Elis, Maria Rita e a Volkswagen: na emoção do reencontro, o apagamento dos horrores da ditadura
Natal, RN 24 de abr 2024

Elis, Maria Rita e a Volkswagen: na emoção do reencontro, o apagamento dos horrores da ditadura

9 de julho de 2023
5min
Elis, Maria Rita e a Volkswagen: na emoção do reencontro, o apagamento dos horrores da ditadura

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A troca de um olhar, a alegria compartilhada, a canção cantada junto. O que há 41 anos eram fantasias do cotidiano de uma criança que aos quatro anos de idade perdeu a mãe parece se tornar realidade. Mas só parece. Com o artifício da inteligência artificial (IA), a Volkswagen quis provocar nos brasileiros a emoção de ver realizado esse sonho criando um dueto entre a eterna Elis Regina e a sua filha Maria Rita num filme comemorativo de seus 70 anos no Brasil.

O ponto de conexão encontrado funcionou muito bem, porque levou com que boa parte das pessoas tivessem o sentimento de nostalgia”, avalia a produtora cultural Ariane Cavalcanti.

Mas, para a idealizadora do Belchbar e do “Tributo a Belchior” em Natal, a propaganda, que protagoniza o reencontro de mãe e filha na direção do Fusca, da Kombi original e da Kombi elétrica ID. Buzz, “não é feita exatamente para isso, não é feita para vender kombi”.

Sem contestar a beleza estética e afetiva do vídeo, que levou alguns dos brasileiros e brasileiras às lágrimas, especialmente os fãs das cantoras Elis Regina e Maria Rita e do cantor Belchior, compositor da música “Como Nossos Pais” utilizada pelo filme promocional, Ariane faz coro às críticas feitas à Volkswagen pela tentativa de apagamento ao seu passado colaborativo com o nazismo na Alemanha e com a ditadura civil-militar no Brasil.

Contaram com afetividade do nosso povo e com a pouca memória ou o desconhecimento dos fatos”, afirmou Ariane ao lembrar a relação entre a montadora alemã e o regime militar no Brasil.

A montadora em questão torturou. Torturou mulheres dentro das suas sedes, das suas indústrias, que Elis fechou para arrecadar fundos para os sindicalistas que se movimentavam no ABC Paulista. Belchior recusou contrato para fazer um show contratado pela empresa”, pontua a produtora.

Um inquérito contra a Volkswagen confirmou a participação da montadora na repressão durante o regime ditatorial no Brasil. A investigação concluiu que a montadora alemã colaborou intensamente com a ditadura militar de forma voluntária, sem sofrer pressões externas.

O relatório divulgado em março de 2021 foi produzido em conjunto pelo Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP), Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) e o Ministério Público do Trabalho (MPT) e é resultado de uma investigação iniciada em 2015, quando foram abertos inquéritos civis contra a empresa após solicitação de vários sindicatos e da Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Em 2020, esses inquéritos resultaram em um acordo assinado com a empresa, que inclui o pagamento de R$ 36,3 milhões em indenizações, além do reconhecimento público dos fatos e retratação.

O ponto principal para mim é a naturalização, é a aproximação da marca com o público, para que a gente aceite de forma mais tranquila a fake, para que a gente associe à uma coisa bacana, positiva, que nos emocionou, fortalecendo a ideia de ternura. Mas é tão destoante do que é, do que foi essa indústria, do que ela causou a tantos operários”, ressalta Ariane Cavalcanti.

Dona de um bar temático sobre Belchior, que surgiu durante a pandemia da Covid-19, Ariane tem um dos grandes compositores brasileiros como ídolo desde a infância. Talvez por isso o vídeo promocional produzido pela Volkswagen tenha causado estranheza na produtora. “A primeira sensação foi de arrepio”. Foi preciso assistir ao filme mais de 20 vezes. “Eu queria entender o que tinha me tocado e causado toda estranheza de não saber dizer se gostei ou não gostei de cara”.

Isso porque, não apenas a relação da montadora com a ditadura gerou debates, mas também o uso ético de inteligência artificial (IA) e o significado de uma das canções mais importantes da história da música popular brasileira.

Em uma entrevista concedida ao programa Nossa Língua Portuguesa, em 1996, Belchior revelou que a inspiração para "Como Nossos Pais" veio da vontade de compor uma canção ácida, amarga e reflexiva.

A canção foi lançada em 1976, em plena ditadura militar. O cenário era de perseguição, sequestro, prisão, tortura e morte dos opositores ao regime composto por militares que deram um golpe no presidente João Goulart. A letra se opõe frontalmente ao "domínio da caretice e da repressão política e comportamental", ao alertar:

"Por isso, cuidado, meu bem: há perigo na esquina. Eles venceram, e o sinal está fechado para nós, que somos jovens".

O jovem que participava de manifestações nas ruas em busca de mudanças, "com cabelo ao vento e jovens reunidos", se tornou apenas uma imagem dolorosa na parede.

Existe também um elemento de revolta na ideia de que não há nada de novo nas expressões contemporâneas da música e da arte: "Mas é você que ama o passado e não percebe que o novo sempre surge".

No que pese a beleza afetiva do restabelecimento da história interrompida de Elis Regina e Maria Rita, no filme está a história de apoio da Volkswagen a um dos períodos mais duros da história recente do Brasil, está a história das vítimas da ditadura civil-militar, está a história da busca pelos corpos dos mortos e desaparecidos, está a história dos traumas continuados nas vidas dos filhos e netos das vítimas diretas do regime militar.

Não se trata de uma tentativa de reparação, mas de mais uma ação em busca do esquecimento como forma de perpetuação das violências cometidas no passado.

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