OPINIÃO

O Moro-Bolsonarismo virou uma torcida de futebol; fanatismo e irracionalidade

Que a política inspira paixões, é sabido. Dos oradores gregos que encantavam multidões, ao carisma de Getúlio Vargas, passando pelos discursos de horas e horas de Fidel Castro, agentes políticos despertam amor e, consequentemente, ódio. Faz parte do jogo, para o bem e para o mal.

Mas, é possível separar, cirurgicamente, paixão política por um líder com base em algo sólido que ele tenha feito ou que represente, de um mecanismo de ódio artificialmente criado e que navega em uma circunstância histórica específica?

Bem, bisturi à mão, vamos tentar separar, e o leitor e leitora já devem estar sabendo qual caminho este texto pretende tomar.

A polarização Esquerda-Direita é uma tradição do mundo político Ocidental. É uma tônica das eleições em países europeus e nos EUA e, de certa maneira, vinha sendo construído em uma democracia tão frágil como a nossa, após o Regime Militar e a famigerada eleição de Collor, com os embates PT x PSDB (este representando um Centro-Direita).

Neste diapasão, a Esquerda viu surgir e consolidar a liderança – inconteste e internacionalizada, inclusive – de Lula, mesmo com os tropeços do PT. Já a Direita não apresentou lideranças que despertassem paixões, coisa que os tucanos FHC (mesmo presidente eleito e reeleito em primeiro  turno), Serra e Alckmin jamais passaram perto de despertar e que outras lideranças não conseguiram a não ser regionalmente (um Maluf em SP, Esperidão Amim em Santa Catarina, entre outros).

A traumática eleição de 2014 (Dilma x Aécio) e o Golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016 conseguiram resultados inesperados: Consolidar a liderança de Lula (posteriormente preso, e mantendo a liderança e carisma) e impulsionar sentimentos de Extrema-Direita no país. Que, evidentemente, catalizaram em Jair Bolsonaro, capitão expulso do Expercito e parlamentar medíocre mas que falava tudo que uma parcela da população queria ouvir, contra mulheres, feministas, população LGBT, negros e esquerdistas.

Uma série de fatores (antipetismo, a polêmica facada, indústria d efake news, acomodação do STF, etc) fez com que o capitão limitado com ares de “tiozão reaça” fosse alçado a… líder. Com denominação de “mito”, inclusive.

Paralelamente ao crescimento de Bolsonaro, outro ídolo era fabricado, este, com apoio e fascínio da mídia; Sérgio Moro. Um juiz de primeira instância, sem nenhum conhecimento jurídico diferenciado ou brilhantismo, de poucas palavras (hoje sabemos porquê) mas que conseguiu encarnar o espírito de “combate à corrupção” e, mais que isso, prender o corrupto-mor, segundo a narrativa que estava sendo criada: Lula.

De um lado o ex-militar que catalisava os preconceitos e rancores de parte da população (que gravita entre 10% e 30% em situações normais), em análise minha, de outro lado o juiz que conseguiu prender o ex-presidente esquerdista e ladrão (segundo a narrativa da Direita).

Até que os destinos da dupla se encontraram. Vitorioso, Bolsonaro convidou Moro, justamente quem havia prendido o líder das pesquisas e que teria condições de vencer “o mito”, para Ministro da Justiça. Mas, isso é conhecido e comentado.

A questão é que a narrativa ao longo dos anos da maneira que foi feita, criou para Bolsonaro, não militantes políticos, ou apoiadores, mas, torcedores. Uma torcida que se uniu a de Moro, formada por pessoas que tinham ou tem horror à política e aos “políticos corruptos”.

Uma torcida que segue os padrões da torcida de futebol. Forjada e mantida pela paixão irracional, desconexão da realidade e desprezo pelas regras do jogo e instituições.

Já tentou ouvir uma discussão entre um torcedor do Sport e um do Flamengo sobre quem é o real campeão brasileiro de 1987? Já experimentou avisar a um torcedor que comemora o gol do seu time que o jogador estava impedido ao fazer o gol? Já viu a reação de um torcedor quando o craque do seu time é flagrado fingindo uma falta para fazer o juiz expulsar o jogador adversário?

Pois é. Para o torcedor de futebol, não importa se estava impedido, se o gol foi de mão, se o juiz foi comprado. Vencer é o importante, não regras ou instituições.

Apoiadores de Moro e Bolsonaro se portam desta maneira atualmente. Desprezam a política e acreditam piamente que ministro e presidente não fazem política, ao contrários “dos outros”.

São pessoas que pregam meritocracia, mas, não se importam do filho do presidente ser embaixador nos EUA tendo fritar hamburguer e ter feito intercâmbio como qualificação. Não se importam também com as mensagens e áudios divulgados pelo The Intercept Brasil e parceiros. Para eles o que importa é “ter impedido a vitória do PT e prender Lula”.

Para se ter ideia, há poucos dias o governador do maior estado do Brasil, João Dória, de São Paulo, relevou as denúncias envolvendo Moro argumentando que “foi para combater a corrupção”. Dória, sabemos, de torcedor apaixonado não tem nada, está mais para “cartola” maquiavélico, mas, o exemplo é didático. Ilustra como o debate político real está enfraquecido no país. os argumentos são rasos como os usados em discussões de futebol.

Desta forma, percebemos que a idolatria que Moro e Bolsonaro despertam, embora real, não se sustenta em uma realidade, em um projeto político ou realizações feitas, mas, sim em projeções. Pessoas que colocaram na cabeça que Moro é o ilibado cruzado contra os corruptos e que Bolsonaro é a nova política que vai acabar com “isso daí”, ou seja, a “velha política”. Nem mesmo fatos despejados aos montes conseguem – a preço de hoje – mudar a ideia que esse pessoal tem de seus ídolos.

Em parte porque esses ídolos encarnam os ódios e preconceitos nutridos por parte da sociedade que não tem como exerce-las, a não ser em redes sociais.

Em parte também porque, como já dito, não se trata de política, mas de empatia pessoal, paixão mesmo. E com paixão não se brinca, não se discute,

Lembremos que Collor entre 1989 e 1990 conseguiu, embora sem despertar tanta paixão, também agregar a si os valores de “caçador de marajás/corruptos” e “nova política”. Depois, deu no que deu. As circunstâncias são bem diferentes e a dinâmica dos envolvidos idem, mas, fica o registro. Outro suposto ídolo que caiu foi Aécio Neves, mas também não insuflou paixões. Possivelmente a maior paixão desse pessoal seja o antipetismo. Mas, aí é tema para um outro texto.

 

 

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