O (des)governo é um pupurri de emoções
Natal, RN 16 de jun 2024

O (des)governo é um pupurri de emoções

2 de março de 2020
O (des)governo é um pupurri de emoções

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Pela terceira semana seguida eu estava com ideia definida e texto quase pronto para esta minha coluna no portal da agência Saiba Mais quando uma novidade do (des)governo surge em pleno domingão e me obriga a descartar a ideia original para abordar o fato imediato (Na semana passada foi em pleno domingo de Carnaval Bolsonaro disparando vídeo que pedia fechamento do Congresso e do STF, que substituiu o texto que eu estava fazendo sobre política potiguar).

Que o (des)governo Bolsonaro assim que assumiu era racista, homofóbico, machista, terra planista, anticiência, antieducação, grosseiro, totalitário, já sabíamos. O que não sabíamos era que ele seria tudo isso vários pontos acima do imaginado. Nem que também conseguiria piorar tantos os índices econômicos e de desemprego. Também não sabíamos, embora desconfiássemos, que esse pessoal produziria tantas suspeitas, confusões, mal entendidos e conflitos. É praticamente uma por semana. Que vão de crises políticas a tuítes insanos de Carluxo, de lives sem noção a bananas para jornalistas.

Enfim, um pupurri de emoções, como dizem. Não necessariamente boas. A deste domingo envolveu a primeira dama Michelle Bolsonaro, que teria um caso extra-conjugal com o ex-ministro Osmar Terra, e uma hastag que ficou horas liderando os trending topics do Twitter no Brasil: #BolsonaroCorno

Grosseria e leviandades a parte, analisemos o caso: tudo começou com nota na coluna de Germano Oliveira, diretor de redação da IstoÉ (ou seja, assinada e em um veículo de peso e usualmente de Direita), Depois os blogs de Esquerda Diário do Centro do Mundo e Revista Fórum produziram matérias sobre a repercussão do caso, até então apenas no Twitter. A partir daí, como é de praxe nas redes e grupos de Zap, a coisa ganhou dimensão maior e saiu de controle.

Há muito a se falar sobre o caso. Primeiro, que até agora não passa de uma "fanfic" (ficção criada por diversão na net e divulgada não como se fosse verdade - aí seria fake news - mas justamente com o intuito de zoar) já que nada evidencia o tal caso entre a a primeira dama e o ex-ministro. Segundo que, ainda que a história seja real, a vida particular das pessoas é sagrada e inviolável, é necessário separar o público do privado.

Mas, em terceiro lugar, também é necessário entender o contexto. O bolsonarismo foi eleito e vive desde a posse justamente de agressões nas redes, fake news disseminadas em escala industrial e ataques á vida pessoal alheia. Está pagando na mesma moeda, ou colhendo o que plantou, segundo muita gente.

Outro raciocínio - válido - diz respeito ao machismo estrutural contra Michelle. Não faltaram adjetivos agressivos em relação a ela. Por outro lado, percebo também muitas mulheres (inclusive feministas) compartilhando as notícias e memes sobre o caso. Sinal, portanto, que o rancor contra o casal Bolsonaro fala mais alto do que a empatia por Michelle ser mulher? Talvez.

Mais um raciocínio: Pela primeira vez vimos efetivamente o bolsonarismo ser confrontado nas redes sociais de maneira efetiva e ampla, na verdade, usando dos mesmos truques que a Direita sempre usou nos últimos anos: Uma hastag bem sacada, uma história não necessariamente verdadeira e, principalmente, a massificação desassociada de amarras ideológicas: Não foi a Esquerda quem pegou no pé de Bolsonaro, mas os "trolls" de redes sociais. Ou seja, houve um confronto com a figura de Bolsonaro, mas que não partiu ou foi orquestrado pela Esquerda e nem de maneira programada. Talvez por isso tenha dado tão certo no sentido de amplitude.

Na verdade, salvo algo inesperado, como um impulso do emocionalmente instável Bolsonaro ou alguma indiscrição de alguém próximo, o fato mal deve passar deste domingo e mais uns dias gerando memes e piadas.

Mas, mostra duas coisas: Primeiro, que é possível confrontar o bolsonarismo no próprio terreno dele, embora haja, infelizmente, um preço ético a pagar por isso. Debate longo, portanto. Segundo, que o (des)governo, até quando nenhum deles fala nem age de maneira tresloucada, sempre enseja alguma confusão. Seja cortina de fumaça ou não. Enfim, sempre um pupurri de emoções.

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