Desabastecimento de hormônios afeta atendimento à população trans no RN
Responsável pelo atendimento no Rio Grande do Norte, o Ambulatório Trans Murilo Gonçalves, localizado no Hospital Giselda Trigueiro, em Natal, enfrenta uma série de críticas de pacientes que relatam dificuldades para acessar medicamentos, exames e consultas. Usuários do serviço afirmam que problemas estruturais antigos, somados à falta de profissionais e à interrupção no fornecimento de hormônios, têm comprometido o acompanhamento de centenas de pessoas trans e travestis que dependem do ambulatório para dar continuidade aos seus tratamentos.
Segundo relatos de pacientes, o serviço conta atualmente com apenas uma médica para atender cerca de 600 pessoas cadastradas. Como o ambulatório possui abrangência estadual, usuários de diferentes municípios precisam se deslocar até a capital para consultas periódicas, renovação de receitas, realização de exames e acompanhamento clínico. A sobrecarga da equipe é apontada como uma das principais causas para atrasos em consultas e dificuldades no acesso aos serviços.
O homem trans Céu Antônio Rodrigues acompanha de perto a situação e afirma que uma das principais preocupações dos pacientes é a falta da Hormus, medicamento utilizado no processo de hormonização de homens trans. De acordo com ele, o ambulatório aguarda o reabastecimento do produto há cerca de 10 meses. Durante parte desse período, o serviço recebeu uma doação de Deposteron, medicamento com características diferentes, que passou a ser distribuído aos usuários. No entanto, o estoque também teria se esgotado há aproximadamente quatro meses.
“Estamos aguardando a chegada da Hormus há 10 meses. Durante esse período, recebemos uma doação de Deposteron, mas o medicamento acabou há cerca de quatro meses. Na prática, centenas de pessoas transmasculinas estão com o processo de hormonização suspenso ou precisando custear o tratamento do próprio bolso“, afirma.
Segundo ele, uma caixa da Hormus pode custar em torno de R$ 400 em farmácias particulares, valor considerado inacessível para parte significativa dos usuários do serviço.
Além da questão dos medicamentos, os pacientes relatam dificuldades para realizar exames laboratoriais necessários ao acompanhamento hormonal. Também apontam a falta de insumos para alguns procedimentos e afirmam que equipamentos utilizados em exames preventivos estariam sem funcionamento há anos. Para quem depende exclusivamente da rede pública, a situação acaba gerando atrasos no monitoramento da saúde e aumenta os custos para aqueles que recorrem a clínicas e laboratórios particulares.
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O estudante Caeu Leonardo Nunes Santos, que iniciou seu acompanhamento no ambulatório em julho de 2024, conta que enfrentou a falta de hormônios logo após a primeira consulta. Segundo ele, mesmo tendo recebido a prescrição médica, precisou comprar o medicamento por conta própria porque o estoque da unidade já estava vazio. Na época, conseguiu arcar com os custos graças ao trabalho e à bolsa que recebia da universidade, mas reconhece que essa não é a realidade da maioria dos pacientes.
“Na primeira consulta levei os exames e recebi a receita, mas o hospital estava sem hormônio. Como eu trabalhava e tinha bolsa da universidade, consegui comprar. Paguei mais de R$ 300 na Hormus e tive que comprar novamente alguns meses depois porque o medicamento continuava em falta“, relata.
Ele afirma que, ao longo do acompanhamento, também encontrou dificuldades para realizar exames na unidade. Morador de Parnamirim, precisava se deslocar até Natal, o que dificultava o acesso ao local:
“A coleta acontecia muito cedo e por ordem de chegada. Além disso, poucos ônibus passam perto do hospital”, conta.
Falta de profissionais é outro problema
Outro problema relatado pelos usuários envolve a falta de profissionais para substituir a médica responsável pelo ambulatório durante férias, afastamentos ou viagens. Segundo os pacientes, quando isso acontece, as consultas costumam ser remarcadas para meses depois, interrompendo o acompanhamento regular. Como há apenas uma profissional responsável pelos atendimentos, qualquer ausência acaba afetando diretamente centenas de pessoas que dependem do serviço.
Caeu afirma que vivenciou essa situação mais de uma vez.
“Quando ela (a médica) entrava de férias ou viajava, ficávamos sem ninguém para atender. As consultas eram adiadas por muitos meses. São muitas pessoas para apenas uma médica“, diz o estudante, que também relata episódios em que compareceu ao hospital para consultas previamente marcadas e descobriu apenas ao chegar que o atendimento não ocorreria naquele dia, sem ter sido informado antecipadamente sobre o cancelamento.
Durante o período em que o ambulatório distribuiu o Deposteron, parte dos pacientes precisou adaptar o tratamento ao novo medicamento. Embora tenha conseguido manter a hormonização por alguns meses, Caeu afirma que percebeu mudanças físicas e emocionais que associa à troca do hormônio. Segundo ele, o medicamento possui ciclos menores e provoca oscilações hormonais mais frequentes.
“Quando comecei a usar o novo hormônio, tive algumas reações negativas, como perda de peso sem explicação, aumento das espinhas e alterações de humor. Como o ciclo é menor, ele provoca mais oscilações hormonais“, relata.
Após o fim dos estoques, o estudante voltou a comprar o medicamento com recursos próprios. Atualmente, além de arcar com os custos do hormônio, também realiza alguns exames em laboratórios particulares quando eles não estão disponíveis na rede pública.
Comunidade trans luta pela ampliação da oferta de serviços
Os relatos também apontam para a ausência de avanços na oferta de procedimentos cirúrgicos destinados à população trans no estado. Pacientes observam que ambulatórios semelhantes em estados vizinhos já realizam cirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto no Rio Grande do Norte os encaminhamentos continuam limitados. Para os usuários, a situação evidencia a necessidade de ampliação da política pública voltada à população trans, que não se restringe apenas ao acesso à hormonização.
Para Céu Antônio Rodrigues, o cenário representa um problema de saúde pública que afeta diretamente uma população historicamente vulnerabilizada. “
Essa situação afeta diretamente a saúde física e mental da população trans de todo o estado. É uma demanda urgente. Não é razoável que uma população já vulnerabilizada tenha dificuldades para acessar serviços que são garantidos por lei“, afirma.
Diante das dificuldades relatadas, pacientes cobram providências da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap), incluindo a regularização do abastecimento de hormônios, a ampliação da equipe de atendimento, a garantia da realização de exames e melhorias na estrutura do ambulatório. Para eles, a manutenção do serviço é fundamental para assegurar a continuidade dos tratamentos e o acesso integral à saúde da população trans potiguar.
A reportagem procurou a Secretaria Estadual de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap) para comentar as queixas e aguarda posicionamento. O texto será atualizado caso haja resposta.