Sem apoio financeiro, cinco candidatas transexuais concorrem a legislativos municipais no RN
Natal, RN 25 de jul 2024

Sem apoio financeiro, cinco candidatas transexuais concorrem a legislativos municipais no RN

13 de novembro de 2020
Sem apoio financeiro, cinco candidatas transexuais concorrem a legislativos municipais no RN

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Nas eleições municipais deste ano, apenas cinco pessoas com nome social, que se identificam com o sexo feminino, buscam cargos em todo o estado do Rio Grande do Norte. Daniele, Wanessa, Dávila, Mellyssa e Ludmilla pleiteiam vagas nas câmaras municipais de Açu, Rio do Fogo, Caicó, Macau e Santo Antônio, respectivamente. Quase todas elas fazem a mesma reclamação: apesar de terem sido incentivadas a lançar candidatura, houve pouco ou nenhum apoio por parte dos partidos no desenrolar das campanhas.

Em Caicó, no Seridó potiguar, a 282 km de Natal, a fotógrafa e digital influencer Dávila Medeiros concorre, pela segunda vez, a uma vaga na Câmara Municipal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Com um história de luta contra o bullying desde a infância, tanto no ambiente escolar quanto na comunidade, ela lembra que encontrou nas redes sociais uma forma de conversar com as pessoas sobre as agressões que sofria.

“Sou uma pessoa política naturalmente. Não tenho cargo público, mas política eu já sou”, conclama.

Dávila Medeiros tenta vaga no Paço Municipal de Caicó pela segunda vez. Foto: Divulgação.

Na campanha de 2016, também para o cargo de vereadora, ela obteve 136 votos, mas não chegou a ficar nem como suplente. Neste ano, concorre novamente mas com uma campanha “digital”, como ela classifica. Já que não poderia largar o trabalho para realizar atos em favor da candidatura, Dávila optou por mobilizar eleitores somente por publicações nas redes sociais.

- “Eu cansei de buscar convencer as pessoas de que política é sério. Política não é um comércio, não é uma festa”, argumenta.

Do partido, afirma ter recebido toda a atenção, mas nenhum apoio financeiro. No entanto, de acordo com o TSE, R$ 3 mil do Fundo Especial foram destinados à candidatura dela. Questionada sobre isso, Dávila foi buscar saber do diretório qual teria sido a destinação desse dinheiro. Recebeu como resposta que metade do valor havia sido utilizado para gastos com contabilidade e serviços de advocacia para registro da candidatura e ela ainda deveria receber a outra parte para compensar gastos de campanha. Todavia, ela mesma afirma não ter mandado fazer nenhum material gráfico para a campanha.

"Política não é um comércio, não é uma festa”

Dávila Medeiros, candidata a vereadora em Caicó pelo PSB

Na pequena Rio do Fogo, no Litoral Norte do Estado, distante 79 km de Natal, Wanessa Moisés dos Santos busca uma vaga no legislativo pelo Partido dos Trabalhadores. A bailarina e professora de zumba de 37 anos já participava da vida comunitária da cidade promovendo eventos de dança, principalmente para idosos. Decidiu se filiar ao partido há um ano e diz ter sido surpreendida com o convite para lançar seu nome nessa eleição.

“Pensei que era até brincadeira, mas, quando menos esperei, estava lá a candidatura”.

Wanessa Moisés é candidata a vereadora pelo PT em Rio do Fogo. Foto: Divulgação

Também petista, a técnica em enfermagem Danielle Medeiros de Araújo, de 40 anos, tenta se eleger vereadora em Açu, município da microrregião do Vale do Açú, distante 211 km da capital potiguar.

Minha história é bem simples. Sou filha de dois pescadores. Estudei em colégio público. Fiz técnico em enfermagem e participei da Pastoral da Criança fazendo a multimistura no combate a desnutrição”, explica. 

Assim como a correligionária, a candidata a vereadora afirma não ter recebido nenhum tipo de auxílio na realização da campanha, mesmo tendo sido convidada pelo partido a lançar seu nome.

“Eu não tive recursos suficientes para mover nada. Só pedi o voto”, revela afirmando que pretende deixar a legenda após o fim da campanha.

As duas fazem parte do projeto “Elas por elas”, da Secretaria Nacional de Mulheres do PT, mas nenhuma recebeu valores para arcar com gastos de campanha, de acordo com os dados do TSE.

Decepcionada com o partido, Danielle Medeiros pretende se desfiliar do PT após o fim da campanha. Foto: Divulgação.

A macauense e estudante de Letras da UFRN Mellyssa Almeida também disponibilizou seu nome para a disputa municipal de 2020. Filiada ao PSDB, ela foi a mais votada em uma enquete numa rede social que questionava aos eleitores do município sobre quem gostariam de ver representando-os na Câmara Municipal de Macau. 

“Se você fizer uma pesquisa em Macau pedindo que citem três vereadores, eu estaria no meio. Mas o partido não enxerga isso e acaba me deixando de lado”, reclama.

De acordo com o TSE, Mellyssa é mais uma candidata a não receber nenhum valor em dinheiro. Mesmo com a dificuldade, continua firme na campanha para a qual conta com o apoio do irmão na elaboração de conteúdo digital.

“Estamos sim fazendo uma campanha muito propositiva, cheia de coisas boas, honesta, de pé no chão e limpa”, define.

Para Ludmilla Félix de Andrade, mirroempreendedora de 35 anos, candidata a vereadora em Santo Antônio, na Região do Agreste potiguar, a maior dificuldade tem sido ter de negar constantemente o pedido de recompensa pelo voto por parte dos eleitores. Contudo, diz ter sido bem recebida por todos os lados, principalmente por já ser conhecida na cidade por ter sido conselheira tutelar no município por três anos, tendo deixado o cargo em 2019.

Filiou-se ao Partido Social Cristão já em 2020, mas diz não se definir por ideologia partidária. Acredita que não tem recebido o apoio que deveria. Também conta não abertura da população para bandeiras LGBTQIA+, assim, tenta trabalhar com reivindicações mais gerais. Do partido, recebeu R$ 260, originários do Fundo Especial, como apoio financeiro para a campanha.

Para a macuense Mellyssa Almeida também faltou apoio mas ela segue firme na campanha. Foto: Divulgação.

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, em 2016, apenas três candidatas transexuais ou travestis disputaram cargos no Rio Grande do Norte. Em todo o país, foram registradas 89 candidaturas com 8 pessoas de identidade trans ou travestis eleitas. Neste ano, houve um aumento de 209% em comparação com 2016, pois  281 pessoas com essa característica de identidade de gênero concorrem, sendo 27  candidaturas coletivas e apenas 2 para prefeitura e 1 para vice-prefeitura. Dentre esses nomes, figuram 255 travestis e mulheres trans, 16 homens trans e 10 candidates com outras identidades trans.

No município de Santo Antônio, Ludmilla Félix afirma que o partido tem se colocado à disposição para as candidaturas femininas mas ainda faltou fortalecer mais campanha. Foto: Divulgação.
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