CULTURA

Janaína, a celebridade internacional made in Ceará que vira Ponta Negra do avesso

Imagine Madonna bebendo água de coco ao pé do Morro do Careca. Ou Elton Jonh tomando sol deitado na esteira de uma barraca qualquer da praia. Já pensou nos músicos da banda Scorpions comendo carangueijo sentados na areia ? E os vovôs do Dire Straits caminhando no calçadão entre ambulantes e hippies vendendo miçangas ?

É difícil imaginar essa turma ali de corpo presente, mas todos eles e outras dezenas de artistas gringos já deram o ar da graça na praia mais internacional de Natal. Tudo isso graças a graça de Janaína, a Dj camelô que virou celebridade nas areias de Ponta Negra e há quase duas décadas ganha a vida vendendo música e incorporando o inglês ao idioma nativo da cidade do sol.

Empurrando um carrinho de madeira com motor de caminhão, Janaína é uma atração à parte de domingo a domingo, faça chuva ou sol, em Black Point Beach. Além dos pen drives com aproximadamente 5 mil músicas internacionais, ela também oferece os serviços de Dj para os clientes que pagarem R$ 20 por cada meia hora de exclusividade.

O repertório é escolhido por ela e nem pagando Janaína muda o estilo da música. Na play list só toca música de artistas estrangeiros:

– Eu não gosto de música brasileira”, pontua sem se incomodar com críticas.

Após dizer que não sabe ler, pergunto como começou o interesse por músicas internacionais, já que também não sabe o significado das letras. A resposta vem na lata e em tom de desafio:

– Você que imagina que eu não sei o significado das músicas que eu coloco para tocar. Faço você chorar aqui, quer ver ? A música é tudo nessa vida, é tudo pra mim”, diz, aumentando o volume do clássico Take My Breathe Away, tema do filme Top Gun, mas sem conseguir arrancar uma lágrima do repórter.

No carrinho o desfile das canções diverte turistas de Natal, de outros estados e até países. Os banhistas pagam também pela performance. Janaína sai de casa na Vila de Ponta Negra, todos os dias, com peruca colorida, vestido curto e peito postiço. No percurso da areia ela dança, provoca, é provocada e faz rir, sempre deixando claro que a zorra é um trabalho.

Janaína é uma atração à parte em Ponta Negra e diverte turistas brasileiros e estrangeiros / foto: Rafael Duarte

Janaína diz que vende, em média, 25 pen drives por dia, que variam entre R$ 45 e R$ 50. As despesas são altas. Cada unidade sai a R$ 35, adquirido do mesmo fornecedor que empresta o carrinho já com o som acoplado. Ela ainda paga R$ 1 para que um amigo baixe e transfira as músicas para cada pen drive.

– Tudo o que eu tenho na vida está aqui”, diz apontando para o som antes de explicar como passou pelas transformações das plataformas da indústria da música:

– Na época do CD dava para ganhar mais, mas muita gente compra o pen drive ainda, dá para sobreviver”, diz.

Janaína é famosa e virou uma espécie de ponto turístico ambulante na praia. O que pouca gente sabe é o que e quem está por trás da personagem, uma mistura de camelô e artista.

Até chegar e se estabelecer em Natal desde 2003, o criador de Janaína enfrentou traumas pessoais, tragédias, mas manteve o foco e nunca perdeu a disposição para o trabalho.

“Em terra de cego quem tem um olho é rei”, diz artista que perdeu visão em acidente de trabalho

Francisco José Conrado Monteiro criou a personagem Janaína e ganha a vida em Ponta Negra / foto: Alana Tamires

Francisco José Conrado Monteiro tem 49 anos e nasceu na praia de Beberibe, no litoral Norte do Ceará. Filho de um agricultor e de uma dona de casa, tem outros 12 irmãos. Com a seca castigando o Ceará nos anos 1970, entrou num ônibus de linha com a família e foi parar em Santos, litoral paulista. Lá, o pai começou a trabalhar como rebocador no porto “botando os navios para dentro”, conta. Dona Amélia, a mãe, seguiu em casa enquanto ele e os irmãos foram atrás de emprego na feira. Parte da prole se estabeleceu na barraca de um português boa praça – seis passaram mais tarde a comprar e vender terrenos – e Francisco optou por vender queijo assado na praia para ganhar uns trocados.

Ele mesmo fabricava o instrumento de trabalho, adaptando uma panela de pressão velha na latinha servia para assar a comida em brasa.

É nesse período em Santos, em meados dos anos 1980, que uma tragédia pessoal abate Francisco. Ele se preparava para entregar o queijo assado a uma cliente na praia quando um ferro ponteagudo do guarda-sol se soltou com o vento e entrou no olho direito dele. Levado para o hospital, não conseguiu recuperar a visão.

– Perdi a vista na hora. Mas em terra de cego quem tem um olho é rei. O cara já é pobre, tem que esperar tudo, né ?”, diz resignado.

Em Trancoso (BA), encontro com Elba Ramalho e Paloma

Francisco Monteiro, a Janaína, perdeu a visão em um acidente de trabalho em Santos / foto: Alana Tamires

Francisco não sabe ler, mas enxergou na música uma tábua de salvação. Após a morte da mãe, em 1982, um trauma maior que a perda da visão, decidiu pegar o pouco que tinha e ganhar o mundo. Chegou em Trancoso, no litoral da Bahia, e logo se enturmou no Quadrado, centro histórico da praia turística que conta hoje com 10 mil habitantes. A Bahia muda a vida de Francisco. Ali ele também começa vendendo queijo na praia, mas como a concorrência era maior dá início a uma transformação para ser mais notado que os colegas:

– Eu pensei que se eu me vestisse de mulher dava para vender mais queijo que os outros. E eu me soltava mais também. Eu sou tímido, mas não sou gay. E o nome da personagem em Trancoso era Paloma”, conta.

A estratégia deu certo, as vendas aumentaram, mas a temporada de 16 anos em Trancoso não foi marcada só pelo nascimento de Paloma. Como a cidade era muito pequena e na época praticamente todo mundo se conhecia, Francisco conseguiu se fazer perceber por uma artista que também era dona de uma das principais casas de shows da area: Elba Ramalho.

– Eu vendia os ingressos dos shows dela na rua e também vendia os discos. Elba passava cada CD por R$ 10 e eu vendia por R$ 50 porque ainda conseguia com os autógrafos. Elba era maravilhosa, comia do meu prato. Ela e Caetano, um namorado fortão que ela tinha, sempre me davam os ingressos e os discos. Ali conheci Chico César, Zeca Baleiro, Lenine…”.

Francisco não dá detalhes do motivo pelo qual deixou Trancoso. Só diz que “sempre tem o momento certo para ir embora”. Ainda voltou a Santos, mas não passou mais que cinco dias, afirma. A ideia era voltar para Beberibe, mas resolveu conhecer Natal e daqui nunca mais saiu.

No início da entrevista, quando perguntei sobre a história dele, Francisco começou citando a morte da mãe, no início dos anos 1980. Volto no tema mais duas vezes. Na última, peço informações a convivência com dona Amélia, mas ele pede para mudar o assunto:

– Pula essa parte, não gosto de falar dela”, diz num dos raros momentos que não sorri durante a entrevista.

Assim que chegou a Natal, Francisco alugou uma casa na Vila de Ponta Negra. E começou vendendo os mesmos queijos assados que o ajudaram a se manter em Santos e em Trancoso. Paloma ficou para trás no litoral baiano e, poucas semanas depois, Ponta Negra era apresentada a Janaína, fruto de uma desilusão amorosa que marcaria para sempre a vida de Francisco.

 – Janaína era uma namorada que eu tinha. Morei com ela, mas não deu certo. É assim mesmo”.

Ex-sogra também faz parte da vida de Francisco e Janaína / foto: Rafael Duarte

Além do nome da ex que Francisco leva todos os dias para a praia, Janaína também está tatuada no antebraço do artista. Outra mulher que está sempre ali à vista de todos é de Neide, ex-sogra e mãe de Janaína. No carrinho que funciona como auto-falante lê-se “Dona Neide Amor Eterno”.

 – Também foi uma mulher muito importante para mim”, limita-se a contar.

Outro nome no carrinho que chama a atenção é o do apresentador Ciro Robson, conhecido como Papinha. O comunicador ajudou o comerciante a mobiliar a casa e, de vez em quando, contribuiu financeiramente com ele:

– Papinha me deu televisão, cama e sempre quando me vê me dá R$ 50, R$ 100 e não gosta de falar que ajuda, pede até pra não aparecer. É um jornalista gente boa”, diz.

Francisco e Janaína parecem ter sido feitos um para o outro. Os dois se sentem à vontade falando de si mesmos. Lá na pequena Beberibe, o menino que sonhava ser policial quando se tornasse gente grande nem imaginava que sairia vendendo queijo pelo país e um dia acabaria virando artista na praia tocando música estrangeira:

– O que me faz estar vestido de mulher é a precisão. Eu não sei roubar, não sei vender droga, por isso criei a Janaína. Cheguei aqui vendendo queijo e tenho a arte de vender. Eu sempre sonhei em sair pelo mundo. A vida me fez virar isso aqui e agradeço à música por tudo”, concluiu.

 

 

 

 

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"