OPINIÃO

Questão de karma

Olhou o relógio de pulso pela enésima vez. Maldita manifestação! Há meia hora estava amarrado naquele trecho da avenida, certamente não percorrera nem duzentos metros. Tudo por conta de mais um sábado de manifestações políticas na cidade, intensificadas à medida que o período de eleições se aproximava.

Quanto mais as pesquisas de intenção de voto indicavam a vitória do candidato de oposição, mais os adeptos do partido de situação, furiosos e desesperados, se organizavam, preparando comícios disfarçados de shows musicais, passeatas e, claro, fake news. A oposição tentava se contrapor por seu lado, mas o uso da máquina pública evidentemente dava certa vantagem ao candidato à reeleição.

Ele tamborilava no volante, estarrecido com a quantidade de apoiadores. Depois de quatro anos de horror em todos os aspectos, não entendia como é que ainda havia tanta gente apoiando um governo daqueles. Sem dúvida, o pior governo de todos os tempos. O mais tecnicamente incompetente. O mais humanamente cruel. O mais politicamente corrupto. A única compreensão possível para ele é de que se tratava de um karma. Um karma coletivo político, só podia ser.

E enquanto suspirava profundamente, buscando do mais profundo íntimo toda tolerância possível diante daquele quadro angustiante – pessoas bradando, com expressões de entusiasmo que mais pareciam ódio, o nome do seu candidato, transformado em mítico herói da Pátria – , viu passar em frente, segurando uma pequena bandeira do país, uma mulher vagamente familiar.

De onde conhecia aquele rosto?

Pensou, pensou, pensou… A mulher desapareceu na multidão, mas o seu rosto permaneceu na mente e ele tentava puxar do fundo da memória de onde já vira aquele rosto antes. E, observando resignado a profusão de verde-amarelo em camisas, cornetas e bandeirolas, sentiu um estalo: sim, era ela!

Então sentiu-se voltar no tempo. Sim, havia sido coisa de uns seis ou cinco anos atrás. Ele tinha acabado de ser contratado na empresa onde trabalhava e, aproveitando que seu salário era melhor, mudara-se para um pequeno apartamento num bairro classe média. Rapaz solteiro, no começo de carreira e cheio de saúde, sentia-se feliz e cheio de esperança, apesar da nebulosa que o país atravessava naqueles tempos.

Mas sua felicidade não durou muito tempo. Num domingo de manhã, foi surpreendido com alguém tocando a campainha do apartamento. Como a portaria era eletrônica e lá de baixo ninguém interfonara, deduziu ser um vizinho de apartamento. Não era.

– Bom dia. Eu me chamo Dra. Lea e moro no prédio em frente, mais exatamente no mesmo andar do seu.

Ele mal pudera balbuciar um bom dia e ela prosseguiu, com tom de voz muito firme:

– Acontece que eu e minha família não suportamos mais ver o senhor andando pela casa só de cueca. Eu tenho um filho de oito anos, sabia? Como é que o senhor acha que nós nos sentimos com essa falta de respeito?

Oi? Por um instante ele não conseguiu atinar direito com aquela situação. A mulher continuava falando e ele não conseguia tirar o olho de seus cabelos muito esticados à força e pintados de um loiro quase branco. Demorou uns dois minutos para que ele se desse conta do absurdo da cena:

– Como é que é, minha senhora? A senhora quer vir aqui na minha casa dizer como eu devo me vestir?

Não esperou a resposta, bradou um “vá plantar batata” e bateu com a porta na cara da mulher.

Alguns dias depois, o síndico veio falar com ele.

– Olha, nós recebemos uma queixa contra o senhor. Uma moradora do prédio em frente veio reclamar de atentado ao pudor.

Só podia ser brincadeira, era surreal demais para ser verdade.

– Atentado ao pudor? Por eu me vestir da maneira como eu quero dentro do meu apartamento?

O síndico tentava ostentar um ar conciliador, mas parecia mais favorável à mulher:

– Olha, por que você não fecha as cortinas quando quiser ficar mais à vontade?

– Ora, essa é boa… Não fecho porque não quero, não sou obrigado, estou no meu lar e faço o que quero e me visto como quero aqui dentro. É meu direito à minha liberdade individual. E ela, por que simplesmente não deixa de ficar olhando pra cá?

O síndico foi se afastando, dando de ombros, mas sem deixar de comentar:

– Se eu fosse você eu tomava cuidado, a Dra. Lea é irmã de delegado e prima de juiz.

Bateu a porta com estrondo, era só que faltava, ter que tolerar aquela ameaça velada. Mentalidade de merda! pensou, revoltado.

A confusão seria maior se não fosse um golpe de sorte do destino: um colega da empresa avisara a ele que um apartamento no seu prédio estava disponível, apartamento que, além de ficar mais próximo do trabalho, também tinha o valor de aluguel mais em conta.

Em menos de duas semanas fazia a mudança, satisfeito por se livrar da cidadã de bem.

Pois era ela mesma que ali cruzara novamente seu caminho, na passeata em prol de Deus, da família e da pátria. Hipocrisia era pouco para definir aquele tipo de gente. E maldade era o mínimo.

Só podia mesmo ser uma questão de karma. E dobrou em disparada na primeira rua à esquerda que viu livre daquele horror.

Confira o vídeo que inspirou o conta da escritora, pesquisadora e professora da UFRN Cellina Muniz:

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