Decifrando o eleitor que vota em Bolsonaro por identificação
Natal, RN 22 de abr 2024

Decifrando o eleitor que vota em Bolsonaro por identificação

4 de outubro de 2022
5min
Decifrando o eleitor que vota em Bolsonaro por identificação

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Leio nas editorias de política que dos 167 municípios do Rio Grande do Norte, em 166 Lula venceu Bolsonaro no primeiro turno e em apenas um, Parnamirim, o "mito" teve mais votos do que o petista. Não surpreende. Parnamirim é uma cidade tradicionalmente militarizada (fundada na Segunda Guerra Mundial justamente para fins militares, como campo de pouso para aviões dos EUA) e também evangélica, eleitor quase cativo de Jair. Ah, mas tenho de dizer: moro em Parnamirim. Mais exatamente no bairro de Nova Parnamirim, antes conhecido como "Nem", por nem ser Natal e nem Parnamirim, mas que hoje tem autonomia e crescimento mais acelerado que o restante da cidade e mesmo do Estado.

Adoro morar em Nova Parnamirim, é preciso que se diga, e só deixo esse bairro se for amarrado ou se rumo a Paris (ops, desculpe Ciro). Mas também é necessário registrar que o bairro, apesar de ser uma delícia para se consumir e divertir, é também marcado por um pseudo-elitismo que por osmose leva boa parte dos seus habitantes a se sentirem classe média alta, endinheirados, superiores, por lógica, conservadores. Ou seja, bolsonaristas.

É isso. O bairro é cheio de adoradores (e esse é o termo) do despresidente. Percebi isso na minha seção eleitoral, no Colégio Salesiano da avenida Ayrton Senna, com maioria de gente vestida de verde e amarelo na fila. Nos estacionamentos dos supermercados e restaurantes do bairro há sempre muitos veículos com as bandeiras do Brasil nas janelas. Ah, e temos ainda as distribuidoras de bebidas que funcionam como bares, tradição em Nova Parnamirim, essas quase sedes de confraria de bolsonaristas.

Mas a complexidade começa aí. Uso o termo bolsonaristas e não bolsominions, porque tenho estes segundos como aqueles  fanáticos, agressivos e barulhentos, que parecem sempre a um milímetro da violência física. Os primeiros votam no genocida, mas por razões comportamentais que serão devidamente estudadas por sociólogos e cientistas políticos nas universidades, se ainda existirem em caso de vitória do miliciano, claro. Eu, sociólogo de botequim, tenho por mim, e alguns amigos mais estudados compartilham dessa ideia, de que boa parte da votação e apoio a Bolsonaro parte da uma identificação, ainda que enviesada e distorcida.

Explica-se: Parte dos nordestinos (incluindo e muito nesse balaio os frequentadores dos bares e distribuidoras cujas conversas escuto) que fazem ou se consideram parte de uma elite econômica, principalmente homens urbanos socialmente héteros entre 45 e 60, ainda tendo nascido na região, consideram no imaginário deles que nordestino tem o perfil de Chicó e João Grilo, ou o Severino de João Cabral de Melo Neto. Por ter nascido em família abastada, viajar para Miami e frequentar o Mangai, este personagem se sente mais em uma novela de Manoel Carlos do que no Nordeste. Portanto, na lógica dele, não existe identificação entre ele e Lula, um nordestino que jamais abandonou suas raízes e foi para São Paulo em um pau de arara. A pessoa se identifica mais com Bolsonaro, sudestino de olhos claros, do que com Luís Inácio.

A identificação também pode ter um pé no preconceito social (olha aí a velha luta de classes, enfatizada por Karl Marx). Lula é o símbolo maior da ascensão social possível (da pobreza extrema para o cargo mais alto do país) e promoveu a inclusão socioeconômica que permitiu aos mais pobres "privilégios" antes da elite, como frequentar uma universidade ou viajar de avião. Recordo que dia desses, bebendo no bar de um amigo, na mesa ao lado, uma roda de homens-brancos-endinheirados um deles falou que "educação vem de berço". É isso. O cara acredita em capitanias hereditárias e vai deixar as fazendas que herdou do pai para o filho e não quer ver o garçom que lhe serve (que não tem "berço") ascender na vida e disputar espaços com seus filhos. Vota em Bolsonaro com força. Como votou em Aécio, em Alckmin, em Serra e em Collor. Por identificação a favor mas também contra um projeto que fere sua concepção de "privilégios como direitos". Esse preconceito é disfarçado com a retórica de que "lula é ladrão" e que "O PT desviou 2 trilhões da Petrobras". Esse pessoal fala isso em bares esquecendo que o cunhado vereador comprou mansão de 1 milhão de reais com salário de 7 mil e que o sócio não paga imposto de renda há 20 anos.

Esse raciocínio é importante para entender muitos dos eleitores de Jair não são fascistas na acepção da palavra e socialmente podem ser até educados e civilizados, caso dos senhores de engenho das confrarias que citei, sempre falando alto, mas jamais criando brigas ou confrontando quem pensa diferente. O núcleo duro bolsonarista com tendência nazifascista deve ficar mesmo na casa de 25% como jornalistas experimentados detectaram. Esse grupo quer a eliminação do outro. O problema é que esse pessoal sempre tem o reforço desse pessoal não agressivo, mas com uma irresistível identificação com a pauta que Bolsonaro assumiu. Um conhecido meu, boa pessoa que não faz mal a uma mosca, vota em Jair porque Lula "quer dar espaço demais aos gays", nas palavras dele. Ele esquece que o irmão dele é homossexual (não assumido). Tem muita gente assim. Num país de 200 milhões de almas é preciso separar o joio do trigo e ainda detectar os tipos de joio existentes. Brasil 2022 não é para amadores. Essa eleição também não.

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