Como uma onda no mar(ou sobre poluição sonora na praia de Ponta Negra)
Natal, RN 30 de mai 2024

Como uma onda no mar(ou sobre poluição sonora na praia de Ponta Negra)

24 de abril de 2024
4min
Como uma onda no mar(ou sobre poluição sonora na praia de Ponta Negra)

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"Nada do que foi será/de novo do jeito que já foi um dia". Esses versos de Lulu Santos na canção "Como uma onda", imenso sucesso do pop-rock brasileiro nos anos 80, reflete o que a população pensa sobre a praia de Ponta Negra, principal praia urbana de Natal e a que concentra mais estabelecimentos turísticos (hotéis, pousadas, bares e restaurantes). Não sou nem um pouco saudosista, como quem me lê sabe e, para citar agora Belchior, creio com força que "o novo sempre vem". Mas no caso de Ponta Negra em relação a um passado não muito distante, o novo veio para pior. Muito pior.

Não faltam aspectos para se reclamar da orla de Ponta Negra. A falta de estrutura é gritante e crônica, as calçadas e cercas de madeira estão deterioradas. Os banheiros públicos não funcionam, ou quebrados ou impraticáveis. O trânsito na Avenida Erivan Silva, com mão única em metade da pista e mão dupla na outra metade, é uma aberração, agravada pela cultura natalense de não andar e querer estacionar sempre em frente ao destino final.

Mas talvez o pior aspecto seja o da poluição sonora. Se a pessoa se dirigir à praia de Ponta Negra, seja qual for o trecho, para ouvir o barulho relaxante das ondas do mar, esqueça. Há anos a praia é invadida, e esse é o termo, por ambulantes que vendem DVD e CDs ou mesmo bebidas e comidas e quase todos o fazem com música em volume alto, muito alto. Pior que isso. Param em duplas ou mesmo trios de carrinhos próximos aos lugares com mais banhistas (e clientes em potencial) o que gera uma confusão absoluta de sons. No espaço de poucos metros pode-se ouvir Calcinha Preta, Dire Straits e Gusttavo Lima vindo de três lugares diferentes, sempre - sempre mesmo - em volume alto, repito, muito alto. Quase uma boate a céu aberto, e em qualquer horário.

É um sistema predatório, claro. Que vai contra as leis ambientais, o bom senso e contra o próprio mecanismo do capitalismo (já que expulsa alguns dos possíveis fregueses e gera antipatia). E o mais assustador é que essa "guerra sonora" é totalmente permitida já que não há qualquer fiscalização por parte da Prefeitura Municipal de Natal. Cuja Secretaria de Meio Ambiente parece mais preocupada em proibir realização de samba na Escadaria de Mãe Luíza e iniciativas culturais do gênero em lugares periféricos do que em bater na areia de Ponta Negra. Enfim.

Fica aqui o desabafo, já que cobrar ação da Semurb e Prefeitura de Natal parece há tempos chover no molhado. Registrando que sou frequentador de Ponta Negra, que fica a dez minutos de carro de onde moro e ainda é minha praia urbana preferida e oferece coisas boas (como bares e restaurantes e a beleza natural). Também entendo que poluição sonora está longe de ser o problema mais grave de uma cidade que sofre em diversas áreas fundamentais, como Educação e Saúde. Mas o descaso com um setor considerado "a galinha dos ovos de ouro" da capital e a comparação com capitais próximas - esse cenário não acontece em João Pessoa e Recife, por exemplo - são sintomáticos sobre a gestão municipal (embora o problema seja crônico e venha de priscas eras) e também o conformismo do natalense. Para citar mais uma vez Lulu Santos, se sua intenção for experimentar a sensação auditiva de "Como uma onda no mar", esqueça Ponta Negra. Lá, em vez de ondas, vai ouvir funk, brega e sertanejo em volume máximo.

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