Parque das Dunas: refúgio da Mata Atlântica na capital potiguar
Em meio a uma Natal de muitos prédios e poucas árvores, um lugar cheio de natureza salta aos olhos dos visitantes de primeira viagem e dos frequentadores assíduos: o Parque das Dunas, a primeira unidade de conservação reconhecida no Rio Grande do Norte. O local é, ainda, um posto avançado da reserva da biosfera da Mata Atlântica.
O Parque das Dunas Jornalista Luiz Maria Alves foi fundado em 22 de novembro de 1977, fruto de um trabalho de preservação que dava seus primeiros passos nesse período. A atual gestora da unidade, a bióloga Mary Sorage, conta que houve um projeto de vanguarda nos anos 1970 para definir os rumos do atual Parque das Dunas e da Via Costeira.
O parque virou um espaço de preservação sobre dunas, e a rodovia hoje conhecida como Via Costeira ganhou hotéis.
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“Porque se viu, até numa visão de vanguarda mesmo, considerando que as questões ambientais começaram a ser discutidas internacionalmente a partir de 1972, quando teve a primeira Conferência de Meio Ambiente em Estocolmo, aqui a gente teve essa visão de preservar uma área de dunas importante para o estado, para o Brasil e em termos planetários”, diz Mary.
A bióloga e mestre em Ecologia, que trabalha no parque há 16 anos, afirma que o Parque surgiu com a função de resguardar este trecho remanescente de Mata Atlântica em área de dunas, que comporta um aquífero abaixo do solo. Portanto, desde os anos 1970 já existia uma proteção integral do local, e só em 2000 surgiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).

Outras contribuições que se observou no Parque das Dunas foram que ele evitava o avanço da cunha salina para o continente e auxiliava na climatização da cidade. Quase 50 anos após sua fundação, diversas pesquisas foram realizadas nessa área de Mata Atlântica rica e diversa. A unidade tem 1.172 hectares, o que equivale a cerca de 150 Arenas das Dunas (considerando apenas o estádio).
“O SNUC juntou todas as categorias num único instrumento, formando um sistema. Ele [o SNUC] é de 2000, mas já se tinha no Brasil vários instrumentos de unidades de conservação. Por exemplo, os parques, eles são muito antigos, e as reservas biológicas – o Atol das Rocas também foi criado na década de 70. A categoria de parque, numa perspectiva de unidade de conservação, de proteção integral, ela já é bem antiga”, Mary observa.
Para a gestora, o Parque das Dunas “é um ambiente muito vivo, muito intenso. As pessoas criam ali memórias afetivas muito fortes ao longo da vida delas”.
Mary afirma ter uma formação técnica, cuja competência é necessária para entender o espaço de trabalho, mas o sentimento de amor pelo trabalho é ainda maior. Ela gerencia o parque e é presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.
Conservação do remanescente de Mata Atlântica
Desde 1999, com chancela da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Parque das Dunas é um posto avançado da reserva da biosfera da Mata Atlântica.
“É um reconhecimento do trabalho que é desenvolvido pelo parque nestas áreas de pesquisa, de educação ambiental, de desenvolvimento sustentável”, diz Mary.
Os biólogos Daniel Costa e Dhyego Melo atuam no Parque das Dunas. Eles reforçam a relevância da unidade em diversos âmbitos, como a climatização de Natal, a disponibilidade de água em seu aquífero, a arborização e o aspecto paisagístico.

Daniel, que atua na Administração do parque, comenta sobre o contexto de ameaça à Mata Atlântica.
“O bioma está inserido dentro de um contexto urbano; são áreas que não são valorizadas por sua preservação e conservação, pela questão da especulação imobiliária e crescimento das cidades. O parque sofre com essa pressão”, diz.
Já Dhyego, responsável pela área de zoologia, salienta esse cenário, que torna o bioma um dos mais ameaçados do mundo.
“Hoje, o bioma Mata Atlântica, que antes era uma faixa contínua do Nordeste até o Sul do país, e que margeava o Oceano Atlântico, está todo fragmentado, em sua maioria todo rodeado por cidades”, pontua.
Parque oferece diversas atividades
O Parque das Dunas é uma unidade de conservação do tipo proteção integral, o que significa que tem restrições quanto ao seu manejo, mas não é totalmente inacessível. Muito pelo contrário, o local permite uma série de atividades de pesquisa, educação ambiental, turismo sustentável, exercícios físicos, lazer e cultura.
Para explicar a diferença entre um parque e uma reserva biológica – esta, sim, inacessível –, Mary Solange usa o exemplo do Atol das Rocas, onde só a pesquisa científica é permitida.
“Já os parques têm uma categoria de proteção integral, mas ele amplia esse leque de possibilidades de uso. Você tem áreas que têm uso totalmente restrito de visitação, mas você tem áreas de uso público, onde você tem atividades”.

Conforme destacado pelos profissionais ouvidos pela Agência Saiba Mais, o Parque das Dunas, com mais de mil hectares, possibilita muito em termos de pesquisa, recreação e aventura. Tem o espaço público, em que visitantes e frequentadores caminham, correm, leem, conversam ou fazem piquenique; tem espaços de mata fechada para trilhas ecológicas; e há espaços exclusivos para pesquisadores.
Mary Sorage cita alguns tipos de turismo praticados no Parque das Dunas, entre eles o turismo de observação de aves e o turismo científico. Ela celebra que o parque tem a terceira maior coleção botânica do RN em seu herbário, ficando atrás apenas de duas instituições de pesquisa – a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a Universidade Federal Rural do Semi-Árido.
Crianças correndo, rindo e brincando no Bosque dos Namorados do parque representam uma cena comum. Essa prática ao ar livre traz inúmeros benefícios, como estimular a criatividade e tirar a ansiedade dos pequenos.
Além disso, são comuns pessoas lendo e trabalhando em meio à natureza, passeios de escola, casais tendo encontros, famílias em piquenique e pessoas praticando exercício físico – as mais assíduas começam às 5h, quando o parque ainda não é aberto ao público geral. Isso porque existe um cadastro para quem quer ser coopista, que pode ter acesso desde a madrugada e em todos os dias da semana, pagando uma anuidade de R$ 20,00.
As trilhas, todas elas guiadas, prometem ser um espetáculo, de acordo com a bióloga:
“Você tem uma experiência única de estar adentrando num espaço de uma floresta e tendo um contato espetacular de vivenciar toda aquela energia que você tem naquela mata”.
Até quem tem receio de animais deve tentar, garantem os biólogos Daniel e Dhyego. Os bichos têm mais incômodo com os humanos do que o contrário.

No setor cultural, o parque promove shows musicais, com o Som da Mata, e espetáculos de teatro para crianças, o Bosque em Cena.
O Parque ainda desenvolve projetos específicos junto à comunidade científica e à população, como os projetos Parque Itinerante, Simparque, Mulheres das Dunas, Sentindo a Mata Atlântica e a Trilha dos Sentidos. Além disso, Mary destaca a busca por atividades mais inclusivas, que possibilitem que todas as pessoas, tenham elas algum tipo de limitação ou não, vivam essa experiência.
Casa de biodiversidade
Não só a coleção do herbário destaca o potencial e riqueza da unidade, mas também a fauna e a flora presentes lá mostram sua biodiversidade. Segundo Mary, o herbário tem espécies do parque, de todas as unidades de conservação do RN e de 23 estados do Brasil. “Temos cerca de 486 espécies catalogadas, e nisso a gente não catalogou ainda as briófitas, que são plantinhas bem pequenininhas”, apenas as angiospermas.
Há diversos animais, também: sagui – ou soinho –, iguana, rato-cachorro, tamanduás, serpentes, borboletas, entre outros. São 201 animais vertebrados e 159 invertebrados – 360 espécies. Mary cita um estudo feito pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte que mostrou a importância do parque como um repositório de borboletas para as praças de Natal.
O parque conta ainda com espécies endêmicas, que só existem nele ou apenas na Mata Atlântica do Rio Grande do Norte. O lagarto de folhiço (Coleodactylus natalensis) é um exemplo, identificado em 1999.
“É um lagarto minúsculo, que chega no máximo a 3 centímetros. Ele é ameaçado de extinção, e hoje já se sabe que ele existe não só no Parque das Dunas. [Aparece também] nas manchas de Mata Atlântica que existem [em Natal], por exemplo, no Parque da Cidade”, Mary afirma.
Pesquisas seguem identificando espécies novas, como um maracujá selvagem.
Conheça os setores do parque
A reportagem da Agência Saiba Mais visitou diversos setores do Parque das Dunas. O primeiro foi a Sala de Exposição “Parque das Dunas: um encontro com a sua natureza”, em que há animais taxidermizados e amostras botânicas.
“A sala foi criada com este objetivo de apresentar um pouco sobre a fauna e a flora do Parque das Dunas, do bioma de Mata Atlântica, usando peças taxidermizadas, elementos da botânicas e paineis educativos”, explica o biólogo Daniel Costa.

Quem empalha os animais é o setor de zoologia (fauna), responsabilidade de Dhyego Melo. O setor de botânica (flora) é gerido por Alan Roque. Visitamos também o Centro de pesquisa, onde há os laboratórios de zoologia e botânica, herbário e biblioteca.

A contribuição do Parque das Dunas para a pesquisa científica é destaque no RN. Nesse sentido, Mary destaca o acervo do parque, o papel de promover a educação ambiental e o apoio a pesquisas locais e até de fora do país.
“É um serviço muito importante que a unidade presta para a ciência, para a academia, e também uma forma de conhecer melhor a unidade. O lado científico do parque é muito forte e cada vez está sendo mais fortalecido”, celebra. “O nosso herbário, para você ter uma ideia, é indexado ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que é uma instituição com mais de 200 anos”.
Além disso, Daniel conta que há uma expectativa de haver um espaço educativo e de experimentação no parque, onde funcionava o posto de comando ambiental.

Há duas trilhas, a Peroba – 2,8 km – e a Perobinha – 800 m. Ao longo do percurso, placas informativas explicam temas sobre o parque. Já em relação a serviços ambientais que o parque presta à cidade, Daniel mostra um posto da Companhia de Águas e Esgotos do RN (Caern) que abastece os bairros Mãe Luiza, Tirol e Petrópolis.
Há ainda brinquedos para crianças e os setores culturais Oficina de artes, Folha das artes e Anfiteatro Pau-brasil, além da obra de arte “Mãe Natureza”.
“O parque é incrível. Eu sou muito feliz de trabalhar aqui”, diz Daniel. Dhyego continua: “Como diria Mary, quando a pessoa que entra no parque não ama o parque, não vive o parque, o parque bota pra fora”.
Produção de mudas
Além dos setores já mencionados, há três viveiros e um berçário de mudas. Esta parte é cuidada pelo engenheiro florestal Antônio Giliard, que chegou ao parque em 2020. Ele comenta o dia a dia do trabalho.
O Parque das Dunas produz e doa mudas nativas da Mata Atlântica, mas para isso precisa de permutas e doações. “A gente depende de permutas. Passamos praticamente a metade do ano sem produzir por falta de adubo”, Giliard pondera.

Segundo ele, em condições ideais, com as sementes e o material necessários, pode-se estimar uma produção de 20 mil mudas por ano, mas isso é difícil de atingir e precisar. A produção não é constante por desafios como a falta de adubo. “Uma carrada de esterco é em torno de R$ 1.800,00, então precisa ser uma permuta bem generosa”, exemplifica.
Nos últimos dias, o foco de produção de mudas foi de ipês e de pau-brasil. O engenheiro, com auxílio de jardineiros, realiza o plantio das sementes, acompanha sua germinação, climatização e transporte para os viveiros. Também é preciso proteger os pequenos exemplares de árvores das iguanas e ter cuidado com os patógenos, como fungos.

Mary frisa que o parque é o único viveiro público que produz esse tipo de mudas no RN, nesta escala. As doações são responsáveis, até porque muitas árvores são de grande porte e precisam de muito espaço.
Gestão e participação
Mary Sorage ressalta que a gestão do Parque das Dunas não é exclusiva do Governo do RN, por meio do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema), mas inclui diversos outros agentes, especialmente a sociedade civil.
A Lei nº 9.985/2000, que instituiu o SNUC no Brasil, prevê que as unidades de conservação do tipo proteção integral tenham um Conselho Consultivo, presidido pelo órgão responsável por sua administração – no caso do Parque das Dunas, é o Idema – e constituído por representantes de órgãos públicos, organizações da sociedade civil, entre outros.
“Os conselhos das unidades são paritários, ou seja, você tem igualmente a representação do poder público com a representação da sociedade como um todo, para não ter favorecimento de decisões apenas do setor público”, explica Mary.
Ela cita como integrantes a Secretaria de Turismo do Estado, Secretaria de Turismo de Natal, Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal, Exército (que tem uma área dentro do parque) e Polícia Militar, conselhos comunitários, associações de bairro, organizações não governamentais, universidades e o Sindicato dos Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares do RN.

O Rio Grande do Norte possui 253 mil hectares – que correspondem a 2,41% de seu território – ocupados por 11 unidades de conservação estaduais. Juntas, elas protegem 2,14% da área continental e 14,53% da área marinha do estado. Com essa cobertura, grande parte das riquezas naturais do RN está preservada e contribui para estudos acadêmicos, turismo sustentável e outras atividades, especialmente as áreas de mata atlântica e alguns trechos da caatinga.
Mais informações
Ao público geral, o parque abre às 7h30 e fecha às 17h (fechado nas segundas-feiras)
Taxa de entrada: R$ 1,00
Há a opção de ser coopista, pagando uma anuidade de R$ 20,00 (o parque abre às 5h, de domingo a domingo).
Endereço: Av. Alm. Alexandrino de Alencar, s/n, Tirol, Natal (RN)
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Esta reportagem abre a série de reportagens da Agência Saiba Mais sobre as 11 unidades de conservação estaduais do Rio Grande do Norte.
Acompanhe a série:
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Pico do Cabugy: segunda unidade de conservação do RN é mesmo um vulcão extinto?
Piquiri-Una: área de proteção ambiental preserva águas potiguares
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