Ex-reitora da Ufersa nomeada por Bolsonaro trata laudo de plágio como perseguição
Após a divulgação do laudo pericial da Justiça Federal que confirma plágio em sua tese de doutorado, Ludimilla Oliveira, ex-reitora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), divulgou uma resposta pública em que questiona o andamento do processo e afirma ser alvo de perseguição política.
O documento pericial, produzido por duas peritas judiciais no processo movido pelo Ministério Público Federal (MPF), concluiu que a tese “apresenta falsa aparência de autoria e originalidade”, indicando a apropriação sistemática de trechos de outros trabalhos acadêmicos. Entre as estratégias identificadas estão cópias literais sem aspas, paráfrases com manutenção da estrutura original e colagens de parágrafos reorganizados. Segundo o laudo, o plágio não é pontual, mas compromete trechos centrais da fundamentação teórica, introdução e discussão do trabalho.
A reação da ex-reitora
Na resposta, Ludimilla afirma que “a Justiça Federal não decidiu absolutamente nada” e que o parecer amplamente divulgado é apenas parte do processo, ainda sujeito a contestação. Ela também argumenta que passou a ser acusada de plágio somente após ser nomeada reitora da Ufersa, em 2020, pelo então presidente Jair Bolsonaro.
“O que precisa ficar muito claro para a sociedade de um modo geral é que esta professora passou a ser acusada de plágio somente em 2020 após sua nomeação como reitora”, declarou.
A ex-reitora sustenta que, entre a defesa da tese em 2011 e sua nomeação, nunca houve questionamentos sobre sua produção acadêmica. Além disso, afirma que está sendo avaliada por normas que, segundo ela, não existiam à época da defesa do doutorado. Contudo, a proibição do plágio e as normas de integridade científica não nasceram depois de 2011. A Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98) já estava em vigor há mais de uma década.
Plágio é fato comprovado por perícia
Apesar da argumentação, o laudo técnico da Justiça Federal é categórico ao apontar que houve infração à legislação de direitos autorais e às normas de integridade científica. A prática foi considerada deliberada e com impacto na autenticidade do título.
Este não é o primeiro parecer que reforça a irregularidade. Em 2023, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) decidiu anular o título de doutorado após um processo administrativo que apontou que 44% das palavras da tese não foram escritas pela autora. Na ocasião, Ludimilla recorreu ao Judiciário, que suspendeu os efeitos administrativos até o trânsito em julgado do processo.
Nomeação e intervenção nas universidades
A crise envolvendo Ludimilla remonta ao contexto em que foi nomeada reitora da Ufersa, em agosto de 2020. No processo eleitoral interno, ela ficou em terceiro lugar na consulta à comunidade acadêmica, atrás de Rodrigo Codes e Jean Berg. Apesar disso, Jair Bolsonaro escolheu seu nome a partir da lista tríplice enviada ao MEC, repetindo um padrão adotado durante sua gestão: desconsiderar a vontade da comunidade universitária e nomear candidatos alinhados ao governo.
No mesmo período, o Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) também passou por intervenção semelhante, com a nomeação de um reitor pro tempore que não havia participado da consulta interna. Essas ações marcaram uma política de interferência do Executivo nas Instituições Federais de Ensino, gerando protestos de entidades acadêmicas e questionamentos sobre a autonomia universitária.
O que está em jogo
O laudo pericial da Justiça Federal fortalece a posição do MPF, que desde 2023 atua para responsabilizar a ex-reitora. O caso segue em tramitação, mas as conclusões técnicas sobre o plágio reforçam a gravidade da violação acadêmica.
Enquanto isso, a narrativa de perseguição política continua sendo utilizada por Ludimilla para justificar as acusações, em um debate que envolve não apenas a integridade científica, mas também a autonomia universitária e os efeitos das intervenções ocorridas no período Bolsonaro.
Enquanto Ludimilla apela para frases vagas como “a justiça dos homens vai dar a dela, mas a de Deus é quem vai acontecer”, a Justiça Federal já apresentou um documento técnico, assinado por peritas, que reconhece o plágio com “elevado grau de certeza técnica”.
Linha do tempo do caso
Setembro de 2020 – A Agência Saiba Mais publica reportagem revelando indícios de plágio na tese de doutorado de Ludimilla.
Junho de 2023 – A UFRN decide anular o título de doutorado de Ludimilla após conclusão de processo administrativo disciplinar, que apontou que 44% das palavras do trabalho não foram redigidas pela autora.
– A Justiça Federal do Rio Grande do Norte (JFRN) negou um pedido de liminar da reitora, que tentava derrubar a anulação do título de doutorado por plágio em tese apresentada na UFRN.
Julho de 2023 – O Ministério Público Federal (MPF) solicitou o afastamento de Ludimilla Carvalho Serafim de Oliveira do cargo de reitora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) por abuso de poder e intimidação.
– O juiz federal Fabrício Ponte de Araújo negou o pedido do Ministério Público Federal (MPF) de tutela cautelar de caráter antecedente de afastamento de Ludimilla Carvalho Serafim de Oliveira do cargo de reitora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) por abuso de poder e intimidação.
Agosto de 2023 – O desembargador Edvaldo Batista da Silva Júnior, do TRF5, em Recife, suspende a decisão da UFRN que cassava o título da ex-reitora e todos os atos administrativos decorrentes dela, até que o processo transite em julgado. A defesa de Ludimilla alegou prescrição administrativa e o direito à manutenção do título após cinco anos, mas em decisão anterior, na 1ª Vara da Justiça Federal no RN, o juiz havia negado pedido similar por entender que não cabia ao Judiciário anular decisões internas das universidades.
Agosto de 2025 – Laudo pericial da Justiça Federal confirma que a tese de doutorado contém plágio sistemático, reforçando a perda de autenticidade do título.
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