OPINIÃO

Uma reflexão para sairmos da caverna

Pode parecer engraçada a imagem de um homem das cavernas arrastando uma mulher pelos cabelos, mas não é! De fato, ela é brutal e mostra como a violência contra as mulheres é naturalizada e habita nosso imaginário há milhares de anos.
Recentemente, vi uma cena que me chocou profundamente. Uma moça por traz de um balcão de uma loja em Parnamirim foi assassinada por um homem que usava máscara e boné, o que dificultava, sobremaneira, saber quem ele era. Na verdade, o que aquelas imagens evidenciaram, explicitamente, foi o ato em si. Após alguns segundos em que o homem chega à loja e fala com ela, ele saca uma arma da cintura, a moça se ajoelha, abaixa a cabeça, a imagem é cortada, mas o brilho do projétil não deixa dúvidas: mais uma mulher é assassinada. E pela linguagem corporal tudo levava a crer que eles se conheciam. Espero que esse sujeito arque com a brutalidade de seus atos, mas a discussão não se encerra apenas em punir aquele que já cometeu o crime.

É importante lançarmos esse tipo de discussão para todos os homens e mulheres, para que possamos entender as razões – se é que se pode chamar de razão alguém que executa uma pessoa desse jeito – que levam um homem a matar uma mulher porque ela diz não para ele; ou diz basta! Ou simplesmente não quero mais!

O que pensa a psicanálise sobre essas questões? Primeiro, vamos a Freud. Grande parte das pessoas já deve ter ouvido falar do Complexo de Édipo que, grosso modo seria o enamoramento dos filhos pelos pais, sempre do sexo oposto. Se eu sou menina, em determinado momento, tenho como principal relação objetal o meu pai; se menino, isso se dá com a mãe. Mas existe também o complexo de castração que é a percepção da existência (nos meninos) e da ausência (nas meninas) do pênis.

Esse segundo complexo, aniquila o Édipo nos meninos porque, segundo Freud, pela ameaça da castração (ausência de pênis que ele vê na mãe e nas outras mulheres) o menino recua de sua rivalidade com o pai e, já na menina, ocorre o contrário, ao perceber que não tem pênis, ela se alia ao pai. Percebem que de um jeito ou de outro, a referência maior é o falo? E é milenar. Tem seis mil anos que Eva, aquela tresloucada seduziu Adão e o fez comer do fruto do conhecimento. Safada, ela! Não foi isso que nos ensinaram?

Esses conceitos freudianos foram explicitados em 1905, nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Mais tarde, em 1923, nos escritos A organização genital infantil: Uma interpolação na teoria da sexualidade, Freud volta a falar sobre a primazia do falo (ter ou não ter falo?) como organizadora da nossa sociedade. O falo não é somente uma representação do pênis, como erroneamente se pensa, mas sim uma representação do símbolo da sociedade patriarcal, presente desde os primórdios. A mulher está relegada a segundo plano, sempre!

Mas, como em psicanálise, não há formulações simples ou generalizações, os conceitos que se debruçam sobre a sociedade vão navegar de maneira singular em cada um de nós, porque somos afinal de contas, únicos. E é aqui aonde quero chegar.

Antes do feminicídio em si e sem querer sob hipótese alguma negar que as mulheres são vítimas desse tipo de violência, faço a seguinte provocação para quem está vivo: nas suas relações pessoais, você se pergunta qual sua responsabilidade sobre o que lhe acontece? Por que você se repete e se relaciona com homens que te tratam mal, homens que não te priorizam, não te respeitam, homens abusivos e violentos?

Do outro lado, por que você odeia tanto a sua namorada, a sua mulher? Por que o que ela faz, pensa, goza, como se veste, parece tão errado e te contraria sempre? Por que você pensa que a palavra amor legitima todo esse ódio que você sente por essa pessoa? E a última pergunta que você, leitor, deve se fazer: por que eu me permito ficar nessa posição?

Claro e obviamente que existem diferenças gritantes no trato do homem e a mulher em nossa sociedade: as mulheres são muito mais alvo nas diferentes formas de se vestir, se comportar, de receber salário, nas tarefas e enfim, nas relações de poder. Nossa sociedade é machista, violenta, patriarcal, ponto! Mas, podemos nos fazer determinadas perguntas e ao descobrir as respostas e o que nos mobiliza, é possível virar determinadas chaves internas para que, não carreguemos a nossa ancestralidade como um destino e sim como uma chance de quebrarmos paradigmas que tem matado as mulheres.

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Jornalista e psicanalista