de fato, uma ferramenta de controle, ele não substitui a fiscalização sobre licitações, execução contratual, preços praticados e entrega efetiva de insumos, que são justamente os pontos sob apuração da CGU e da Polícia Federal.

A tentativa de deslocar o debate para o campo da disputa eleitoral e da “antecipação de ataques” ocorre, ainda, em um contexto no qual a gestão Allyson Bezerra já vinha sendo alvo de denúncias e procedimentos investigativos anteriores, inclusive sobre suposta cobrança de propina em contratos, suspeitas de direcionamento de licitações e questionamentos sobre a atuação dos órgãos de controle, fatos relembrados pela Agência Saiba Mais na cobertura publicada mais cedo. Em 2025, denúncias de um empresário ao Ministério Público apontaram suposta cobrança de propina em contratos da Prefeitura de Mossoró, com percentuais que chegariam a 4% e teriam sido pagos a intermediários e, segundo a acusação, ao próprio prefeito, o que gerou procedimentos judiciais e debate público sobre a divulgação de áudios e os limites da liberdade de imprensa; paralelamente, órgãos de controle apuraram suspeitas de direcionamento de licitações e subcontratações irregulares, em investigações no MP Estadual e Federal, além de controvérsias na Câmara Municipal e na Justiça sobre a condução das apurações e a competência para investigar o chefe do Executivo.

Ao colocar sua narrativa em termos de fé, destino e complô político, o prefeito evita responder às questões centrais que interessam à sociedade: quais contratos estão sob suspeita, quais empresas são investigadas, que falhas a CGU identificou e como a gestão municipal pretende garantir transparência plena e acesso público às informações.

Em um estado marcado por graves carências na área da saúde, a resposta institucional esperada de um gestor público diante de uma operação dessa magnitude não é a vitimização política, mas a apresentação objetiva de dados, documentos e explicações técnicas. A tentativa de transformar uma investigação de órgãos federais em episódio de disputa eleitoral, além de deslocar o foco do interesse público, contribui para tensionar a relação entre política e instituições de controle, fundamentais ao funcionamento do Estado democrático de direito.

A Agência Saiba Mais segue acompanhando os desdobramentos da operação e a tramitação das investigações.

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