Bia e o pé de caju
Natal, RN 26 de jul 2026

Bia e o pé de caju

12 de julho de 2025
3min
Bia e o pé de caju

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Durante uma viagem à Recife, me encantei com um cajueiro frondoso, desses que nascem nas beiras das estradas.

Viajava com um amigo, para quem mostrei aquela planta magnífica, chamando sua atenção com uma fala no mínimo empolgada.

– Tem coisa mais linda que um pé de caju?! – meus olhos faiscaram.

– É bonito, mesmo.

Continuei como se estivesse em um devaneio, pensando longe, num futuro do qual eu não sei nada, mas sobre o qual me pego desenhando horizontes, vez em quando…

– Eu queria ser enterrada assim. – saiu isso espontaneamente.

– Assim como? – perguntou meu companheiro de viagem.

– Nos pés de um cajueiro. – e continuei. – Não  queria ser enterrada em cemitério, principalmente nesses modernos, sem-graça! Queria que meus restos fossem depositados aos pés de um cajueiro frondoso. Pra que meu corpo passasse a ser alimento pra ele, pra seus frutos. Penso que eu e ele juntos daríamos cajus muito sumarentos, vermelhos e macios, redondos e brilhantes. Daqueles que se desmancham na boca, feito água. Bem docinhos.

Meu amigo nada disse. Acho que ele ficou processando essa simbiose entre mim e o pé de caju. E aí, eu continuei.

– Minha alma repousaria feliz à sombra de um cajueiro.

– Não tem João e o pé de feijão? – questionou meu amigo de supetão. – Então você será a Bia e o pé de caju.

Rimos!!!

Na hora eu disse que ele tinha me dado um mote pra uma crônica. Ao que ele me provocou para que eu a escrevesse. Durante parte do percurso me peguei pensando como escreveria essa crônica, e como seria a sensação de me decompor para alimentar uma árvore tão linda.

Não sei se ainda resta alguma consciência quando a gente parte. Mas prefiro pincelar um horizonte post mortem em que eu saiba plenamente o que estiver acontecendo comigo  com meu corpo, com minhas carnes em decomposição, até que…

Eu (ou seria nós?) … fôssemos capazes de saber dos encontros proibidos de namorados, das florações e colheitas, dos suspiros, e choros, e risos, e nódoas nas roupas, e tachos de castanhas assando, e crianças brincando de esconder, de subir e descer de galhos, e festas de casamento ou de São João, que, protegidos por nossa copa,  aconteceriam por anos.

E quem sabe se alguém não faria a versão “Bia e o pé de caju”. Uma história em que o único ser gigante e imponente seria o cajueiro, e que em vez de ovos de ouro, cajus sumarentos seriam desejados, e roubados e consumidos com prazer e contemplação.

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