CULTURA

O dia em que a escritora dos continhos ordinários virou romancista

A escritora, professora e pesquisa Cellina Muniz vai lançar seu quinto livro. Aficcionada por contos, os quais denominava com singela intimidade de “continhos ordinários”, pela primeira vez, no entanto, embarca num romance literário. A aventura se deu em razão das exigências de um edital para um concurso literário. O apoio dos amigos também foi fundamental.

Na ficção, Cellina conta a história de um jornalista, escritor e boêmio que desejava lançar em Natal um jornal de humor no tempo em que a cidade estava ocupada pelos americanos, durante a Segunda Guerra Mundial. O anti-herói tinha vários nomes. A mãe o batizou de José Fagundes, nas colunas de humor ele assinava Zé do Frevo, os amigos e credores o chamavam de Fafá e a narradora o conhecia por José. Ele era jovem, lia e escrevia, amava a cidade e tinha fé na vida, apesar de seu amor secreto gostar de outro, um tal de Johnatan, mais um “galado” gringo que circulava entre a Ribeira e Parnamirirm, em meados dos anos de 1940.

Dos cinco livros, O Bombo será a segunda experiência de Cellina com o financiamento coletivo. Com a força (e o dinheiro) dos leitores, a escritora espera custear a impressão da obra. Para contribuir, basta acessar aqui.

Nesta entrevista, Cellina Muniz, também colunista da agência Saiba Mais, explica os motivos que a levaram a migrar de gênero literário e como é a aventura de uma escritora no mundo (aperreado) do financiamento coletivo.

Agência Saiba Mais: De que trata seu novo livro ?

Cellina Muniz: Este é meu primeiro voo no abismo do que se pode chamar “romance”. Eu formigava com uma ideia já fazia um tempo: embora eu seja e assuma que sou – para o bem e para o mal – uma contista, eu gosto de pensar que posso migrar para onde quiser e posso escrever em vários gêneros. Migrei então para o romance. Quando eu fazia o meu posdoc em 2014 sobre humor em jornais em Natal na Belle Époque, eu pensei nisso: vou contar uma história sobre um jornalista boêmio em Natal (gente como a gente) que quer lançar no mundo um jornal humorístico de resistência e contra-ataque ao que acontece na província. Escrevi a tese e não fiz o romance, mas de repente, poucos anos depois, surgiu um edital da Funcarte em 2018 e eu decidi brincar, mas logo mais eu vi que era tudo muito igual, aquela lógica de quem finge que faz revolução, mas afinal só quer seu cabidão, então eu decidi que para além da concorrência a gente pode ser artista da palavra, leal, então fui falar de um errante jornalista boêmio da Natal de 2ª. Guerra. Ele criou vida. Então em três meses eu escrevi a história do José Fagundes, ora Fafá, ora Zé do Frevo, ora apenas José, o editor d´O Bombo, nome que dá vida ao romance, nome que foi de um jornal carnavalesco que realmente circulou em Natal depois da Segunda Guerra, em 1946. É meu primeiro romance, bem despretensão, bem (des)amor, uma narrativa que fala sobre boemia, cidade e, principalmente, amizade.

Por que a escritora de contas decidiu migrar para o gênero romance ?

Eu me lancei no desafio de participar do concurso literário e o edital fazia essa exigência. Amigos como Thiago Medeiros, Raquel Lucena e, principalmente, Roberto Homem, me deram a maior força. Mas acabei ficando em penúltimo lugar (risos).

Como está viabilizando a edição ?

O livro já está escrito e diagramado, falta só a impressão. Para isso, criamos uma vaquinha virtual, que na verdade é uma campanha de pré-venda.

Você já utilizou a vakinha virtual ?

Sim, essa é a segunda vez. Teimando em resistir. Estratégia. É o jeito, já que o Estado de revolução não faz nada de original. Cria cargo comissão em que pseudo-poeta manda imprimir zine com a exigência de que 30 por cento seja dele, revolucionário poetizando com verso alheio na máquina estatal.

Você acha que o financiamento coletivo é a saída ?

A palavra “saída” é o Ó. Faz parecer que cada um tem que dar seu jeito. Sim. Mas também não. Exijamos sempre do Estado, este ladrão que nos expropria a todo momento, nossa parte, nossa parcela de cultura, literatura, arte, educação. Para além de panelas e privilégios. Nada é de graça, nem migalha, pergunto ao poeta secretário Crispiniano e à governadora professora onde está a revista de cultura e literatura mensal, do RN, nas salas de aula e nas bibliotecas das cidades? A galera está mais preocupada em reverberar bandeira messiânica do que de fato se comprometer com a transformação da sociedade de classes. Talvez até no tempo da oligarquia dos Albuquerque Maranhão se lesse e se escrevesse mais que hoje, o tempo dos conchavos partidários. Vakinha virtual assim é tática, estratégia, manobra e maneira de se virar hoje em dia etc. e tal. Um jeito de autogestão e exercício de uma rede colaborativa. Um jeito de pensar que, melhor que competição, podemos é cooperar entre si.

Para você o financiamento coletivo cria uma relação mais íntima entre o leitor e o autor ?

Sem dúvida, é outra nova forma de se exercer a leitura e a escrita. Para o bem e para o mal. Leiamos e escrevamos.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"