OPINIÃO

Os desafios de Marleide: uma professora candidata

Por Fernando Alves

Em 14 de agosto de 2013, no Mundial de Atletismo, a corredora jamaicana Shelly Ann Fraser conseguiu um feito histórico, ao unificar os títulos olímpico e mundial da modalidade, ao se tornar campeã mundial dos 100 metros rasos em Moscou. Naquela competição, Shelly demonstrou ser uma das mulheres mais rápidas do mundo a ingressar na história do esporte. Ela já havia sido medalha de ouro na Olimpíada de Pequim em 2008, assim como em Londres, em 2012. Entretanto, ao subir no pódio novamente, repetindo a conquista que já havia obtido no Mundial de 2009 em Berlim, Shelly Ann, uma mulher negra, carismática e de cabelos pintados de vermelho, também se destacou pela sua estatura: com apenas 1, 52m, uma das maiores atletas da história também era uma mulher baixinha. Apelidada desde os tempos da escola de “Pocket Rocket” (Foguete de Bolso), a pequena Shelly Ann ficou conhecida nas pistas como a baixinha que tinha “dinamite nos pés”.

A clássica literatura nordestina de cordel, que, em 2018, recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro já celebrava as mulheres baixinhas. Com o terno “baixinha invocada”, buscava-se, no léxico, mais do que falar da estatura, destacar o temperamento de mulheres fortes, ora ciumentas no amor, ora poderosas, ao se levantar contra as injustiças e contra um universo cultural machista e patriarcal que não dava voz às mulheres. A baixinha invocada do cordel passou a ser aquela mulher de pouca altura na fisionomia, mas uma gigante moral ao se manifestar.

Voltando-se no tempo e no espaço, chega-se à cidade de Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Na Câmara de Vereadores local, uma mulher igualmente de baixa estatura como a campeã olimpica Shelly Ann, adentra o plenário da Casa Legislativa mossoroense, numa tarde do mês de agosto, e apesar de aparentar até certa timidez, por detrás de seus óculos de grau, eleva a voz e começa a chamar a atenção de todos, divulgando graves denúncias de corrupção, envolvendo a utilização do auxílio-emergencial concedido pelo governo federal. Segundo a vereadora petista, Marleide Cunha, funcionários em cargos comissionados da Prefeitura de Mossoró estariam cobrando propina para cadastrar pessoas no programa As denúncias da vereadora teriam sido encaminhadas ao Ministério Público Eleitoral e a Procuradoria da República.

Marleide está há quase dois anos na Câmara Municipal de Mossoró, eleita para o seu primeiro mandato ainda no começo da pandemia. Pandemia terrível, de um presidente negacionista, que chegou a deixar o laboratório da Pfizer esperando por mais de um mês, em agosto de 2020, até que decidisse liberar vacinas que, infelizmente, não chegaram a tempo ao marido de Marleide, Marciano, contaminado pelo vírus e morto pela doença no ano seguinte, pouco tempo após a esposa ter sido diplomada vereadora eleita. Entre um titubeante general Pazuello, alçado à condição de Ministro da Saúde, num momento em o país precisava é de mais médicos, Marleide foi mais uma das mães e esposas que teve de velar um ente querido falecido por um vírus pandêmico, mas também por uma pandemia de autoritarismo, ignorância e estupidez. Chegava a hora de se aumentar o volume da voz!

Antes, Marleide era professora licenciada, sindicalista, vinculada ao Sindicato dos Servidores do Município de Mossoró. Nessa condição, no embate com a então Prefeita e ex-governadora Rosalba Ciarlini, Marleide viu um Legislativo Municipal majoritariamente a favor da Prefeita, nas lutas salariais dos professores, que, por manobra de Rosalba, chegaram a emitir o titulo de persona non grata para uma sindicalista que já havia sido convidada a receber uma homenagem, pelos serviços prestados às lutas e por sua representatividade na sociedade civil..Foi naquela ocasião que aquela professora baixinha, mãe de dois filhos, decidiu ingressar na política. Pelo Partido dos Trabalhadores elegeu-se vereadora, e agora é candidata a deputada estadual.

Enfrentar dificuldades, receber críticas, sofrer perseguição política e ter de escutar comentários machistas e preconceituosos fez parte por anos do cotidiano dessa potiguar, nascida filha de uma agricultora e de servente de pedreiro, que desde tenra idade viu as dificuldades de mulheres nordestinas pobres do sertão brasileiro, que se não pegaram um ônibus em direção às metrópoles do sudeste para tentar a sorte em funções subalternas, permaneceram em sua região na disputa renhida e nem sempre justa de espaço. Outro desafio superado pela agora candidata a deputada pelo PT foi o de superar à exploração econômica, o machismo, a prostração e a alienação, encarando com seriedade o compromisso público como educadora, sindicalista e militante política, tanto quanto como o de mãe e de esposa. Este é o roteiro de muitas mulheres num Brasil que ainda é recorde de injustiças, desníveis salariais e violência contra a mulher. Esse é o Brasil e o Rio Grande do Norte de Marleide.

Evangélica, assim como Marina Silva do Rede e de sua companheira de partido, a ex-governadora e deputada carioca Benedita da Silva, Marleide enfrenta diversos desafios, além de ser mulher, sertaneja de origem proletária e de um partido de esquerda, fora do tradicional esquema oligárquico: mostrar que é viável num segmento social seduzido diuturnamente pelo discurso dos falsos profetas do bolsonarismo e sua primeira-dama, o das mulheres evangélicas.

Além disso, após Fátima Bezerra ter se notabilizado no ambiente da Educação como candidata egressa do meio, numa trajetória política ascendente e bem sucedida de presidente de sindicato, deputada estadual, federal, senadora, até se tornar governadora do Estado, Marleide Cunha parece ter o mesmo desafio, por ser ela também uma militante política nascida em sala de aula e no ambiente sindical. Historicamente o PT, e porque também não dizer a esquerda do Rio Grande do Norte, deve seu crescimento e desenvolvimento ao apoio fundamental da categoria profissional dos professores. Afinal, em quais rincões do nordeste e do sertão brasileiro encontra-se mais desses trabalhadores do que um professor, seja num grupo escolar ou num casebre, dando suas aulas, desde a capital até o Alto Oeste potiguar? No descalabro causado no país com a chegada ao poder de Bolsonaro, de ministros da Educação mais conhecidos por escândalos e falas infelizes sobre crianças autistas até casos de corrupção, do que por comprometimento com o desenvolvimento da área, e a menor quantidade, em décadas, de investimentos para o ensino brasileiro, candidatas com o histórico profissional e de lutas como Marleide parecem imprescindíveis no debate eleitoral.

É! Feliz é um país, uma região e um processo eleitoral de tantas vozes masculinas misóginas e reacionárias, que ainda tem a voz mais alta de baixinhas invocadas, que fazem toda a diferença!

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