Luta de classes à moda de Marx é registrada nos votos dos bairros de Natal
Natal, RN 24 de jul 2024

Luta de classes à moda de Marx é registrada nos votos dos bairros de Natal

11 de outubro de 2022
4min
Luta de classes à moda de Marx é registrada nos votos dos bairros de Natal

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Logo após as eleições de 2 de outubro passado, desandei a ler mapas de votação na tentativa de compreender o processo. Debrucei-me com atenção na votação Lula x Bolsonaro por estados e regiões, depois por classe sócio econômica e também por religião.

Mas só nesta segunda-feira à noite é que amigos me atentaram para o mapa das votações por bairros de Natal, capital e maior colégio eleitoral do Rio Grande do Norte. Sabemos que na capital o petista venceu ( 225.529 votos contra 188.942 do despresidente) mas há umas particularidades geográficas que devem estar fazendo Marx sorrir em seu túmulo.

Comecemos pelo vencedor. Lula venceu em praticamente todos os bairros, incluindo Centro e Alecrim e a região mais turística da cidade, Ponta Negra. Destaque para os percentuais obtidos em Guarapes (65,7% do petista contra 28,6%) e em Mãe Luíza (62,9% contra 29,8%).

Mas chamou minha atenção a localização das quatro vitórias de Bolsonaro. Aconteceram em bairros ligados entre si, no chamado "Plano Palumbo"  (como é conhecido o Plano Geral de Sistematização, desenvolvido em 1929 pelo arquiteto grego, radicado na Itália, Giácomo Palumbo, com o objetivo era criar medidas para que a Natal da época e com pensamento voltado para o futuro, com um traçado urbanístico moderno e eficaz, para controlar a expansão desordenada da cidade. Hoje, com a desordem da cidade, o trânsito urbano e a decadência da área, o termo serve para designar, quase de maneira picaresca, o esnobismo da área),

Mas, vejamos: em Tirol, Bolsonaro teve votação de 6.392 votos (53,9%) contra 4.320 (36,4%) de Lula. Em Petrópolis, a maioria de 3.841 (47,1%) do genocida contra 3.634 (44,5%). Já em Lagoa Nova vantagem bolsonarista com 15.867 (46,3%) x 15.210 (44,4%). Em Barro Vermelho, o despresidente conseguiu 1442 sufrágios (52,8%) e o ex-presidente 1045 (38,2%).

Quem conhece Natal não estranha esses números nem esse mapa. Os bairros citados são habitados por uma elite socioeconômica ( na verdade mais social que econômica...) que mantém uma nostalgia de tempos como a ditadura militar e quando as "castas" sociais eram mais visíveis e mais respeitadas. Morei quando criança na Rua Maria Auxiliadora, literalmente muro com muro com o colégio de mesmo nome, sei do que estou falando. Eram tempos em que as empregadas das casas chiques não viajavam de avião e os filhos delas não dividiam as escolas e curso de inglês com os filhos da elite.

Qualquer pessoa que frequente bares, restaurantes, lojas espaços diversos do Plano Palumbo vai perceber esse comportamento social dos seus habitantes que parecem (ou querer) viver em uma Natal que não existe mais, em um mundo que, felizmente, já acabou, mas que eles querem sustentar/resgatar e nessa tarefa macabra veem em Bolsonaro o nome ideal já que não se aceitariam votando em um migrante nordestino (como eles, mas que se alinham mais com Miami e Leblon do que com o Nordeste) que fez os mais pobres terem acesso a bens e produtos historicamente negados a eles.

Lula perder em Petrópolis, Tirol, Barro Vermelho e Lagoa Nova era mais que esperado. Assim como Lula só perder para Bolsonaro em um único município dos 167 do RN: Parnamirim, cidade historicamente militarizada e evangélica. Mas aí já abordamos na semana passada e rende pano para manga para outros textos.

Por ora, resta constatar que, ao contrário do que se imagina, muita, mas muita gente mesmo tem consciência de classe e vota em quem vai melhorar a vida de todos, coletivamente. Marx deve estar orgulhoso em seu túmulo em Londres ao saber, caso tenha sido informado na além-vida, da votação maciça que a Zona Norte, Cidade da Esperança, Felipe Camarão, Rocas, Santos Reis, bairros periféricos e considerados "perigosos" pelos habitantes do Plano Palumbo, deram ao candidato de origem humilde que conseguiu dar a classe trabalhadora onde ela merece: oportunidade e respeito.

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