Conheça Nádia Farias: “A literatura negra vai além das nossas dores”
Natal, RN 17 de jul 2024

Conheça Nádia Farias: "A literatura negra vai além das nossas dores"

21 de novembro de 2023
4min
Conheça Nádia Farias:

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Por Ana Laura Alvarenga, da Livraria Cooperativa Cultural

No cenário cultural e educacional brasileiro, a voz de Nádia Farias dos Santos se evidencia como uma narrativa única e representativa da força da mulher negra na busca pela excelência acadêmica e na construção de uma sólida carreira literária. Professora do IFRN Apodi, autora independente e poeta, Nádia compartilha sua trajetória e experiências em uma entrevista exclusiva à Livraria Cooperativa Cultural/Agência SAIBA MAIS, dialogando sobre a importância da representatividade negra na educação e na literatura, destacando a necessidade de reconhecimento para a população preta.

Natural da Paraíba, Nádia divide sua vida entre Patos-PB e Apodi-RN. Filha de um casal que não teve acesso à universidade, foi a primeira da família a alcançar o doutorado e a aprovação em concursos federais.

Aos quatro anos, aprendeu a ler explorando gibis e, a partir daí, tornou-se leitora voraz, aventurando-se por diferentes gêneros literários.

“Eu sempre fui uma leitora de tudo, de bula de remédio ao que você imaginar, era aquela chatinha que não podia ver uma letrinha que estava querendo ler", comenta com um sorriso no rosto, ao lembrar da infância.

A escrita, para ela, transcende o ato de colocar palavras no papel; é uma forma de expressar cores, sabores e cheiros. As palavras, segundo Nádia, carregam energias que impactam sua vida de maneiras profundas, sendo capazes de transmitir tanto energia boa quanto ruim.

“Minha relação com a escrita e com a leitura é de amor profundo, não existo sem a escrita e sem a leitura e, de alguma forma, acho que elas existem em mim e eu nelas”, diz.

Durante a pandemia, sentindo a urgência de deixar uma marca no mundo, ela compilou seus textos e buscou oportunidades de publicação. O primeiro livro solo, resultado desse esforço, trouxe uma experiência desafiadora, mas gratificante, ao enfrentar as complexidades do mercado literário brasileiro. As escritas dela, assim, saíram de sua gaveta.

Sua incursão na autopublicação, sublinha a importância de compreender cada etapa do processo editorial. Ela enfatiza a necessidade de os escritores conhecerem os custos envolvidos na produção de um livro, tanto ao trabalhar com editoras quanto ao se aventurar de forma autônoma. Essa dualidade, segundo a escritora, proporciona uma visão mais completa do cenário literário.

Nádia comenta a importância do trabalho coletivo para fortalecer a presença de autores negros no mercado. Ela realça a dificuldade enfrentada por escritores do interior e a necessidade de cooperar para superar desafios logísticos e financeiros.

"A coletividade nos faz ir mais longe. Se não conseguimos sozinhos, juntos alcançamos mais. É preciso despertar para a cooperação e entender que nossas saídas são sempre coletivas", conclui Nádia.

A mesma se dedica a trazer a temática negra para a educação, desenvolvendo projetos que evidenciam a presença de figuras negras na ciência e na história. Ela ressalta a importância do professor preto como agente transformador, destacando a necessidade de uma reformulação nos currículos para garantir a representatividade preta em todas as áreas.

Nádia também aborda a importância de desmistificar estereótipos e ampliar o reconhecimento de escritores negros e indígenas na literatura brasileira. Ela realça a riqueza cultural e histórica presente nesses escritos, salientando a necessidade de superar o racismo estrutural na seleção de obras e projetos pedagógicos.

Destacando a importância de proporcionar aos alunos a experiência de se verem representados na literatura desde a infância, ela sublinha a necessidade de acesso à literatura infantil e infanto-juvenil negra, que retrate e celebre a diversidade de identidades, contribuindo para a construção de uma identidade positiva desde cedo.

"É importante apresentar para as crianças e jovens diferentes perspectivas de beleza, destacando que a beleza não se limita aos padrões eurocêntricos. A literatura negra é rica em narrativas que mostram a diversidade e a contribuição significativa das culturas africanas e afro-brasileiras".

Ao falar sobre a literatura negra, Nádia destaca autoras como Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus. Essas escritoras, ao longo dos séculos, trouxeram uma consciência racial que ecoa até os dias atuais, dando voz às vivências e realidades muitas vezes negligenciadas.

"A literatura negra vai além das nossas dores. Temos alegrias, paixões, e também falamos sobre o mundo de forma rica e diversa. Nós temos uma literatura brasileira ainda muito embranquecida, mas os escritores negros, negras e indígenas estão aí gritando. A periferia grita faz tempo, o slam grita, o rap grita, o funk, muito combatido, grita por espaços, porque a periferia tem voz, tem escrita, a periferia tem potência. Eu digo a periferia porque ela é preta, a periferia é preta. E a escrita tá sendo um dos veículos, entre tantos outros, como a música, como a dança, como o cinema, para a reivindicação do seu espaço, da sua fatia nesse bolo imenso que é o Brasil, que são as escolas, que são as livrarias, que são as produções literárias. Estamos vendo que desmistificando com a nossa prática, com a nossa ação, com o nosso talento, que nós sempre estivemos e sempre fomos potentes,” disserta.

Nádia Farias dos Santos emerge como uma voz resiliente e inspiradora, cuja jornada reflete a luta por representatividade, educação e expressão artística. A presença dele, como uma das poucas mulheres negras doutoras no Brasil, a destaca como um símbolo de superação e conquistas. No Dia da Consciência Negra, sua história nos convida a celebrar não apenas a diversidade, mas também a resiliência e o poder transformador

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