OPINIÃO

Mulher, mãe, jornalista, cidadã: será que eu posso falar?

Por Eliade Pimentel
Jornalista Profissional

Na semana em que comemoramos a vitória do amor pela democracia, entrei numa discussão infrutífera ao discutir o lugar de fala de uma colega jornalista, que foi classificada pela interlocutora em questão como “branca classe média baixa” e, eu, por tabela, ao defendê-la, ainda tive um acréscimo, fui acusada de fazer o “pacto narcísico de branquitude”, com direito à referência bibliográfica, como um sinal claro para que eu ficasse bem caladinha, pois ali não era ao meu lugar de fala.

No ensejo da conversa, nenhuma vez a moça fora indelicada ao desempenhar sua função editorial. Entrou com uma sugestão de mudança no texto, a qual não foi aceita, e assim a discussão foi acalorada quando a outra falou que iria reportar-se à chefe dela caso fosse mudada uma vírgula do seu texto, numa atitude bem coronelista, ao meu ver. O fato é que ao final, o ranço sobrou para mim. Em alto e bom som, a mulher mandou eu me recolher e ainda se gabou de ter me deixado no vácuo em algumas situações em que eu a procurei no privado.

“Pois é, nós, pessoas racializadas não estamos a sua disposição e nem sempre tenho paciência pra ouvir suas discussões alienadas. Volte a contar gatos. É o melhor que você faz”. Certamente, pois não me recordo agora, fui procurá-la para tratar de algum ponto de vista sobre um dos seus lugares de fala. Em 25 anos de profissão, sei que é normal não ter acesso a todas as fontes. Cada pessoa tem liberdade para dizer não a uma abordagem da imprensa. E lido muito bem com isso.

Sendo que a parte que eu não entendi foi a inclusão de todas as pessoas classificadas como “racializadas” nesse junteiro de “não vou falar para uma branca classe média baixa”. Fale por si, pois ao longo de duas décadas e meia de profissão, posso e devo me orgulhar de ter ouvido e dado voz a muitas pessoas que estavam roucas de tanto gritar, pois tanto a sociedade, quanto a imprensa, não se davam ao trabalho de ouvi-las.

Outra parte que me chamou a atenção no discurso de ódio foi a desqualificação dos temas abordados por mim em minhas publicações. “Discussões alienadas”. Talvez sejam mesmo, para quem não está no meu lugar de fala, se é que existe um que eu possa ocupar com legitimidade. Será que o fato de ser mulher branca classe média baixa, jornalista, mãe, cidadã, moradora de três comunidades, não me dá o direito de falar nem dar ouvidos quando me sinto incomodada com algo?

Será que não posso agir de maneira corporativa, ao defender uma colega jornalista em pleno exercício da profissão? Prezo, desde menina, por ambientes plurais, em que eu possa ouvir e ser ouvida. Muitas vezes precisei gritar bem alto para me fazer ouvida em meu ativismo ambiental. Será que é uma discussão alienada defender a preservação da trilha do Vale Encantado, no distrito litoral Pium, para que todas as pessoas possam fazer o caminho, sem distinção de classe social, credo, religião ou etnia? Será que é uma discussão alienada eu vir a brigar com motoristas incautos que não livram o passeio público ao estacionar suas potentes carangas?

Será que é uma discussão alienada a defesa do Pontal de Baía Formosa, um dos mais famosos picos de surfe do Nordeste, de receber esgotos numa obra nefasta que até hoje revela sua boca de lobo ali instalada? Será que é uma discussão alienada trazer à tona a destruição dos roçados cultivados por irmãos e irmãs indígenas da comunidade do Sagi, pela atrocidade do capitalismo da usina Vale Verde?
Será que é uma discussão alienada procurar saber, junto à prefeitura de Parnamirim (RN), o que será feito da Feirinha de Pium, que terá de ser realocada, e o fato de o projeto não ter andado só prejudica ainda mais comerciantes e população? Será que é discussão alienada eu ser porta-voz de toda uma comunidade que vive às margens das falésias de Baía Formosa, e lutar pela preservação das barreiras?

Quando passa a indignação do momento, vem a reflexão. Será que eu devo me calar diante da fala equivocada de uma escritora, que aponta seu dedo em riste e zomba de minha vida simples, evocada em vários espaços a que tenho acesso? Nessas horas, só ouço uma voz falando com o desespero de quem precisa de uma porta-voz qualificada. “Cadê a jornalista da comunidade?”. E resolvo não me calar.

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