25 de fevereiro de 1984. Naquela noite, eu estava trabalhando como repórter na Rádio Trairi, fazendo a cobertura do desfile de carnaval, que ocorria na avenida Presidente Bandeira, no Alecrim.
Entre uma escola de samba e outra, passou o bloco Cordão do Puxa-Saco, com sua orquestra puxando os foliões. De lá, eles decidiram descer do Alecrim pela avenida 9 e seguir a pé em direção à Cidade Alta.
Já passava da meia noite e a cobertura do desfile se aproximava do fim. Eis que o estúdio da rádio recebeu um telefonema de Carlos Neto (Chico Querosene) e tudo parou… tudo mudou.
Querosene também seguia a pé, atrás do bloco Puxa Saco. Quando chegou na subida da avenida Rio Branco, ele se adiantou para comprar uma cerveja em um bar na esquina da rua Apodi quando ouviu o barulho.
Quando ele desceu a Rio Branco em direção ao Baldo testemunhou a tragédia e, ato reflexo, telefonou de um orelhão para a rádio.
A equipe inteira desmobilizou a transmissão do carnaval, na avenida Presidente Bandeira (Avenida 2) e correu para os estúdios da rádio, perto dali, na rua Dr. Luís Dutra, a antiga Avenida 1, no Alecrim.
Foi decidido que um repórter iria para o hospital Walfredo Gurgel, outro para o local do acidente, onde estava o bloco e eu fui escalado para ficar no estúdio.
O meu papel era exatamente dar a informação de que tinha acontecido um acidente, que as pessoas estavam sendo deslocadas para o hospital Walfredo Gurgel e iriam precisar de médicos.
Então comecei a convocar médicos e doadores de sangue para que se dirigissem ao hospital. Passei o resto da madrugada fazendo esse trabalho. Até hoje o professor Hugo Manso Junior lembra dessa transmissão.
Os rumos da cobertura foram decididos no calor da hora, como o fato exigia. Lembro de ter ido para casa pela manhã. Acompanhei a cobertura, a repercussão, o que tinha acontecido. Naquela transmissão, era impossível ficar impassível diante daquela situação.
Passei semanas impressionado com o drama das pessoas, de quem estava sendo atendido e da dor dos parentes e amigos dos que morreram.
A mim coube o trabalho não menos doloroso, menos cruel, de ver as pessoas mortas ou feridas. Eu não vi as vítimas, eu não vi os corpos, eu não vi a loucura do atendimento no hospital Walfredo Gurgel ou a dor das famílias naquele momento trágico.
Chega uma hora em que você vai ouvindo aquelas notícias ali e fica realmente tocado e emocionado. Eu não tinha muito o que dizer…. a não ser ficar falando, sozinho no estúdio, repassando informações e repetindo o apelo para que médicos e doadores comparecessem ao pronto-socorro para ajudar.
A cidade foi tomada por uma corrente de pranto e solidariedade que varou a madrugada. Médicos chegando ao Walfredo Gurgel vindo de todas as partes da cidade, doadores fazendo fila para ajudar.
Há um outro aspecto que conferiu tintas mais dramáticas esse acontecimento, o fato de que nesse bloco do Cordão do Puxa-saco iam muitos jovens da classe média alta da cidade, pessoas conhecidas da sociedade.
Tempos depois, deixei a emissora e fui trabalhar na recém criada Superintendência de Transportes Urbanos e, na medida em que aprendia mais sobre o funcionamento do sistema de ônibus da cidade, não tirava o acidente na cabeça.
Vale lembrar que, naquela época, a subida da chamada ladeira do Baldo era um desafio para todo motorista, sobretudo, os de ônibus lotados e veículos mais pesados, que precisavam embalar na descida da avenida da igreja de São Pedro para enfrentar a altura da ladeira da Rio Branco.
Eu não sei se pelas inúmeras camadas de asfalto aplicadas sobre o paralelepípedo tornaram a subida da avenida Rio Branco menos íngreme, mas hoje a sensação que se tem é a de que ela está bem menor do que era antigamente, à época do acidente.
Com a prisão do motorista que dirigia o ônibus lotado que atropelou músicos e foliões do Puxa-Saco, anunciada pela polícia há alguns dias, o filme da tragédia voltou junto com o debate sobre quem foi responsável pela tragédia.
O motorista não foi o único responsável por ela. Há muitas outras questões envolvidas, camadas de uma história que foram silenciadas ao longo dos anos e que precisam ser relembradas e reconsideradas agora que o caso volta à mídia.
Naquela hora da noite, dia de prévia de carnaval, a cidade vazia, ninguém esperava que ali fosse subindo um bloco, no meio da escuridão de uma avenida Rio Branco mal iluminada.
O motorista estava correndo porque precisava vencer a ladeira e tinha que deixar o pessoal da escola de samba nas Rocas e voltar para a garagem, depois do dia todo trabalhando.
Uma série de fatores combinados provocou aquela tragédia.
Até hoje essa história ainda é uma chaga aberta que nunca cicatrizará, pra quem viu e viveu aquele momento, que todos esperamos que nunca mais se repita.
(*) Ciro Pedroza era um jovem repórter da Rádio Trairy (Tropical e CBN Natal) naquela noite do acidente do Baldo.