LGBTs são acolhidas no MST-RN: “quero dividir tudo que eu aprendi com os acampados daqui”
Natal, RN 22 de jun 2024

LGBTs são acolhidas no MST-RN: “quero dividir tudo que eu aprendi com os acampados daqui”

23 de outubro de 2022
6min
LGBTs são acolhidas no MST-RN: “quero dividir tudo que eu aprendi com os acampados daqui”

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Jeniffer Rocha, 26, entendeu desde criança que o corpo com o qual tinha nascido não correspondia a quem ela era verdadeiramente. Até se assumir travesti – e depois se entender como mulher trans – enfrentou preconceitos que a fizeram sair de casa. Uma vizinha a indicou a Comuna Fidel Castro, um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) localizado no município de Ceará Mirim, onde chegou há três anos. 

“Eu já sabia o que era o movimento, só que eu não me interessava, não gostava, discriminava também, até que eu vim parar no movimento em 2019”, lembra. Dentro do assentamento, ganhou sua própria casa, passou a plantar no seu quintal produtivo e assumiu tarefas dentro do grupo. Hoje, faz parte da direção do Coletivo LGBT Sem Terra do MST.

“Antigamente não tinha setor [LGBT] no Estado, só tinha referências, porque não tinha cadeira assumida. Isso é uma conquista também, porque estou aqui desde 2019 e assumi no ano passado”, explica. “Por ser um movimento que ainda é discriminado por muitas pessoas, o movimento faz esse momento de luta, de resistência, de também englobar e levantar a bandeira LGBT”, enfatiza Rocha.

Dentro do MST, Jeniffer encontrou um grupo com lutas amplas, que vão além da busca por terra. “A luta do movimento não é uma luta só por terra. Não é uma luta só por um quintal produtivo e uma moradia digna. E sim por igualdade social, onde possamos ter pessoas iguais em meio às diferenças”, aponta.

O destaque dentro do MST e a militância a fizeram conhecer outros estados e participar de eventos nacionais representando o grupo, como o Congresso Nacional do movimento e de formações em Direitos Humanos. Por outro lado, a transfobia ainda é relatada por militantes que vivem em comunas, mas Rocha diz que a direção busca coibir o preconceito.

“Qualquer pessoa que faz parte do movimento já tem uma clareza sobre as coisas, mas também tem alguns que não são de acordo com as pessoas transexuais ou travestis na organização”, relata. “E também tem alguns que criticam porque nós fazemos parte de uma coordenação, de algum setor, e falam que nós não é para estarmos naquele naquele espaço porque não temos capacidade para isso”, explica.

“Isso sempre vai acontecer em vários espaços, mas estamos lutando para que isso mude e para que as pessoas vejam que nós não somos só um objeto para fazer desejos, e sim para fazer ações e transformações diante da conjuntura”, objetiva. 

Jeniffer e Ariela, mulheres transsexuais sem terra | Foto: cedida

Conquistas

Ao longo dos três anos de luta pela reforma agrária, Jeniffer ainda iniciou uma licenciatura em Geografia. O curso veio através de uma parceria do MST com o IFRN e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). A garota, que na infância queria ser professora de inglês, hoje estuda para ser geógrafa. 

Além disso, também iniciou um relacionamento com um companheiro, que não é sem-terra mas participa de algumas atividades com ela. “Ele não é do MST, ainda não. Mas está se incluindo nas tarefas, porque homem de militante tem que ser militante da organização”, brinca.

A militante hoje se vê com uma mulher com todos os seus direitos. Graças ao apoio do MST, ela conseguiu retificar os documentos e passou a usar o nome social feminino.

“O Movimento Sem Terra abre muitas portas e oportunidades para você, tanto de estudo como de formações. Uma conquista que eu tive muito e que sempre gosto de falar foi meu nome social, através do MST e através da luta”, destaca. “Quem me acompanhou nesse processo foi a companheira Ayala Maria, que é a mulher que militava aqui nesse espaço. Uma grande mulher, uma grande militante”, agradece.

Ariela quer “dividir tudo que eu aprendi com os acampados”

Outra mulher transexual da Comuna Fidel Castro, Ariela Santos, 30, também chegou no acampamento após episódios de transfobia ao longo da vida. Para assumir sua identidade, não teve o apoio dos pais nem dos irmãos, e por isso saiu de casa para morar com uma tia. 

A chegada na Comuna foi também foi indicação de uma amiga, assim como o caso de Jeniffer. Já no começo, entretanto, enfrentou resistência de alguns acampados. “Ainda que o movimento dê apoio, ainda existem muitas pessoas dentro que tem preconceito com as pessoas trans, gays e lésbicas”, comenta. Por isso, ela saiu e retornou tempos depois.

”Então estou morando aqui novamente na Comuna Fidel Castro. Tenho o meu quintal produtivo, tenho minha casa, tô produzindo graças a Deus, e estou muito feliz. Eu estou no setor de Disciplina, e muitas pessoas também não me apoiam por eu ser mulher trans, e não me querem no setor de disciplina, mas eu estou de cabeça erguida, porque enquanto tem alguns que não me querem, tem outros que me apoiam”, aponta.

Atualmente, Santos trabalha como cozinheira em um restaurante. Antes de entrar no MST, também tinha uma visão sobre o grupo que hoje considera distorcida.

“Discriminava sim, não vou mentir. Mas depois que eu conheci o MST e eu entrei dentro do movimento, tive outra visão muito diferente, muito realista. A luta pelo que eles trabalham, e é aí que a gente vê a realidade, porque quando a gente tá de fora a gente julga, mas quando a gente entra de dentro a gente já vê outra visão”, afirma.

Recentemente, também viajou com o grupo e participou do Curso de Formação de Educadores e Educadoras Populares em Saúde LGBTI+ do Campo e Prevenção às IST/HIV/AIDS, em Salvador-BA.

“Para mim, foi tudo novidade. Eu aprendi muitas coisas que eu não sabia e que eu trouxe aqui para a Comuna Fidel Castro. Quero dividir no momento que eu tiver a oportunidade tudo que eu aprendi com os acampados daqui”.

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