Naquela tarde ensolarada da minha infância fui à mercearia do seu Virgínio comprar barras de sabão. Na entrada estava essa mulher com a idade de uma mãe (ao menos tinha a idade da minha) usando saltos da mesma cor do batom. Isso, em plena luz do dia.
Era velha como uma mãe, eu já disse, mas parecia não se dar por vencida, porque usava saltos, batom e cabelos penteados. Estranhei aquilo e me indispus mentalmente com a mulher, que não se apresentava como todas as outras que eu conhecia.
Ela não se demorou. Transparecia vergonha, talvez por perceber que os homens e eu, então uma menina de oito anos mal completos, a inspecionavam. Os saltos tocando o chão fizeram barulho tlec, tlec, tlec e muitos anos depois, comparei aquela saída dramática com as dos filmes de amor.
“Prostituta de cais”, seu Virgínio informou assim que a velha moça saiu. E os outros riram achando-se muito espertos por saberem daquilo. “Amancebou-se com Galdino”, ele emendou em uma generosa oferta de deboche.
Esqueci aquela cena (esqueci?) assim que cheguei em casa com o sabão que vovó usaria nas roupas. Continuei com minhas obrigações: balançar um irmão na rede e buscar o outro no jardim de infância.
Mais tarde, a família se reuniu na varanda para a serena da noite. Os boletins haviam chegado e as notas, tanto minhas quanto da irmã mais velha, davam gosto aos adultos: “Vão ser doutoras!”, falava vovó, sonhadora.
“No mínimo, mestras do abc”, vovô emendava. “Puxaram ao pai”, meu tio dizia, nem um pouco preocupado com a seriedade de mamãe. O marido em São Paulo procurando emprego. Ela bordando em bastidor de esperas.
“Minha fia quer ser professora?” Vovó provocava, não contendo seu orgulho pelo boletim. O chá de espinheira santa acalmando os ardores do estômago. Ela não estudara, muito menos os filhos, mas as netas trariam redenção à família.
“Quero ser prostituta de cais!”, respondi, achando que oferecia mais uma fatia do doce orgulho que desfrutavam naquela noite fresca. Eu mostrava o sorriso puro que a inocência dá às crianças sem imaginar o desastre que causaria.
Vovó botou o chá para fora, engasgou-se e teve um acesso de tosse. As sobrancelhas de vovô arquearam como da vez em que ele brigou com o vizinho por causa do som alto. As agulhas paralisaram nas mãos de mamãe. Minha irmã mais velha me olhou como se eu fosse uma criminosa de extenso currículo e meu tio deu uma gargalhada parecida com a dos homens da bodega do seu Virgínio.
“O quê… como…”, meu avô tentava dizer, enquanto olhava para mamãe com fúria, como se a esperar que ela se explicasse. Vovó tossia tentando dizer algo, mas a fala morria após a primeira palavra e a tosse voltava com força total. Foi um fim de noite agitado.
“Filha, onde você ouviu aquilo?” Minha mãe perguntou quando fomos dormir. E contei a ela o que tinha acontecido na mercearia. No dia seguinte logo cedo, todos serenaram após se inteirarem da situação. “Coisas de criança”, pensaram. E, por prudência, não me permitiram mais ir sozinha à venda.
Chegou dezembro e fui com meus avós à Rua Chile, na Ribeira. Ela precisava comprar aviamentos, ele a levou e eu fui junto. A rua ficava bem próxima ao cais da Tavares de Lira e não viram problema em me deixar passear por lá para ver a chegada e a partida das embarcações.
Foi quando a vi com os mesmos saltos altos cor de batom, só que, usando um chapéu, que precisava segurar sobre a cabeça por causa do vento. “Prostituta de cais”, lembrei-me imediatamente e fixei os olhos nela.
Um homem com a idade de um pai surgiu. Eles conversaram e depois saíram juntos em direção ao prédio do outro lado da rua onde letras garrafais informavam: HOTEL. Fui para casa pensativa, mas nada disse aos meus avós. Uma certa perspicácia já flertava com minha ingenuidade.
“Mãe, o que faz uma prostituta de cais?”, perguntei, curiosa, tentando vislumbrar meu futuro. Sim, pois não desistira. Os saltos da cor de batom haviam me cativado. Mas, mamãe me olhou apavorada e pediu que falasse baixo para não acalorar os ânimos dos avós que descansavam.
“Filha, para de pensar bobagem!”, “Que coisa feia perguntar isso!”, “Se teu pai souber, viu?”. Dona Constância tentava tirar aquilo da minha cabeça, mas sua precária pedagogia teve efeito contrário sobre mim. A expressão, assim como a imagem da velha moça caminhando no cais com seus saltos altos de princesa, permaneceram.
Ainda hoje, se eu fechar os olhos e me concentrar, vejo-a fingindo ser um tipo que atraía os homens, sem conseguir disfarçar completamente a vergonha. O vento desalinhando seus cabelos, o chapéu mal seguro sobre a cabeça… e um transatlântico cheio de turistas chegando ao porto.