Minhas tristes memórias daquela noite da tragédia do Baldo
Natal, RN 13 de jul 2026

Minhas tristes memórias daquela noite da tragédia do Baldo

13 de julho de 2026
5min
Minhas tristes memórias daquela noite da tragédia do Baldo

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25 de fevereiro de 1984. Naquela noite, eu estava trabalhando como repórter na Rádio Trairi, fazendo a cobertura do desfile de carnaval, que ocorria na avenida Presidente Bandeira, no Alecrim.

Entre uma escola de samba e outra, passou o bloco Cordão do Puxa-Saco, com sua orquestra puxando os foliões. De lá, eles decidiram descer do Alecrim pela avenida 9 e seguir a pé em direção à Cidade Alta.

Já passava da meia noite e a cobertura do desfile se aproximava do fim. Eis que o estúdio da rádio recebeu um telefonema de Carlos Neto (Chico Querosene) e tudo parou… tudo mudou.

Querosene também seguia a pé, atrás do bloco Puxa Saco. Quando chegou na subida da avenida Rio Branco, ele se adiantou para comprar uma cerveja em um bar na esquina da rua Apodi quando ouviu o barulho.

Quando ele desceu a Rio Branco em direção ao Baldo testemunhou a tragédia e, ato reflexo, telefonou de um orelhão para a rádio.

A equipe inteira desmobilizou a transmissão do carnaval, na avenida Presidente Bandeira (Avenida 2) e correu para os estúdios da rádio, perto dali, na rua Dr. Luís Dutra, a antiga Avenida 1, no Alecrim.

Foi decidido que um repórter iria para o hospital Walfredo Gurgel, outro para o local do acidente, onde estava o bloco e eu fui escalado para ficar no estúdio.

O meu papel era exatamente dar a informação de que tinha acontecido um acidente, que as pessoas estavam sendo deslocadas para o hospital Walfredo Gurgel e iriam precisar de médicos.

Então comecei a convocar médicos e doadores de sangue para que se dirigissem ao hospital. Passei o resto da madrugada fazendo esse trabalho. Até hoje o professor Hugo Manso Junior lembra dessa transmissão.

Os rumos da cobertura foram decididos no calor da hora, como o fato exigia. Lembro de ter ido para casa pela manhã. Acompanhei a cobertura, a repercussão, o que tinha acontecido. Naquela transmissão, era impossível ficar impassível diante daquela situação.

Passei semanas impressionado com o drama das pessoas, de quem estava sendo atendido e da dor dos parentes e amigos dos que morreram.

A mim coube o trabalho não menos doloroso, menos cruel, de ver as pessoas mortas ou feridas. Eu não vi as vítimas, eu não vi os corpos, eu não vi a loucura do atendimento no hospital Walfredo Gurgel ou a dor das famílias naquele momento trágico.

Chega uma hora em que você vai ouvindo aquelas notícias ali e fica realmente tocado e emocionado. Eu não tinha muito o que dizer…. a não ser ficar falando, sozinho no estúdio, repassando informações e repetindo o apelo para que médicos e doadores comparecessem ao pronto-socorro para ajudar.

A cidade foi tomada por uma corrente de pranto e solidariedade que varou a madrugada. Médicos chegando ao Walfredo Gurgel vindo de todas as partes da cidade, doadores fazendo fila para ajudar.

Há um outro aspecto que conferiu tintas mais dramáticas esse acontecimento, o fato de que nesse bloco do Cordão do Puxa-saco iam muitos jovens da classe média alta da cidade, pessoas conhecidas da sociedade.

Tempos depois, deixei a emissora e fui trabalhar na recém criada Superintendência de Transportes Urbanos e, na medida em que aprendia mais sobre o funcionamento do sistema de ônibus da cidade, não tirava o acidente na cabeça.

Vale lembrar que, naquela época, a subida da chamada ladeira do Baldo era um desafio para todo motorista, sobretudo, os de ônibus lotados e veículos mais pesados, que precisavam embalar na descida da avenida da igreja de São Pedro para enfrentar a altura da ladeira da Rio Branco.

Eu não sei se pelas inúmeras camadas de asfalto aplicadas sobre o paralelepípedo tornaram a subida da avenida Rio Branco menos íngreme, mas hoje a sensação que se tem é a de que ela está bem menor do que era antigamente, à época do acidente.

Com a prisão do motorista que dirigia o ônibus lotado que atropelou músicos e foliões do Puxa-Saco, anunciada pela polícia há alguns dias, o filme da tragédia voltou junto com o debate sobre quem foi responsável pela tragédia.

O motorista não foi o único responsável por ela. Há muitas outras questões envolvidas, camadas de uma história que foram silenciadas ao longo dos anos e que precisam ser relembradas e reconsideradas agora que o caso volta à mídia.

Naquela hora da noite, dia de prévia de carnaval, a cidade vazia, ninguém esperava que ali fosse subindo um bloco, no meio da escuridão de uma avenida Rio Branco mal iluminada.

O motorista estava correndo porque precisava vencer a ladeira e tinha que deixar o pessoal da escola de samba nas Rocas e voltar para a garagem, depois do dia todo trabalhando.

Uma série de fatores combinados provocou aquela tragédia.

Até hoje essa história ainda é uma chaga aberta que nunca cicatrizará, pra quem viu e viveu aquele momento, que todos esperamos que nunca mais se repita.

(*) Ciro Pedroza era um jovem repórter da Rádio Trairy (Tropical e CBN Natal) naquela noite do acidente do Baldo.

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