Dossiê da UFRN reúne estudos sobre arquivos, arte e memória travesti
Natal, RN 14 de jun 2026

Dossiê da UFRN reúne estudos sobre arquivos, arte e memória travesti

12 de maio de 2026
6min
Dossiê da UFRN reúne estudos sobre arquivos, arte e memória travesti

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

As histórias de pessoas travestis no Brasil quase sempre atravessam apagamentos. Muitas vezes ausentes de arquivos institucionais, museus, livros e registros oficiais, essas memórias acabam preservadas em redes afetivas, movimentos sociais, produções artísticas e iniciativas comunitárias. É a partir dessa discussão que surge o dossiê “Memória e Travestilidades”, lançado pela Revista Equatorial, vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Organizado por Sol Alves de Lima, Maria Olisa de Oliveira Santos e Nora Dalva Arantes Lima, o dossiê recebe trabalhos até 1º de agosto de 2026 e reúne pesquisas sobre arquivos, patrimônio, arte, curadorias dissidentes, memória digital, epistemologias travestis e metodologias de pesquisa.

Mais do que um chamado acadêmico, a proposta nasce de trajetórias compartilhadas entre artistas, pesquisadoras, antropólogas, ativistas e pós-graduandas travestis.

“A ideia de criar este dossiê sobre memória e travestilidades surgiu a partir de trocas com amigas travestis que também são artistas, ativistas, antropólogas e pós-graduandas, reconhecendo no campo artístico e nos movimentos sociais espaços fundamentais de imaginação política, elaboração de memória e produção de novas possibilidades de existência”, afirma Sol Alves de Lima, em entrevista à Agência Saiba Mais.

Segundo ela, embora as pesquisas das organizadoras partam de territórios diferentes, todas compartilham o compromisso de reivindicar lugares de memória para travestis.

O projeto começou a tomar forma após encontros entre Sol e Nora Dalva Arantes Lima, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFMG, durante uma visita a Belo Horizonte, em 2024. Nora pesquisa temas como gênero, nome social, deslocamento, trabalho sexual, memória e travestilidades.

Já Maria Olisa de Oliveira Santos, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRN, investiga a trajetória de Chiquinha do Pedregal, travesti do interior de Aracati, no Ceará. Para Sol, o trabalho ajuda a deslocar perspectivas historicamente concentradas nos grandes centros urbanos.

“Seu trabalho evidencia a importância de pensar travestilidades a partir do interior”, explica.

As organizadoras também destacam o diálogo com antropólogas como Dediane Souza e Pietra Azevedo, além de pesquisadores que discutem memória, raça, gênero e colonialidade.

Saiba os detalhes da submissão aqui.

A própria pesquisa de Sol integra esse debate. Em sua dissertação, ela analisa ações desenvolvidas entre 2023 e 2024 no Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS/CE), especialmente o Ateliê de Criação de Tecnologias Transvestigêneres.

O objetivo é compreender como práticas artísticas e saberes travestis podem tensionar estruturas tradicionais dos museus e das instituições de memória.

“A proposta coletiva do dossiê está voltada à memória, às travestilidades e à criação de outras epistemologias e formas de representação”, afirma.

A discussão proposta pelo dossiê também questiona quem pode produzir conhecimento e quais narrativas historicamente ganharam legitimidade dentro da academia.

“A importância reside em trazer perspectivas que ultrapassem uma narrativa única, ampliando metodologias e modos de produzir conhecimento sobre e com travestis”, diz Sol.

Ela cita iniciativas como o Acervo LGBT+ Cintura Fina, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenado pelo pesquisador Luiz Morando, e o Museu Transgênero de História e Arte (MUTHA), organizado como museu digital coletivo.

Segundo as organizadoras, apesar das diferenças entre os projetos, existe um ponto em comum: revisitar narrativas históricas para construir outras formas de memória.

“Esses projetos compartilham um ponto central: revisitar o lastro histórico das narrativas representativas para contar novas histórias, partindo de um princípio fundamental a esse campo: compreender o corpo como lócus de conhecimento”, afirma.

O dossiê também propõe uma crítica às formas tradicionais de representação dentro da antropologia e das políticas de citação acadêmica. Sol menciona o antropólogo Don Kulick como exemplo de autor frequentemente tratado como cânone nos estudos sobre travestilidades.

“Não se trata de apagar contribuições anteriores, mas de tensionar seus limites, deslocar centralidades e ampliar horizontes epistemológicos”, afirma.

Ao discutir arquivos, arte e memória digital, as organizadoras tratam os arquivos não apenas como espaços de preservação, mas também de disputa política e simbólica.

Inspiradas em autores como Jacques Derrida e Aleida Assmann, elas defendem que toda memória envolve escolhas sobre o que será lembrado e o que será excluído.

“Nessas iniciativas, arquivos, arte e memória digital ajudam a preservar histórias que muitas vezes foram apagadas ao criar espaços de registro, visibilidade e circulação para experiências historicamente silenciadas”, diz Sol.

Ela cita projetos como o Museu da Pessoa e o Museu Pajubá como exemplos de “contra-arquivos” que desafiam memórias oficiais e ampliam quem pode narrar a própria história.

Outro aspecto destacado pelas organizadoras é a valorização de recortes territoriais frequentemente deixados à margem dos debates acadêmicos, como Norte, Nordeste e interiores do país.

“As pesquisas que buscamos reunir nesse dossiê partem da necessidade de pensarmos coletivamente as múltiplas perspectivas que atravessam os estudos sobre memória e travestilidades”, afirma.

Para Sol, embora existam avanços na universidade em debates sobre gênero, sexualidade e raça, ainda é necessário transformar as próprias formas de pensar conhecimento e arquivo.

“A academia pode funcionar como lugar de encontro, diálogo e articulação, mas não como centro exclusivo de validação dos saberes”, afirma.

Ela cita referências como Saidiya Hartman, Nêgo Bispo, Leda Maria Martins, Dediane Souza e Hilário Ferreira como autores importantes para pensar memórias “espiraladas, circulares e insurgentes”, rompendo com modelos coloniais e eurocentrados de produção do conhecimento.

As organizadoras também chamam atenção para o próprio significado político da existência do dossiê. Segundo elas, esta pode ser a primeira edição da Revista Equatorial organizada por três travestis.

“Mais do que um marco isolado, isso revela deslocamentos significativos nas formas como as travestilidades vêm ocupando lugares de autoria e elaboração intelectual”, afirma Sol.

Para ela, a presença travesti em espaços acadêmicos vai além da representatividade simbólica.

“Trata-se de reconhecer que nossa presença nesses espaços não é apenas simbólica, mas profundamente política, pois tensiona estruturas historicamente excludentes e amplia as possibilidades de quem pode produzir, legitimar e fazer circular conhecimento nesse país.”

SAIBA MAIS:
Filme potiguar celebra memória trans e travesti
Professora ganha prêmio LGBT por pesquisa desenvolvida no IFRN

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.