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27 de julho de 2020
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A ideia de “progresso da humanidade” já reuniu mais crentes em torno de si. Mas, vá lá, admitindo esse progresso, os seus frutos têm sido partilhados de forma profundamente desigual. Há quem entenda que uma parte desse largo verbete do progresso é o crescimento econômico, é o crescimento do PIB dos países. Numa manhã de sol de domingo, simpáticos a muitas concessões, se também admitimos essa categoria mais problemática do “progresso como crescimento econômico”, então estamos a falar da vertente do progresso cujos resultados têm experimentado a pior das divisões: uma pequena parte da população mundial, quase sozinha, se apropria da totalidade das novas rendas e riquezas.

Nos Estados Unidos os 10% mais ricos da população já detinham mais de 76% das riquezas do país em 2013. A repugnância dessa iniquidade, para que não se torne um elemento de ruptura social, reivindica uma narrativa para que a maioria contemporize com o benefício da minoria. Não uma, apenas, é necessário um menu de justificativas para que as coisas continuem como estão. Foi em muitas destas alegações que mergulhou Anand Giridharadas, jornalista e escritor americano de quem foi lançado ano passado por aqui “Os Vencedores Levam Tudo”, pela Alta Books, livro editado no mercado americano no ano anterior.

Uma publicidade involuntária da pesquisa de Giridharadas foi pilotada por Jeff Bezos, dono da Amazon.com Inc., a gigante do e-commerce. Em setembro de 2018 ele anunciou que estava doando dois bilhões de dólares para financiar uma rede de pré-escolas, sem fins lucrativos, com o propósito de beneficiar a população carente americana. O episódio deu margem a uma revoada de críticas. É que tinha tomado corpo no debate público justamente o fato de que o lucro da Amazon era produzido a partir de salários módicos, que mal permitiam aos empregados alugar um imóvel, obrigando a vários dos seus quadros viverem em tendas. Além das condições inóspitas do trabalho em si, onde os empregados temem adoecer ou mesmo ir ao banheiro, receando se prejudicar junto à administração da empresa.

A filantropia ostentatória se prestando ao papel de dissimular práticas reprováveis dos bilionários nos negócios e na política, é apenas uma parte modesta do ensaio. A investigação de Giridharadas avança sobre a análise de uma largueza de condutas, de discursos e de estratégias que constituem um pesado arsenal ideológico a serviço das elites na manutenção das várias desigualdades.

Ele relata que frequenta pomposos eventos que procuram definir espaços de evidenciação de ações positivas de bilionários, tópicos e projetos que não questionam o status quo ou que trazem à pauta os problemas estruturais. Nada que lembre os paraísos fiscais onde os grandes grupos estão sediados e como esse deliberado empobrecimento do Estado está relacionado com a falta de escolas e creches, programas de habitação e outras iniciativas públicas, por exemplo. Esses encontros reverberam uma agenda básica onde as soluções para os grandes problemas mundiais devem afastar a culpa dos que concorreram para criá-los, louvar os empreendedores e deixar somente a cargo deles a escolha de pautas e a iniciativa para essas transformações. Isso o mais importante de tudo: é deles o leme das mudanças.

Assim é possível apresentar medidas de preservação do sistema como a própria agenda de mudanças. E ir além: a proprietária de uma rede de produtos de beleza propõe empoderar as mulheres ajudando-as a abrir seus próprios salões. A mais famosa plataforma digital de compartilhamento de imóveis se orgulha de ajudar a resolver o problema de moradia. As soluções para os problemas do mundo são, basicamente, portanto, a ampliação dos próprios negócios dos benfeitores. E é preciso parecer que “todos ganham”. As intervenções políticas por lobby e o apoio financeiro aos projetos que visam precarizar do trabalho assalariado que agiganta lucros, por exemplo, é ressignificada como um impulso ao empreendedorismo individual. O que é mais cínico que o sincericídio dos mercadores tupiniquins, que explicitam como um dilema catastrófico na lata: ou direito, ou emprego.

As desigualdades são a pauta mais evitada pelas elites, mas como se distanciar de um problema tão apelativo e manifesto? A discussão do grave problema da desigualdade ergue, por si só, um roteiro que culmina na denúncia do desequilíbrio do sistema e, evidentemente, na necessidade de reformá-lo. Para os privilegiados, discuti-la é também expor-se ao escrutínio do próprio privilégio. Mas isso não acontece quando se organiza a pauta em torno da redução da pobreza. Trata-se, afinal, de uma preocupação edificante. E, principalmente, ela oportuniza ações pontuais a partir da órbita privada que irão incensar o plutocrata humanitário, e desloca o problema da concentração de riquezas para algo que se pode remediar com caridade.

Em 2011, o professor de psicologia da Universidade de Harvard, Steven Pinker, escreveu “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”. O livro trata da redução da violência humana desde o aparecimento de nossa espécie. Um aspecto dessa abordagem tornou a obra popular entre nomes ligados a grandes corporações como Bill Gates e Marc Zuckerberg. O que lhes interessa na narrativa é o aspecto de que, no longo prazo, a humanidade acumulou elementos civilizatórios; então, os problemas atuais precisam ser redimensionados e entendidos num contexto maior, onde, nele, a partilha injusta dos frutos do progresso se torna algo menor, comparado ao que já existiu num passado longínquo. Isso fez surgir o verbo “pinkerizar” que é menosprezar os problemas atuais e locais e desarmar os esforços emancipatórios a partir de algo distante no tempo ou no espaço. Se quer saber se o neoliberalismo e a globalização foram virtuosos para o mundo, não pense na desigualdade, no desemprego ou na precarização do trabalho no Ocidente, veja os quinhentos milhões de pessoas que passaram da pobreza à classe média na China.

O pano de fundo da compilação desses estrategemas da elite mundial, por Giridharadas, é que eles sabotam tudo aquilo que poderia, de fato, fazer a América great again. Ele faz uma defesa da volta do capitalismo afinado com o estado de bem-estar social do pós-guerra, de 1945 até o fim dos anos setenta do século anterior. São as iniciativas públicas, universais, democráticas e institucionais que concorreram para que diversos países pudessem aperfeiçoar vetores civilizatórios, inclusive os Estados Unidos, sobre o qual ele escreve. Foi isso o que lhes impulsionou um crescimento com mais compartilhamento dos resultados dos esforços de todos.

As manobras das elites para dissimular seu papel na criação e manutenção de desigualdades remetem a um episódio recente. Quando da eleição de Donald Trump em 2016 à presidência norte-americana, o filósofo Slavoj Zizek afirmou - e apanhou um bocado por isso - que aquele fato tinha pelo menos uma vantagem que era a de apressar a mudança do sistema. Que a extrema direita fria e sem máscara poderia favorecer à organização de uma transição social mais robusta. Giridharadas afirmou o mesmo depois, em entrevista. Note que se trata de um olhar restrospectivo: já que aconteceu, ao menos isso torna o desastre mais transparente para os eleitores desastrados, e a tragédia pode apressar a mudança. Não se tratava de um olhar prospectivo, de torcer pela piora do futuro próximo, para que pudesse haver melhora no médio prazo.

É por esse caminho que a obra abre seu texto com a seguinte constatação de Oscar Wilde:

“Os piores senhores eram os que eram mais bondosos para com os seus escravos, pois assim impediam que o horror do sistema fosse percebido pelos que o sofriam e compreendido pelos que o olhavam”.

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