OPINIÃO

Ele voltou

Em 2015 estreou na Alemanha o filme “Ele voltou”, dirigido por David Wnendt; baseado em um romance de Timur Vermes. A obra conta a fantástica história de um retorno de Hitler a Alemanha do século XXI. Filmado em um formato que lembra um documentário de TV, o filme mistura ficção com entrevistas e cenas reais, exibindo os impactos que um possível retorno do líder nazista traria na Alemanha moderna.

O que mais espanta no filme é a reação de muitas pessoas a presença do ator que incorpora Hitler. Diante de um personagem que encarna não só a figura típica do líder nazista, com seu bigodinho e sua farda militar, mas também o seu discurso voificerante e contundente, tal qual um pai histérico a gritar por ordem e disciplina, muitos contemporâneos do século das redes sociais, gravam vídeos, tiram selfs e postam comentários na internet como se tivessem diante de um desses artistas de rua que ornamentam, com suas figuras caricaturais, os parques turísticos mundo a fora. O pior… muitos alemães parecem encontrar, hoje, sentido nos conteúdos políticos e no discurso do personagem que acorda 70 anos depois, em meio a fumaça que emergiu nos jardins da chancelaria, quando o corpo do líder do Reich de mil anos foi queimado em 30 de Abril de 1945.

Existem quatro linhas básicas da historiografia para se interpretar a figura de Hitler: 1. Ele seria alguém movido pelo ódio puro e simples contra “os judeus”; 2. Ele seria um charlatão manipulador das massas que fingiria odiar “os judeus” para implementar seu projeto político; 3. Ele era um sujeito que foi convencido de que “os judeus” teriam sido responsáveis pela derrota militar de 1918 e a posterior humilhação da Alemanha e por isso precisavam ser punidos; 4. Ele era um gênio maligno, uma força monstruosa que buscaria reduzir a condição humana “dos judeus” para então os matar pelo simples impulso de morte.

O que essas explicações não apontam é que todas podem estar paradoxalmente corretas ao mesmo tempo e nenhuma chegar ao ponto central para se entender a natureza ideológica do nazismo.

Para se entender o retorno de Hitler no século XXI, precisamos nos perguntar não “quem seria o Hitler do século XXI?” mas sim “quem seriam os judeus no mundo atual?”

Na verdade existem muitas maneiras de se entender o nazismo. Algumas delas, como a tese de Ludwig Von Mises em “Intervencionismo: uma análise econômica” (1940) e “As seis lições” (1979), tem a consistência filosófica de um caldo de cebola. Outras, como a de Hannah Arendt em “As origens do totalitarismo” (1951) são tão agudas do ponto de vista da sofisticação conceitual que criam categorias de pensamento dificilmente superáveis sem um esforço filosófico muito consistente.

Mesmo que, qualquer aluno de graduação com o mínimo de aparato técnico em filosofia política, consiga perceber na bucha o abismo qualitativo envolvendo a interpretação de Arendt das teses dos expoentes da tal “escola austríaca”, não podemos deixar de reconhecer a utilidade ideológica de concepções como as de Mises ou de “anarco-capitalistas” (SIC) como Murray Rothbard. A ideia de um “nazismo de esquerda” nasce desse tipo de leitura filosoficamente simplória que põe ênfase numa suposta dicotomia “Estado-mercado” e “Coletivo-indivíduo” e que acaba servindo, entre outras coisas, para que a extrema direita possa se apropriar de conceitos nazistas, usar tropos retóricos nazistas, divulgar mitologia nazista, e colocar no debate público ideias nazistas, sem que possam ser acusados de… nazistas.

Afinal, o nazismo, como diz o chanceler brasileiro Ernesto Araújo (aquele que fala grego koiné) é “de esquerda”.

Para sair dessa armadilha vale a pena, antes de buscar tocar na questão fundamental de como o totalitarismo de direita renasce das cinzas em plena crise da democracia liberal no século XXI, pegar a nossa máquina do tempo, e dar uma passadinha rápida na Alemanha do começo dos anos vinte para, entre um caneco de cerveja e outro, ouvirmos o que se confabulava por entre as mesas de madeira de alguma cervejaria de Munique.

Se a gente tiver sorte, e conseguirmos embarcar nessa mesma máquina do tempo que trouxe Hitler de seu bunker até a Berlin de 2014, talvez pudéssemos chegar numa noite fria de inverno e presenciar uma reunião da “Sociedade Thule”, capitaneada pelo poeta e dramaturgo alemão Dietrich Eckhardt, editor do periódico “Auf gut Deutsch” (“Em bom alemão”), uma espécie de “morning show da jovem pan” em caracteres góticos, que circulava no período entre guerras.

Eckhardt era um sujeito que adorava álcool e mitologia. Se interessava por teses estranhas que iam da astrologia medieval, a práticas ocultistas que se popularizaram pela Europa com a reação romântica ao iluminismo no fim do século XVIII. Eliphas Levi, Papus, Paracelso eram alguns de seus autores prediletos junto às mais novas teses sobre avanços da biologia e do evolucionismo, que impulsionavam o ambiente intelectual europeu na virada do século XIX para o XX. Nesse caldeirão em que se misturava cerveja de trigo, Järgmeister, ocultismo, astrologia e teses sobre a decadência do ocidente, Eckhardt explorou a teoria de que os alemães eram descendentes dos atlantes e que por isso tinham como destino atuar como a grande força civilizadora da humanidade e defender a herança cultural do ocidente de seus inimigos, que minavam internamente o vigor da raça ariana através, tanto do liberalismo anglo-americano como do comunismo bolchevique, ambos supostamente expressões do judaísmo decadente que ameaçava a herança cultural ocidental.

O que Eckhardt buscava, em seus discursos e suas reuniões nas cervejarias de Munique, com seu punhado de seguidores, não era apenas divulgar suas teorias malucas que misturavam ocultismo, misticismo, filosofia barata e política. Seu projeto era mais ambicioso. Seu esforço era o de introduzir uma nova mitologia política no meio da classe operaria alemã para afastá-la da influência dos sociais democratas e dos comunistas.

Em diversos escritos e discursos da sociedade Thule, Eckhadrt pronunciava a necessidade de se buscar um “messias”, um líder militar para despertar o povo alemão com o lema Deutschland erwache! (Acorda Alemanha!).

Ele não tinha ideia de que seria um agente infiltrado da polícia da bávara, instruído a acompanhar as reuniões da sociedade Thule nessas cervejarias e fazer relatórios para a autoridade policial, que iria incorporar o papel de “messias”.

Hitler encontrou-se por acaso com seu guru filosófico, mas se encaixou perfeitamente nos sonhos de Eckhardt. Era um militar de baixa patente, um cabo, educado longe da elite metropolitana e da aristocracia alemã, que tinha sua origem próxima do povo e que, motivado por um furor e uma possessão quase mediúnica, começou a se enxergar como um messias ungido, dotado de poderes quase divinos, destinado a guiar o povo alemão rumo a sua restauração.

Em 1922 o grupo que emergiu daquelas cervejarias, agora já transformado em “partido nacional socialista dos trabalhadores alemães”, munido de armamento contrabandeado por Erst Röhm, também militar de baixa patente que articulava milícias paramilitares para os nazistas, tentou fazer uma quartelada para tomar o poder a força. No golpe frustrado, dizem os biógrafos, que uma bala teria passado a 30 cm de Hitler. Se o projétil tivesse se deslocado mais para a esquerda, e atingido o abdómem do líder nazista, talvez, a história da Alemanha e do mundo tivesse sido diferente.

Talvez…

A questão é que, não apenas de “hitlers” se fazem os totalitarismos de direita. São necessárias ideias, conceitos, palavras, imagens e também que se criem “os judeus”. E quem são eles?

A resposta mais simples é: qualquer grupo humano que possa ser identificado, separado, e usado para unificar culpa pelos males do mundo e catalisar o ressentimento que habita o coração dos povos em tempos de crise. O comunista, o subversivo, o gay, o vagabundo, o muçulmano, o esquerdista, o ateu, o inimigo do povo. São muitas as nomenclaturas do judeu, que é sempre: o outro.

Aquele que não faz parte. Aquele que não merece estar junto. Aquele que não tem lugar. Um sujeito desprovido de humanidade que pode ser sacrificado em prol de uma redenção qualquer que vá criar um novo mundo, e uma nova ordem.

Aqui aparece uma diferença essencial entre o totalitarismo de esquerda e o totalitarismo de direita: o tratamento nazista gera um sujeito desprovido de humanidade, um sujeito reduzido ao nada, que pode ser descartado, eliminado sem que isso gere nenhum tipo de sentimento moral de culpa. No caso do stalinismo o terror gera um sujeito que confessa algo sobre sua própria natureza, mesmo que isso seja um invenção. O prisioneiro do Gulag ou dos campos de reeducação maoístas é “um algo” pervertido, que precisa ser corrigido e que no processo de “reeducação” pode inclusive ser eliminado. O prisioneiro do campo de concentração nazista é “um nada” desprovido de sua humanidade, submetido a uma lógica industrial cujo único objetivo é a morte e o descarte (qualquer semelhança com o modo como parte da sociedade brasileira encara os encarcerados no sistema prisional não é mera coincidência).

É por isso que precisamos ligar o sinal de alerta, sempre que alguém veste as fantasias de Hitler, Himmler ou Gobbels para instigar um discurso grandiloquente de redenção e purgação do mal.

Sim, amigo velho. Ele realmente voltou, mas não aparece entre nós como no filme de Wnendt. Ele circula no século XXI com uma nova roupagem, usando os velhos chavões nacionalistas e racistas em outros contextos. Ele lacra nas redes sociais dizendo aquilo que ninguém diz, fazendo aquilo que ninguém faz. Ele usa outras roupagens e argumentos, de modo que os mesmos delírios totalitários do passado possam ser usados sem que a figura comprometedora de um “Hitler” ou de um “Holocausto” venha causar embaraços morais aos novos adeptos de uma velha ideologia, travestida de novidade.

O golpe de 1922 levou Hitler a prisão.

Ele aprendeu com a quartelada fracassada que não poderia seguir o mesmo modelo usado por Lênin na Rússia. Precisaria primeiro ser eleito democraticamente para depois assumir o poder total e daí criar o seu próprio mundo. Um mundo inteiramente fictício, completamente ordenado, absolutamente coerente, capaz de competir com o mundo real, que tem a desconcertante desvantagem de não ser lógico o suficiente para dar sustentação a nossos delírios.

Dietrich Eckhardt, por sua vez, não viu a ascensão de Hitler ao poder. Consumido pelo álcool, ele morreu seis semanas após o golpe fracassado de 1922. No seu leito de morte ele teria dito: “Sigam Hitler. Ele dançará, mas fui eu que escolhi a música”.

Fiquem espertos, a música que esse povo toca começa animada, mas sempre termina em uma longa e lenta marcha fúnebre.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.