OPINIÃO

José Leôncio não é um crush

“Eu te amo, Juventino”. Eu sempre me lembro dessa frase, dita por Juma Marruá, interpretada pela atriz Cristiana Oliveira, dirigindo-se ao personagem que era feito pelo ator Marcos Winter, na novela Pantanal, lançada em 1990. O texto era fraco, muito fraco! Mas as paisagens e os mitos pantaneiros eram deslumbrantes. A extinta TV Manchete desbancou a Globo naqueles tempos com essa novela. Tentei assistir o remake que está no ar agora em 2022, mas não consigo mais suportar os diálogos repetitivos de novelas. Lembro uma vez que tive a honra e o prazer de assistir a uma leitura dramática do ator Paulo Autran, no Teatro Alberto Maranhão, em cuja ocasião ele respondeu à surrada pergunta que sempre lhe faziam de o porquê que ele não fazia mais novelas. A resposta dele eu só vim introjetar anos depois: “Porque é uma história que poderia ser contada em duas horas, e contam em oito meses”.
Mais de 30 anos se passaram, Pantanal está de volta e, como antes, o machismo estrutural troando. No primeiro capítulo, o pai de José Leôncio leva o filho adolescente para ser iniciado nas delícias da alcova, com uma mulher da “currutela”. O personagem cresce, torna-se homem e é tão focado em seu trabalho que deixa a mulher sozinha na hora do parto, porque a comitiva é mais importante que qualquer outra coisa. Aprendemos a normalizar a ausência paterna, quando o argumento é o trabalho. Aliás, quão raro é aquele homem que falta ao trabalho sob o argumento de ter de levar o filho ou filha para o hospital? Geralmente, quem faz isso é a mulher. Tem mais, José Leôncio não dá pelota para os dois filhos; inclusive, o primeiro é um “afilhado” e não filho; na hora da transa, ele pede à moça para usar o perfume da ex e, se bobear, ainda vai pegar a cunhada – como foi na primeira versão. Vocês acham que se uma personagem mulher fizesse tudo isso numa novela, ela viraria o crush do momento?
Isso mesmo que você está pensando. Todos esses padrões vividos por José Leôncio fazem parte da estrutura machista na qual vivemos e, tantas vezes, são exaltadas e repetidas nas novelas brasileiras. Será que amamos o mito do homem aventureiro, destemido, desapegado? Será que ainda cultuamos a fantasia de que precisamos ensinar aos homens o que eles não aprenderam na família ou com a vida? Já faz algum tempo que ouvi argumentos que falavam que as conquistas feministas ocorriam de dentro para fora de casa. Como por exemplo, o direito ao voto, inserção no mercado de trabalho e a própria discussão em pauta do que é machismo estrutural e essa hegemonia de força e controle por parte dos homens por sobre as mulheres. Entretanto, dentro de casa, as mudanças são bem mais lentas.
Fato é que não nascemos machistas ou feministas. A construção de gênero se dá no seio familiar e na sociedade. Um dos pontos mais discutidos na pauta feminista é a questão de gênero. Pasmem, sequer nascemos homem ou mulher. Eu explico: do ponto de vista biológico, anatômico, é claro que sabemos qual o sexo de um bebê. Entretanto, essa identificação de gênero é totalmente atribuída pelo outro ao nascermos. Alguns exemplos claros disso são o furo do brinco na orelha de uma menina, que acabou de nascer. A escolha das cores, “meninas vestem rosa e meninos vestem azul”. Lembro do relato de uma amiga que entrou com a filha pequena numa loja e essa se encantou com uma chinelinha azul. A mãe foi ao balcão para pagar pelo calçado e a vendedora insistiu por mostrar uma chinelinha rosa à criança, porque aquela chinelinha que ela tinha gostado “era de menino”.
Não à toa que Simone de Beauvoir trata a condição feminina de “segundo sexo”. Com isso, ela quer dizer que a primeira referência, a hegemônica é a masculina. As mulheres fazem parte do segundo escalão, porque são os homens, com seus corpos objetivos, quem designam o que é ser humano. Às mulheres cabem limitações como seres menos racionais e mais emocionais; nossos úteros e ovários – e alterações hormonais – são usados como para determinar um “destino maldito”, segundo Beauvoir, responsáveis por interferir em nossas escolhas e nossas reações. Quantas vezes não ouvimos de homens e até mesmo de mulheres coisas como “ela está de TPM” ou “mulher tem hormônios”, como se nossa condição física fosse algo que aponta para um defeito, para uma falha que nos responsabiliza unicamente por algum conflito que surja, geralmente com um homem. Enquanto a menopausa é vista como uma doença e não uma condição, a andropausa é invisível. Portanto, não estamos falando de questões biológicas e sim sociais.
Para finalizar: Eva comeu a maçã e ainda persuadiu Adão a fazer o mesmo! Pandora abriu a caixa com todas as mazelas do mundo; Maria, a mãe de Jesus, uma das poucas mulheres na história que tem um lugar no céu, é virgem, imaculada e “concebida sem pecado”. Até quando, gente, até quando, sustentaremos tantas responsabilidades e carregaremos tantas culpas?
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Jornalista e psicanalista