Jornalista, sim. Democrata e antifascismo, também!
Natal, RN 5 de mar 2024

Jornalista, sim. Democrata e antifascismo, também!

13 de setembro de 2022
4min
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Volta e meia acontece. A pessoa me encontra na rua, puxa dois dedos de prosa, elogia ou critica algum texto meu e quase na despedida, pergunta: "Cefas, você não acha que, como jornalista imparcial, não deveria tomar posição ou declarar voto?"

Geralmente respondo que não é bem assim e que depois conversamos sobre esse assunto. Vez por outra tento explicar a diferença entre imparcialidade e neutralidade cínica. Acontece também pelo zap, aí com mais agressividade. Pessoas tanto da família e círculo de amizades como quase desconhecidos indagando se é adequado um jornalista declarar abertamente voto em Lula, como faço nas redes sociais e em qualquer momento na vida real.

O ponto de partida desse debate guarda várias possibilidades. A primeira é que quem se expressa ali no apoio não é o jornalista Cefas, mas o cidadão Cefas, com tanto direito a externar suas preferências eleitorais quanto você que está me lendo. A segunda é que não existe esse jornalismo doutrinariamente imparcial como imaginam os leitores mais inocentes e pessoas nem tanto que querem ver a imprensa dar aos opressores o mesmo espaço dado aos oprimidos (o que, infelizmente, acontece em parte da grande mídia).

Mas eu prefiro pegar um terceiro ponto, para mim o mais importante: a necessidade de compreensão do momento histórico. Já houve tempos no Brasil que polarização e segundo turno eram para "debate de modelos socioeconômicos" e "trocar ideias com segmentos da sociedade". Vivemos isso por vinte anos exatos, de 1994 a 2014, com o embate entre o progressismo do PT (que jamais foi socialista ou comunista) e a social-democracia liberal-privatista do PSDB. Em duas décadas esses dois partidos venceram e ficaram em segundo lugar nas eleições presidenciais. Havia polarização. Mas não violência política, assassinatos por razões partidárias, agressividade ou transformação do adversário em inimigo que deve ser extinguido.

Em suma, assim como em 2018, hoje não vivemos uma polarização real, esqueça isso, mas sim de um lado, um projeto de poder ditatorial, que despreza instituições, questiona as mesmas urnas eletrônicas pela qual foi eleito e insinua fechamento do STF e golpe militar. A polarização pede duas visões antagônicas de mundo que se enfrentam nas urnas mas que respeitam a existência do outro. O bolsonarismo não faz isso. Ele quer a eliminação - metafórica e literal - do outro lado, de quem não está com ele ou lhe é oposição, Isso tem nome e se chama nazi-fascismo.

Daí a eleição deste ano ser um momento histórico de exceção. Não está em jogo uma ideia de gestão, uma linha ideológica socioeconômica, como nas disputas Dilma x Serra ou Lula x Alckmin. O que está em jogo é a manutenção da democracia brasileira, já que Bolsonaro deixou claro, sem eufemismos, que a despreza e que sonha com um poder totalitário, de ódio e extirpação dos opositores, que ele vê como inimigos.

Portanto, a eleição de Lula e em primeiro turno, não é uma missão de petistas ou mesmo da esquerda, mas sim a chance de manter a democracia no país. Tanto que políticos que nunca foram de esquerda, como Geraldo Alckmin (vice de Lula) aderiram ao projeto. Ontem mesmo, Marina Silva, que vem criticando Lula e o PT há anos e foi candidata em 2018 contra Haddad, declarou apoio a Lula e insistiu que uma vitória do petista é fundamental para não deixar que o fascismo continue no poder.

É preciso saber compreender o momento histórico. Para além de minhas preferências político-ideológicas, o cidadão Cefas entende que o voto em Lula é necessário para impedir a continuidade do bolsonarismo e tudo o que ele representa.

Percebo que cada vez mais jornalistas tido historicamente como "imparciais" declaram voto em Lula com os mesmos argumentos que elenquei. Compreenderam o momento histórico que vivemos.

Faltam 19 dias para a eleição mais importante desde a redemocratização do país. Que deixemos para 2023 as críticas pontuais e visões diferentes de gestão e tratamento de pautas sociais e identitárias. Que não apontemos o dedo no nariz de ninguém mais e nem façamos a ficha corrida das pessoas. Roosevelt, Stalin e Churchill tinham diferenças abissais entre eles e se uniram para combater o inimigo em comum: Hitler e o nazismo. Depois voltaram às suas diferenças.

Que votemos pela democracia, pelo respeito às instituições.

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