60 anos do golpe: quem são os 12 potiguares mortos e desaparecidos
Natal, RN 20 de mai 2024

60 anos do golpe: quem são os 12 potiguares mortos e desaparecidos

6 de abril de 2024
12min
60 anos do golpe: quem são os 12 potiguares mortos e desaparecidos

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A Praça Pedro Velho, em Natal, reuniu os potiguares na última segunda-feira, 1º de abril, para reivindicar Memória, Verdade e Justiça e lembrar seus mortos e desaparecidos políticos. A data remonta aos 60 anos do início do golpe de Estado por lideranças militares e civis que instalou a última e mais sangrenta ditadura militar no país. Relatório final da Comissão Nacional da Verdade reconhece 434 mortes e desaparecimentos e um número de mais de 20 mil pessoas torturadas.

Com as fotografias e biografias das vítimas do regime militar estampadas em um varal, os manifestantes denunciaram a violência estatal da ditadura e, também, dos tempos democráticos. Anatália de Souza Alves de Melo, Édson Neves, Quaresma, Emmanuel Bezerra dos santos, Geraldo Magela Fernandes Torres da Costa, Hiram de Lima Pereira, José Silton Pinheiro, Lígia Maria Salgado Nóbrega, Luíz Ignácio Maranhão Filho, Luís Pinheiro, Virgílio Gomes da Silva, Zoé Lucas de Brito e ainda Djalma Maranhão (morto no exílio decorrente da ditadura) e Glênio Sá (pós-ditadura em circunstâncias suspeitas) foram alguns dos potiguares lembrados. Eles foram perseguidos, presos, sequestrados, torturados e assassinados pela ditadura que o Brasil viveu por 21 anos após 1964.

Potiguares mortos e desaparecidos

Anatália de Souza Melo Alves

Anatália de Souza Melo Alves

Nasceu no município de Frutuoso Gomes, Rio Grande do Norte. Quando tinha cinco anos, Antália mudou-se para Mossoró, onde completou sua educação básica. Posteriormente, trabalhou na Cooperativa de Consumo Popular. Após casar-se, mudou-se para Recife, onde aproximou-se do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Em dezembro de 1972, foi presa pelo DOI-CODI e levada para um local desconhecido. Sua prisão só foi registrada 26 dias após o sequestro. Oficialmente, sua morte foi declarada como suicídio, porém evidências sugerem tortura e violência sexual, incluindo queimaduras nos órgãos genitais.

Djalma Maranhão

Djalma Maranhão

Nasceu no dia 27 de novembro de 1915 em Natal, Rio Grande do Norte, filho de Luiz Ignácio de Albuquerque Maranhão e Maria Salmé Carvalho Maranhão, casado com Dária de Souza Maranhão, com quem teve um filho: Marcos Maranhão. Político brasileiro, iniciou sua militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB) na década de 30. Em 1945, ingressou no Partido Social Progressista (PSP), sendo eleito deputado estadual em 1954 e nomeado, pelo governador Dinarte Mariz, prefeito de Natal em 1956. Em 1958 renuncia à prefeitura e, em 1960, tornou-se deputado federal pela União Democrática Nacional (UDN) e, no mesmo ano, prefeito de Natal pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN). Sua gestão foi marcada por avanços na educação, com destaque para a campanha de alfabetização "De pé no chão também se aprende a ler". Com o golpe de 1964, foi deposto, preso e teve seu mandato cassado. Exilado no Uruguai, faleceu em 1971. Seu corpo foi sepultado em Natal.

Édson Neves Quaresma

Édson Neves Quaresma

Edson Neves Quaresma, nascido no Rio Grande do Norte, ingressou na Escola de Aprendizes-Marinheiros de Pernambuco em 1958. Em 1964, foi preso no contexto da repressão à revolta dos marinheiros, sendo expulso da Armada no final do mesmo ano. Após viver na clandestinidade e receber treinamento em Cuba, retornou ao Brasil em 1970 como membro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Desapareceu em 5 de dezembro de 1970, oficialmente em um confronto armado, mas investigações posteriores sugerem sua execução pelos agentes do Estado.

Emmanuel Bezerra dos Santos

Emmanuel Bezerra dos Santos

Emmanuel Bezerra dos Santos, nascido no Rio Grande do Norte, teve uma trajetória marcada pelo ativismo político desde jovem. Fundou jornais e destacou-se no movimento estudantil universitário, sendo presidente da Casa do Estudante, diretor do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRN, integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e dirigente do Partido Comunista Revolucionário (PCR). Após ser preso durante a Ditadura Militar, continuou sua atuação na clandestinidade, envolvendo-se em viagens internacionais para unir exilados brasileiros. Foi morto em setembro de 1973, junto a Manuel Lisboa de Moura, em São Paulo, sob circunstâncias obscuras, com relatos de tortura e mutilação do corpo.

Geraldo Magela Fernandes

Potiguar, Gerardo Magela, poeta e jornalista do jornal Bidu, ativo na mobilização da juventude do interior paulista, cursou Medicina em Sorocaba, onde liderou o movimento estudantil. Sua morte em 1973, oficialmente considerada suicídio ao pular do viaduto do Chá, foi contestada pela família, que alegou prisão e assassinato por agentes da Oban. O laudo necroscópico, assinado por médicos-legistas conhecidos por emitir laudos falsos de morte de presos políticos, é questionado. Acredita-se que seu sepultamento no Cemitério de Perus, sob grafia equivocada e marcado com um "T", símbolo utilizado pela repressão para identificar militantes, indica sua ligação com o movimento político.

Glênio Sá

Glênio Sá

Glênio Fernandes de Sá, nascido em Caraúbas, RN, em 1950, iniciou sua militância política aos 16 anos, durante a Ditadura Militar, participando ativamente do movimento estudantil em Fortaleza e ingressando no PCdoB. Preso duas vezes em 1969, participou da Guerrilha do Araguaia, sendo capturado em 1972 e libertado em 1974 após um longo período de torturas. Após a liberdade, dedicou-se à reconstrução do PCdoB no RN, envolvendo-se na política local, sendo candidato a vereador, deputado estadual e ao Senado. Sua morte, em 1990, oficialmente atribuída a um acidente automobilístico, é contestada pela família, que acredita ter sido forjada pelos militares. Documentos oficiais e relatos de ex-militares corroboram essa suspeita.

Hiran de Lima Pereira

Hiran de Lima Pereira

Hiran de Lima Pereira, nascido no Rio Grande do Norte, teve uma vida marcada pela militância política desde sua prisão em 1935 após o levante comunista. Ele foi eleito deputado federal em 1946 pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas teve seu mandato cassado em 1948. Depois de se mudar para Recife, trabalhou como redator de jornal e secretário de administração municipal. Após o golpe militar de 1964, viveu clandestinamente e em 1975, desapareceu. Sua esposa, Célia Pereira, foi presa e torturada, mas afirmou ter visto Hiran sendo torturado em um centro clandestino. Documentos indicam que ele foi morto e seu corpo jogado no rio Novo, mas seus restos mortais nunca foram entregues à família.

José Silton Pinheiro

José Silton Pinheiro

José Silton Pinheiro, nascido no Rio Grande do Norte, iniciou sua militância política durante o movimento estudantil e se tornou militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Em dezembro de 1972, aos 23 anos, foi morto em ação comandada pelo DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro. Oficialmente, ele e outros quatro militantes do PCBR teriam morrido em confronto com as forças de segurança, mas evidências sugerem que foram mortos sob tortura ou execução, sendo seus corpos carbonizados dentro de um carro incendiado durante a operação. Documentos e testemunhos indicam que a ação foi resultado de informações obtidas por prisões anteriores e que não houve troca de tiros, mas sim uma encenação para encobrir as execuções.

Lígia Maria Salgado Nóbrega

Lígia Maria Salgado Nóbrega

Lígia Maria Salgado Nóbrega, nascida em Natal e criada em São Paulo, foi uma destacada militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) contra a ditadura militar. Morreu aos 24 anos durante a Chacina de Quintino, uma operação policial em uma casa usada pela VAR-Palmares no Rio de Janeiro, em 29 de março de 1972. A versão oficial afirmava que ela morreu em confronto, mas investigações indicam que foi morta por disparos durante a invasão policial. Os corpos das vítimas não apresentavam vestígios de pólvora, sugerindo uma execução pelos agentes da repressão. Seu corpo foi enterrado no cemitério de São Paulo, após ter sido inicialmente registrado como desconhecido no Instituto Médico Legal.

Luiz Ignácio Maranhão Filho

Luiz Ignácio Maranhão Filho

Luiz Ignácio Maranhão Filho, advogado, professor e jornalista nascido em Natal, foi uma figura destacada no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Preso diversas vezes, ele foi submetido a torturas intensas durante a ditadura militar. Em 1974, foi preso novamente e desapareceu. Apesar de mais de 40 anos terem se passado, não há uma versão definitiva sobre seu desaparecimento. Documentos recentes indicam que ele foi preso pelo Estado brasileiro, mas nunca oficialmente reconhecido. Novas informações sugerem que ele foi torturado e morto durante a "Operação Radar", uma ação para desmantelar o PCB. Seu corpo teria sido jogado no rio Novo ou na represa de Jurumirim, em São Paulo, mas o local exato de seu desaparecimento permanece desconhecido.

Virgílio Gomes da Silva

Virgílio Gomes da Silva

Nascido em Santa Cruz (RN), foi um operário, sindicalista e militante político que atuou no Partido Comunista do Brasil (PCB) e na Ação Libertadora Nacional (ALN). Ele liderou o sequestro do embaixador dos EUA em 1969, libertando prisioneiros políticos. No entanto, foi capturado em uma emboscada pela Oban, em setembro de 1979, na cidade de São Paulo, e levado à tortura, onde morreu 12 horas após sua prisão. No mesmo dia, sua mulher Ilda e três de seus filhos também foram detidos. Apesar de evidências contundentes, os órgãos de segurança não esclareceram oficialmente sua morte. Seu corpo foi enterrado no Cemitério da Vila Formosa, mas seus restos mortais não foram identificados até hoje.

Zoé Lucas de Brito

Zoé Lucas de Brito

Nascido em São João do Sabugi (RN), foi estudante de Geografia na UFPE e militante político na Ação Libertadora Nacional (ALN). Após ser preso em 1970 e libertado, enfrentou perseguições, mudando-se para São Paulo e planejando sair do país para evitar nova prisão. No entanto, foi executado em São Paulo em 1972, segundo relatos da polícia, mas com indícios de tortura. Seu corpo foi encontrado nos trilhos da estação de trem Tamanduateí. Evidências sugerem que Zoé estava fugindo para a Bolívia devido às ameaças de prisão, corroboradas por sua condenação iminente pela atuação na ALN.

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