“Vitória coletiva”: empreendedores negros conquistam premiação no RN
Natal, RN 22 de fev 2024

“Vitória coletiva”: empreendedores negros conquistam premiação no RN

18 de dezembro de 2023
9min
“Vitória coletiva”: empreendedores negros conquistam premiação no RN

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Uma vitória coletiva para a comunidade negra, que há muito tempo empreende mesmo antes de receber esse rótulo”. É assim que Carlos Augusto da Silva, CEO da Agência Kina, define a conquista da Medalha no Mérito Potiguar ao Desenvolvimento Econômico.  Em um momento histórico, ele e sua sócia Maria Eduarda tornaram-se os primeiros empreendedores negros a receber a premiação no Rio Grande do Norte.

A comenda é um reconhecimento do Governo do Estado do Rio Grande do Norte à contribuição de empresários, investidores, agentes públicos e membros da sociedade civil para o avanço da economia potiguar. A solenidade de entrega das medalhas aconteceu no Auditório Albano Franco, no último dia 12 de dezembro, na sede da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern). Na ocasião, 29 personalidades que se destacaram em 2023 no âmbito do Desenvolvimento Econômico foram homenageadas.

Atualmente, mais da metade dos 28 milhões de empresários, empresárias e profissionais autônomos brasileiros são pessoas negras. Os dados são de uma pesquisa do Instituto Locomotiva Brasil e da Feira Preta.

Em entrevista à Agência Saiba Mais, Carlos Augusto da Silva falou sobre a conquista que, para ele, “representa mais do que um feito individual”, alertou sobre a necessidade de um olhar para saúde mental e para uma atenção mais aprimorada ao empreendedorismo, “quando pensado em termos de inclusão”.

Confira o papo na íntegra.

SAIBA MAIS: Como você se sente ao estar entre os primeiros empreendedores negros a receberem a Medalha no Mérito Potiguar ao Desenvolvimento Econômico? Qual a importância desse reconhecimento para você?

CARLOS AUGUSTO DA SILVA: Ao mesmo tempo, reconheço que experimento uma dualidade emocional. Por um lado, sinto uma mistura de alegria e satisfação ao receber reconhecimento. Por outro lado, essa felicidade coexiste com a consciência de que muitas vezes há uma invisibilização das práticas realizadas. Embora me alegre por destacar e representar, é inevitável que sentimentos complexos surjam ao considerar o contexto mais amplo. Essa dualidade é um reflexo da complexidade de emoções que permeiam a experiência, e é importante abordar e compreender esses sentimentos de maneira reflexiva e ponderada.

SAIBA MAIS:  Como o empreendedorismo se tornou uma parte significativa de sua vida? Poderiam compartilhar um pouco sobre a jornada que o levou a esse momento de destaque?

CARLOS AUGUSTO DA SILVA: O empreendedorismo tem desempenhado um papel fundamental e transformador em minha trajetória. Encontrei nessa abordagem a oportunidade de trilhar um caminho onde posso impactar vidas. Historicamente, as pessoas negras enfrentam inúmeras barreiras econômicas, tornando a conquista de objetivos um desafio ainda maior. Antes mesmo de lançar qualquer MVP ou adotar terminologias específicas do empreendedorismo, é crucial acreditar no propósito que impulsiona nossa jornada.

Essa crença, renovada diariamente, exige uma dose significativa de determinação e autoconfiança. Ao refletir sobre essa conquista, percebo que vai além do reconhecimento pessoal; trata-se de uma vitória coletiva para a comunidade negra, que há muito tempo empreende mesmo antes de receber esse rótulo. Receber essa medalha representa mais do que um feito individual; é o resultado de uma longa batalha e produção incansável por parte das pessoas negras. Essa conquista é, portanto, um testemunho do esforço coletivo que transcende meu ganho pessoal, elevando o empreendedorismo negro a um novo patamar de reconhecimento e respeito.

SAIBA MAIS:  Sabemos que empreender envolve superar desafios. Quais são os principais obstáculos enfrentados e como tem conseguido superá-los?

CARLOS AUGUSTO DA SILVA: Os desafios mais significativos que enfrentamos são, muitas vezes, internos, sendo uma batalha constante contra nós mesmos. Cada dia se torna uma jornada de autocompreensão, onde empreender demanda, antes de tudo, o reconhecimento sincero de nossas limitações. A saúde mental emerge como um fator crucial, frequentemente desencorajando muitos de tentarem ou levando à descrença. A exaustão mental é uma realidade recorrente que não pode ser negligenciada, exigindo uma atenção especial. Enfrentar esses obstáculos internos é uma parte inerente do caminho empreendedor, e abordá-los de maneira proativa é fundamental para superar as adversidades e prosperar no mundo dos negócios.

SAIBA MAIS:  O prêmio destaca o desenvolvimento econômico. De que forma seu empreendimento impacta a comunidade?

CARLOS AUGUSTO DA SILVA: Apesar da relevância do prêmio conquistado, ainda nos deparamos com barreiras de acesso e dificuldades econômicas que moldam nossas decisões diárias. A premiação, embora significativa, não é suficiente para impulsionar efetivamente a mudança que almejamos. O conceito tradicional de desenvolvimento muitas vezes negligencia diversas lutas em favor de um progresso unilateral, deixando de reconhecer as inúmeras adversidades econômicas enfrentadas pelas pessoas negras.

É evidente que o desenvolvimento econômico não tem favorecido essa comunidade, servindo, em vez disso, como fonte de desafios adicionais. Sinto a necessidade premente de avançarmos nessas áreas para que possamos usufruir de um desenvolvimento econômico sustentável, onde o crescimento esteja intrinsecamente ligado ao bem-estar social. Esse imperativo é particularmente claro na realidade do empreendedor periférico ou não branco, onde as questões econômicas se entrelaçam de forma complexa com desafios sociais. Buscar um cenário no qual o progresso econômico não apenas supere obstáculos, mas também promova um ambiente propício ao desenvolvimento integral é crucial para construir uma sociedade mais equitativa e inclusiva.

SAIBA MAIS:  Como você vê o papel do empreendedorismo negro na construção de uma sociedade mais igualitária?

CARLOS AUGUSTO DA SILVA: A situação enfrentada pelos negros no Brasil demandou a adoção de medidas e ações após a abolição da escravatura. O empreendedorismo negro, embora não rotulado como tal, é inerente à nossa história. A nomenclatura em si é uma representação moldada por uma perspectiva branca, pois, como pessoas negras, sempre estivemos envolvidos nesse processo, seja nas barracas de acarajé ou na venda de doces. Especialmente as mulheres negras, que desempenham um papel crucial no comércio, destacam-se pela importância social que detêm. Ao longo do tempo, elas têm sido comunicadoras e informantes essenciais sobre a realidade, contribuindo para que outros negros e negras pudessem, inclusive, adquirir sua liberdade.

O empreendedorismo, quando pensado em termos de inclusão, exige uma atenção mais aprimorada. Necessitamos não apenas de representação, mas, fundamentalmente, de investimento financeiro para que nossos projetos deixem de ser meras ideias e se concretizem de maneira menos árdua, comparativamente à experiência de empreendedores brancos. Estamos buscando mais do que visibilidade; buscamos recursos tangíveis que impulsionem nossas iniciativas, permitindo que elas prosperem de forma sustentável e impactante.

SAIBA MAIS:  Para empreendedores que estão começando, especialmente aqueles que enfrentam barreiras semelhantes, quais conselhos você daria com base em suas experiências?

CARLOS AUGUSTO DA SILVA: Meu conselho é perseverar, encontrar força na crença pessoal e na resiliência, mesmo diante dos desafios. Embora reconheça que a sobrecarga não seja benéfica, compreendo que, no início, todo empreendedor precisa desenvolver um conhecimento generalista abrangente. Recomendo amplamente a troca de experiências com outros profissionais, a busca constante por aprendizado e aprofundamento em diferentes áreas.

O conhecimento é uma ferramenta poderosa, e quanto mais nos dedicamos a estudar, mais confiança adquirimos. Essa confiança é crucial para evitar questionamentos constantes e crises de impostor, especialmente em um cenário empreendedor desafiador. Apoiar-se psicologicamente diante das adversidades é essencial, pois empreender é uma jornada repleta de batalhas imprevisíveis.

Lutar diariamente, sem saber de onde vêm ou para onde irão as batalhas, é uma realidade inerente ao empreendedorismo. Portanto, reforço a importância de buscar auxílio e orientação junto a profissionais experientes no mercado, além de realizar pesquisas e estudos contínuos. Esses passos fundamentais não apenas fortalecem a base do empreendimento, mas também contribuem para uma trajetória mais embasada e bem-sucedida no cenário empresarial.

SAIBA MAIS:  Quais são os próximos passos para seu negócio? Há planos ou projetos futuros que você possa compartilhar conosco?

CARLOS AUGUSTO DA SILVA: Eu sou o CEO da agência de branding chamada Agência Kina, uma startup que encontrou sua primeira conquista significativa por meio da parceria com a Fábrica de Inventos. Consideramos essa colaboração como nosso MVP, originado a partir de uma ideia relacionada a oportunidades de negócios em um projeto cultural. Conseguimos extrair e identificar possibilidades rentáveis para além dos tradicionais editais de fomento à cultura. Após a Expo Favela, ampliamos nossa parceria, conectando a Fábrica a diversos artistas no Brasil, proporcionando não apenas crescimento financeiro para o projeto, mas também para todos os envolvidos.

Como uma agência de branding, um dos nossos principais serviços é dedicar-nos integralmente aos projetos, elevando seu nível e incentivando outros a fazerem o mesmo. Funcionamos como um organismo em que cada membro do grupo é capaz de representar e promover o projeto de maneira alinhada com a visão que estabelecemos. Em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), nossa colaboração com a Fábrica de Inventos visa atrair investidores, reconhecendo o valor significativo que o projeto possui para o Rio Grande do Norte, trazendo histórias autênticas dos moradores da Vila de Ponta Negra, como Antônio Gil Leal e Mestre Arraia, os fundadores do projeto.

A parceria entre a agência, eu e minha sócia, Duda, resultou em diversas oportunidades e acessos que anteriormente eram desafiadores devido ao nicho restrito do cinema e projetos culturais. Atualmente, buscamos transformar nossos clientes em parceiros, proporcionando dicas e acesso aos nossos cursos disponíveis no Hotmart. Esses cursos são direcionados a empreendedores que desejam ter autonomia em seus negócios, aprender a estruturar equipes, dialogar com designers, construir a jornada do cliente e abordar outros temas relacionados à programação e UX Design e, sobretudo, marketing digital.

Entendemos que todo empreendedor necessita de uma sólida estratégia de branding, e foi essa percepção que, em conjunto com nossos parceiros e sócios, transformamos em um negócio repleto de possibilidades. Valorizamos a autenticidade de cada pessoa e acreditamos que contar sua própria história é fundamental, e é isso que levamos e enaltecemos na Agência Kina.

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