Gargalhada Dágua
Natal, RN 16 de jun 2024

Gargalhada Dágua

2 de fevereiro de 2020
Gargalhada Dágua

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Quando emergi da água, trinta segundos de respiração quebrantada, Teresa não estava mais lá. A nossa aposta era sempre irrevogável e eu pensei “dessa vez perdi”, mas não, Teresa eu acho que não estava mais brincando e, se tivesse morrido, não era pra estar boiando? Ai meu deus, porque justo hoje fui fugir da aula de física, talvez tivesse alguma teoria acerca do tempo que demora pra um defunto boiar nágua. Não fui hoje. Fiquei sem Teresa e sem explicação.

Calma, Pablo. Respire mais um pouco. Agite um pouco a água. Dê braçadas desesperadas, se for preciso. Vá até o fundo, cruze os dedos enquanto nada, bata palmas para os peixes, afaste as tampinhas de coca-cola toscamente usadas como isca, volte à superfície mais uma vez, enxugue os olhos, observe o movimento das plantinhas em torno do açude, conte as canoas que estão à margem, olhe para o cachorro que corre atrás das borboletas e agora grite:

– Teresa!

Ouça o eco de sua voz e sinta como é triste a solidão. Mas não desista!

– Teresa! Deixe de brincadeira! Daqui a pouco toca pra gente voltar pra casa e a gente ainda tá molhado!

O eco de minha voz é um estampido no escuro. A incerteza é um isqueiro sem gás. Parece que as nuvens avolumaram-se em menos de um segundo e, se não vai chover, pelo menos o frio compensa. Compensa os galhos invertidos das algarobas sedentas; o brilho secreto das pedras polidas pelas chuvas de verão; o ataviado movimento das garças em busca do banho raso nágua. Mas nada compensa o silêncio que a solidão ausculta.

– Teresa!

Fui saindo da água arrastando comigo o frio e as garças. Na beira do açude vesti meu jeans e a camisa da escola. Deixei os livros à margem, esperança última de um desencontro fatídico. Empreendi uma busca invisível por entre as plantas íngremes de debaixo do sol. As nuvens voltaram a se alegrar. De vez em quando, chamava Teresa e, do ponto em que estava, cada vez mais alto e úmido, avistava o açude vazio. Canoas balançando, garças voando e o eco de minha voz retumbando no horizonte.

– Teresa!

Nós nos conhecíamos há alguns meses. Tinha se mudado pra Acari com seu pai, o engenheiro que cuidava da construção de um grande hotel aqui perto do açude Gargalheiras. Desde que a vi pela primeira vez, senti um açude sangrando e rebentando as várzeas dos meus poros, o ninho sonoro de entre as minhas pernas, o cálido tropeço de meus pés quando corriam pelo mato, entre as cabrinhas matuscando seus pensamentos verdes. Acho que me apaixonei. Ela era tão simples e altiva, tão correta e desvairada, tão particularmente risonha e linda, que ficamos perto, muito perto. Era Teresa que me procurava para as insinuantes conversas ao longo da tarde sadia, nas praças bonitas de Acari. Inexplicavelmente, ela gargalhava e fazia voar os passarinhos, tinha um jeito de olhar de soslaio e parecia muito com uma atriz coadjuvante de cinema. É verdade que quase não tinha seios, o que parecia bem tedioso quando ela usava a roupa de banho; mas tinha um modo desconcertante de alinhar a alça do biquíni ao seu último bronze que me deixava em cólera.

– Você tá vermelho, Pablo?

– Eu?!

– Sim.

– É o sol.

– Sei...

Ela sabia. Ela sabia tudo. E não é porque ela era da capital e já tinha ficado até órfã. É porque eu sou bobo mesmo. Tão bobo que inventei essa brincadeira de respirar debaixo dágua e apostar quem aguenta mais só pra não ficar a manhã toda tentando adaptar o meu calção de banho às formas loucas que a minha anatomia tomava ao entrar no açude com Teresa e ver sua pele arrepiada.

Agora eu só me lembrava do seu cheiro de blusa nova, das unhas recém-polidas, do recado que ela escreveu no meu caderno “amo-te como amigo e como amante”, ela disse que era um poema, mas não botou o nome do autor, então eu mesmo escrevi A.D. (Autor Desconhecido), porque podia Ângela ver e brigar com Teresa. Ângela é uma antiga namorada. Não tão antiga. Na verdade, acabamos quando Teresa chegou e todo aquele açude sangrando e o jeito de olhar pro piso encardido da sala de aula e escrever com seu lápis de cor dourada. O recado ficou dourado no meu caderno e Ângela ia encher meu saco. Ângela não importa. Ela que fique com suas argolinhas de arame enquanto Teresa, a minha Teresa (quanta pretensão!) tinha orelhas virgens!

Lembro do seu hálito. Teresa tinha hálito de ervas. Não que eu já a tenha beijado, não é bem isso (e é, de certa forma, já já conto, foi nesse momento), é porque ela sempre falava muito perto do meu rosto, talvez pra confirmar o quanto de penugem eu tinha em meu queixo, ou se usava perfume. O que eu sei é que ela falava sempre tão perto de mim que um dia ela disse:

– Eu ainda te dou um beijo! Que desastre!

Não sei se isso foi bom ou ruim. Fiquei vermelho. Eu sempre fico vermelho. Passei dois dias me sentando na carteira da frente. Disse que a vista não andava muito boa. Ela não perguntou. Passou por mim com seu hálito de ervas e foi pra casa sem se despedir.

Havia uma secreta resolução em nós dois de que algo estava pra acontecer. Algo de terrível ou muito bom. Se não fosse a quarta-feira que foi feriado santo, eu apostaria na primeira opção, como a morte de Teresa afogada no Gargalheiras. Mas não. Teresa estava na missa muito bonita. De vestido e tudo. Eu via seus tornozelos e acreditava num amanhecer claro e bom. A voz do padre era um pálido movimento sonoro entre as cabeças de homens e mulheres que circulavam entre orações e olhares suspeitos. Nunca tinha visto um tornozelo com pulseira e achei lindo. Teresa era um passarinho azul-cobalto que intimidava o céu com sua beleza e fazia florescer os mandacarus violentos de sequidão.

– Pablo, venha aqui!

Fomos para o lado da igreja e aconteceu.

– Pode me beijar!

– Onde eu quiser?

– Sim.

Peguei sua mão com força, ela sobressaltou os olhos e soltou um risinho ainda desconhecido. Guiei-a, impávido, por entre as árvores da praça dos namorados (tinha um cachorro dormindo que acordou com a nossa passagem) e a fiz sentar no banquinho de madeira. Ela me olhou de um jeito, e pareciam seus olhos um continente nunca nomeado, circundado por um oceano sem epopeia de louvores, e famintos de homem e luz. Os seus olhos eram castanhos. Um castanho continente.

Nervosamente, delicadamente, tomei sua perna esquerda e levei-a ao meu colo. O vestido era abaixo dos joelhos, por isso pude fazê-lo sem ser desrespeitoso. Beijei o seu tornozelo. Era bonito. Tinha uma penugem ligeiramente clara. Ela ficou séria e disse:

– Vamos nos casar em segredo. Eu preparo a cerimônia e você me encontra.

– Certo.

– Como amigo e como amante?

– Como amigo e como amante.

Fiquei doente duas semanas. Sentia uma nódoa virulenta e capciosa me neutralizando as forças e me fazendo sangrar arco-íris. Teresa não me visitou porque era contagioso. O nosso noivado foi um feriado longe de acontecer.

Vieram as férias de agosto, Teresa foi pra praia, eu assisti a todas as novenas como que para repetir aquela quarta-feira santa que parecia sedimentada em meus poros.

Quando voltaram as aulas, Teresa estava diferente. Aquosa, sacrílega, gargalhada. Tinha feito mais amizades em dois dias do que eu em minha vida inteira. Até o professor de física elogiou-a em público:

– Teresa parece que desencantou! Chega tá florida!

Ela debochou dele com sua gargalhada e eu fiquei envergonhado de ser seu noivo. Mas cada vez mais apaixonado. Aquela flor explosiva era o vulto de minhas prostrações sanguíneas nas noites do meu quarto fastioso e contaminado, era o motivo de minha respiração cada vez mais irregular, era uma água benta sobre a minha ferida dos dezesseis anos.

Até que tomei coragem e falei:

– Teresa, vamos tomar banho no Gargalheiras!

Ela, com uma gargalhada aquática, disse que me encontrava depois do intervalo, perto do muro em reconstrução da escola. No caminho, não conversamos muita coisa. Perguntei de sua viagem, ela não disse tanto, apenas praia e um encontro com a família. Os seus cabelos estavam inflamados e parecia que tinha um tumor no queixo. Chegamos ao Gargalheiras, ela tirou a farda da escola na frente de um pescador que tinha uma tatuagem e disse “que massa! quem é essa mulher?”; o pescador foi embora com vergonha e dor por um passado que não tinha como apagar.

Os seios dela pareciam maiores, mas não tinha mais o jeito de consertar a alça do biquíni ou sutiã. Tudo devidamente ajustado, Teresa e eu entramos nágua, ela tocou minha mão gelada e parecia que a origem do homem e das plantas ia se fazer conhecer nos minúsculos círculos que se formavam na água turvada do meu açude, quando entramos até a cintura e vi: sua pele não se arrepiou. Ela mergulhou fundo fundo, nadou até onde toca o caminho das garças brancas e voltou esbaforida e antipática, parecia a caricatura de um joelho.

– Vamos apostar?!

A sugestão de Teresa foi o último fio da teia onde se entrelaçava a minha esperança nodosa.

– Sim.

Ela não gostava de respostas monossilábicas e, serelepe como antes, empurrou minha cabeça pra dentro dágua e ainda vi sua pele pálida descer em seguida, de olhos fechados, como sempre, o cabelo inflamado a espantar os peixes, a dilatação ritmada de suas narinas obtusas a causar náuseas nas garças que vinham se banhar no raso dágua, a sua cintura sincopada a atrair todas as tampinhas de coca-cola, o tornozelo sem pulseira a movimentar os musgos e as nódoas tardias do açude que não sangrou, o gesto de cruzar os dedos pra ganhar a aposta a aquecer o verde lusco-fusco que invadia calmamente as águas baldeadas de um açude em chamas, enterrando uma deusa de barro e lodo, escárnio de minha adolescência sem extravagâncias nem delírios, apenas passeios insalubres pelas praças de Acari que se proliferam como larvas em quintal sem galinhas, como micróbios da doença que Teresa não quis pegar de mim e que agora se aninham no exato local em que lhe dei um beijo e selei nosso noivado de açude, gargalhada e morte insuspeitada e serena.

Quando emergi da água, trinta segundos de respiração quebrantada, Teresa não estava mais lá. A nossa aposta era sempre irrevogável e eu pensei “dessa vez perdi”, mas não, Teresa eu acho que não estava mais brincando e, se tivesse morrido, não era pra estar boiando? Ai meu deus, porque justo hoje fui fugir da aula de física, talvez tivesse alguma teoria acerca do tempo que demora pra um defunto boiar nágua. Não fui hoje. Fiquei sem Teresa e sem explicação.

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