CULTURA

Jornal ícone da resistência à ditadura no Ceará foi impresso em Natal e Mossoró

Dos anos de 1960 até os dias atuais, observa-se a extraordinária importância da mídia alternativa em nosso país”. É dessa forma que o advogado Benedito Bizerril, um dos fundadores do Jornal Mutirão, ícone da resistência no Ceará, define o papel dos veículos de mídia alternativos em tempos de governos autoritários.

O Jornal Mutirão se comportava como imprensa contra hegemônica, na época da ditadura militar, e circulou nos anos de 1977 a 1982, colocando-se como porta-voz de setores da sociedade e seus anseios por justiça social.

Mas diante de um cenário de censura e violência, que marcou o regime militar, e da cumplicidade da grande mídia, fazer a impressão dos exemplares não foi tarefa fácil. Além das dificuldades financeiras, os donos de gráficas foram pressionados a negar rodar o Jornal Mutirão no Estado do Ceará.

Para continuar circulando foi preciso buscar alternativas de impressão em outros estados”, revelou Bizerril. No Rio Grande do Norte, o Jornal Mutirão foi impresso em Natal e Mossoró.

A Agência Saiba Mais conversou com Benedito Bizerril. Ele narra em livro a história da mídia alternativa em tempos de resistência. Leia a entrevista na íntegra.

Há mais diferenças ou similaridades no papel da mídia durante a ditadura militar e agora, no contexto atual? Qual a avaliação que você faz?

No início da primeira década dos anos de 1960, no Brasil aprofundava-se o embate entre os que pugnavam para retirar o país do atraso e da miséria, defendendo um projeto de desenvolvimento com soberania, livres da dominação do imperialismo estadunidense, com avanços no sistema político que assegurassem conquistas econômicas e sociais, através da implementação das denominadas reformas de base. Nesse campo, situavam-se as forças democráticas, populares e nacionalistas. De outro lado, na defesa intransigente do status quo, estavam as elites econômicas e políticas, representativas do grande empresariado e do latifúndio, alinhadas ao poderoso imperialismo norte-americano. Os meios de comunicação hegemônicos, constituídos por jornais, rádios e televisão, expressavam o pensamento conservador e os interesses econômicos, políticos e sociais dessas classes dominantes, inclusive, apoiando ou mesmo participando da conspiração golpista de 1964, que implantou uma ditadura militar por vinte e um anos, infelicitando nosso país.  Lançaram-se, por longos anos, numa faina diária, com o objetivo de forjar uma “opinião pública favorável ao regime militar e que se adequasse às ideias e projetos desses setores privilegiados da sociedade.

Nos anos mais recentes, quando as forças democráticas e populares, através dos governos de Lula e Dilma buscaram implementar um novo rumo para o Brasil, retomando o caminho de um projeto de desenvolvimento econômico e social, com soberania, sofreram permanente combate e odienta perseguição, culminando com o golpe que retirou do governo a presidente Dilma Rousseff.  Aqui, também, o papel da mídia hegemônica, em defesa dos interesses da classe dominante, contrárias ao novo projeto de desenvolvimento que estava em curso, foi determinante para forjar uma vasta opinião pública visando isolar as forças de esquerda e progressista, pavimentando o caminho do golpe e, na sequência, a chegada ao governo da extrema direita neofascista.  A diferença fundamental é que essa mídia atual tornou-se mais poderosa, fazendo uso do mais avançado, moderno e sofisticado aparato de comunicação, através das diversificadas redes sociais, blogs, etc.

Qual a importância da mídia alternativa em tempos de resistência?

Se nos detivermos ao período histórico aqui tratado, dos anos de 1960 até os dias atuais, observa-se a extraordinária importância da mídia alternativa em nosso país. Nos anos que antecederam o golpe de 64, circulavam inúmeros jornais, revistas e outras publicações populares e democráticas, a exemplo de Novos Rumos Classe Operária, Brasil Urgente, entre outros, que divulgavam o ideário mais progressista e avançado, defendendo transformações profundas por uma sociedade mais desenvolvida e justa. As reformas de base estruturais estavam no centro de suas atenções. Grandes contribuições ofereceram ao debate na sociedade, fazendo o contra ponto às ideias conservadoras das classes dominantes, que se insurgiam contra quaisquer mudanças que importassem na melhoria das condições de vida do povo, pondo em risco os seus privilégios.

Já no período ditatorial, corajoso e heroico foi o papel da chamada imprensa alternativa, que desafiando todo o aparato repressivo de censura, prisões e atos terroristas contra suas sedes e bancas de jornais, manteve aceso o debate pelas liberdades democráticas, anistia ampla, geral e irrestrita, constituinte livre e soberana, em defesa da Amazônia, das riquezas nacionais, da reforma agrária e dos direitos dos trabalhadores. Destacaram-se, dentre outros, a Revista Pif e Paf e os jornais Opinião, Movimento, Pasquim, Em Tempo, Cojornal, Tribuna da Luta Operária, Hora do Povo e Mutirão.

Hoje, com o extraordinário avanço da tecnologia e da ciência da informação, vivemos um cenário de maior complexidade e possibilidades, reacendendo o papel da imprensa alternativa agora, primordialmente nas redes sociais em suas diversas modalidades.

Podemos afirmar que os jornais alternativos impressos cumpriram, no seu tempo, um desassombrado e importante papel, pavimentando caminhos para o destemido jornalismo alternativo da atualidade, que se realiza, em maior escala, nos sítios eletrônicos, blogs e redes sociais.

E como é que se conseguia confeccionar o jornal, imprimir os exemplares e distribuir?

Sabemos das imensas dificuldades enfrentadas por todos os jornais alternativos para se manterem circulando. Mas, quanto ao jornal Mutirão, por eu ter vivido todos os seus cinco anos de existência, desde a fundação até o seu último número em 1982, posso afirmar o quanto foi difícil, mas muito gratificante. Todo o trabalho realizado pela equipe do jornal, inclusive por seus dirigentes e colaboradores, era voluntário e não remunerado. Tudo era movido pelo desejo de contribuir para o restabelecimento da democracia e pugnar por uma sociedade mais justa. As pautas eram definidas em reuniões abertas à participação de apoiadores e colaboradores, que davam suas opiniões, faziam críticas e sugeriam matérias. Éramos jornalistas, profissionais liberais, professores, estudantes e militantes operários e de entidades comunitárias. A impressão do jornal sempre foi problemática, seja pelo alto custo cobrado pelas gráficas, ou pelo receio que os seus proprietários tinham de represálias do governo ditatorial. Foi preciso mudar de gráfica várias vezes. A partir da edição 19, em janeiro de 1980, por pressão do governo estadual, os proprietários de gráfica se recusavam a fazer a impressão, tornando-se impossível imprimir o jornal no Ceará. Para continuar circulando foi preciso buscar alternativas de impressão em outros estados, o que se concretizou graças ao empenho, dedicação e compromisso de alguns integrantes do jornal, que assumiram essa tarefa, bem como a decisiva e ampla solidariedade de apoiadores dentro e fora do estado, contribuindo com recursos financeiros ou realizando a impressão do Mutirão a custo reduzido, ou até mesmo sem nada cobrar. Tal situação perdurou até a edição nº 32, que circulou em novembro de 1981. Durante esse período Mutirão foi impresso em Mossoró, Natal, São Luís, Maceió, Campina Grande, João Pessoa e em Governador Valadares, entre outras cidades.

A destruição e venda era feita nas bancas de jornais e revistas e, em maior quantidade, através de assinaturas e da venda direta, em Fortaleza, nos locais de grandes eventos, na entrada dos cinemas, nos bares e restaurantes da Beira Mar, etc., realizada pelos próprios componentes da equipe do Mutirão e por colaboradores. Também o mesmo ocorria em diversos municípios cearenses, principalmente onde existiam núcleos de apoio mais atuantes.

A programação de lançamento do livro foi interrompida pela pandemia. Já há um planejamento de retomada desses lançamentos?

Após o concorrido lançamento em dezembro de 2019, em Fortaleza, fomos obrigados a interromper, em razão da pandemia, toda uma programação que já estava prevista para acontecer em sindicatos, universidades, associações comunitárias e em alguns municípios cearenses, bem como em Brasília e São Paulo.

Pretendemos retomar o mais breve possível essa programação de lançamentos do livro, porque entendemos que tais eventos proporcionam a oportunidade de discutirmos o papel atual da mídia democrática e progressista em face do avanço da extrema direita neofascista e os riscos que representa para o Brasil com o governo Bolsonaro.

 

Sobre Benedito Bizerril

Benedito Bizerril ingressou no Banco do Nordeste do Brasil. Foi no movimento dos bancários que enfrentou o arbítrio a primeira vez e onde iniciou a militância no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Bancário, já graduado em Direito, sofreu a primeira prisão, durante oito meses, em 1971. Ao sair do cárcere começou a carreira como advogado trabalhista, defendendo milhares de trabalhadores e advogando para inúmeros sindicatos.

Em fevereiro de 1973 foi preso novamente, dentro do próprio BNB, entregue aos agentes da ditadura pelo Diretor Financeiro do banco, o general Murilo Borges. Levado ao quartel do Exército em Fortaleza, foi em seguida para a “Casa dos Horrores”, centro de tortura no município de Maranguape. Ali, foi brutalmente torturado, até ser colocado em liberdade e retomar seu posto no BNB. Logo depois, em abril, foi demitido, em clara perseguição política, e passou a se dedicar exclusivamente à advocacia.

Em 1975 fundou, com vários outros, a Associação dos Advogados Trabalhistas do Ceará – ATRACE, compondo sua primeira diretoria, sendo eleito seu presidente para as gestões de 1996/1997 e 1998/1999. Em 2004, foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Ceará, pela ativa participação na resistência democrática contra a ditadura militar. Foi conselheiro da OAB-Ceará na gestão de 2004/2006. Em 2005, assumiu a direção estadual do Instituto Maurício Grabois, hoje Fundação de Estudos Econômicos, Políticos e Sociais Maurício Grabois. Em 2008 recebeu o título e a medalha “ADVOGADO PADRÃO”, outorgada pela OAB – Seção Ceará, mais importante comenda da Ordem. Atualmente integra, como membro fundador, a Associação Advogados e Advogadas pela Democracia, Justiça e Cidadania – ADJC, e é vice-presidente estadual do PCdoB do Ceará.

 

Os locais de venda do livro Mutirão:

-Livraria Lamarca
Av. Da universidade, 2475, Benfica, em Fortaleza – Fone: (85) 98627-3795;

-Editora e Livraria Anita Garibaldi
Site: livrariaanita.com.br
Impresso e E-book;

-Também pelo e-mail: livromutirao@gmail.com

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