OPINIÃO

Desejei que bandido bom fosse bandido morto e me arrependi

Hoje faz 15 dias que eu fui violentamente assaltado quando voltava de um belo treino de bicicleta, a menos de 10km de casa. Fui derrubado e, ao cair, levei uma paulada violenta na cabeça. Como resultado, uma semana tendo tonturas e fortes dores na cabeça, dores fortíssimas no pescoço. Pior: até hoje minhas costelas esquerdas doem, quando eu respiro assim como a minha virilha esquerda doe quando eu caminho.

Recentemente, e não é importante divulgar detalhes, recebi um recado que, caso eu quisesse recuperar a minha bicicleta, eu teria que pagar 400 reais… isso mesmo, a minha bike vale 400 reais para ser encontrada. Entrando na onda do “bandido bom é bandido morto”, eu respondi, dizendo que não quero a bicicleta, mas que pagaria 500 reais para receber a orelha de quem foi tão violento comigo.

Como qualquer pessoa, tenho meus momentos de fúrias, mas, acreditem, eles não passam de algumas discussões ríspidas e uns palavrões profanados durante uma peleja. JAMAIS, JAMAIS fiz qualquer ato ilegal no sentido de machucar alguém ou mesmo desejei o mal ao ponto de querer a morte para uma pessoa, por mais que essa pessoa seja um escroto comigo. E olha que pelo fato de eu ser um profissional que consegue ter sucesso sem ter a empáfia dos doutos, muita gente tenta me sacanear e eu poderia ser violento com essa gente, se essa violência fosse de minha natureza.

Então, porque eu entrei na modinha do “bandido bom é bandido morto”? Passados duas semanas, sinto-me totalmente desguarnecido de um apoio do Estado. Fui assaltado num lugar onde já se roubou diversas bicicletas, inclusive, durante esses 15 dias, houve outra vítima no mesmo local onde aconteceu o meu assalto.

Enquanto eu fui violentamente assaltado e, além das sequelas físicas, ainda pairam as consequências psicológicas no sentido de temer não mais me recuperar fisicamente, no último sábado eu presencio uma cena patética, quando voltava do supermercado a pé. Vi um carro em média velocidade e uma Hilux da polícia militar em altíssima velocidade, com sirene ligada e um policial com uma escopeta do lado de fora, perseguindo o carro. Quando o carro parou, os quatro policiais fortemente armados descem e fazem aquela cena típica de programas pinga sangue…

Estaria tudo bem, eu me sentiria feliz em ver aquele teatro macabro, se não tivesse visto um detalhe no carro da polícia: era uma viatura que fazia parte de uma blitz da lei seca. Sim, é importante ter lei seca, muitos motoristas bebem e dirigem e tal, porém com a dor na virilha que eu estava, pois estava caminhando, com a dor nas costelas por estar respirando, por ter dado parte numa delegacia sobre o meu assalto, eu não vi nenhum, absolutamente nenhum, movimento da polícia militar do Rio Grande do Norte no sentido de desenvolver uma inteligência policial para que se diminuam os assaltos contra ciclistas.

Tudo bem, o celular roubado é barato, contestei os 1200 reais gastos no meu cartão e a bicicleta irei receber o valor , pois estava no seguro. Tudo bem, tenho plano de saúde e, portanto, essas dores que persistem passarão com medicação, fisioterapia e yoga. Tudo bem, sou classe média, tenho certa condição econômica e ter bens caros, como a minha ex-bicicleta que custava por volta de 10 mil reais é um risco e por isso paguei o seguro.

Mas, porque “bandido bom é bandido morto”? Penso que pela falta de apoio das autoridades do Estado. Se eu, professor universitário, classe média e com um discurso humanista me propus a pagar 500 reais pela orelha de quem me violentou, imagina quem é violentado cada dia. Penso numa mulher pobre e preta de favela, num travesti, num trabalhador urbano que têm que se deslocar grandes distâncias para chegar ao trabalho, num catador de lixo, etc… Se para mim, assaltado primeira vez na vida com quase 50 anos, a revolta pela violência me levou a querer mutilar uma pessoa, imagine para essas outras pessoas que diariamente sofrem diversos tipos de violência social…

No frigir dos ovos, sigo com sequelas físicas e psicológicas. Duro o receio de nunca mais poder subir numa bicicleta e fazer o que eu mais gosto nessa vida que é pedalar. Mais duro ainda é o receio de ter que usar uma bengala aos 46 anos devido a deficiência que estou tendo para caminhar. E, enquanto isso, é mais importante para a polícia militar do Rio Grande do Norte caçar algum cachaceiro que fugiu de uma blitz da lei seca… não que não seja importante essa operação, mas e o resto, como fica?

PS – dois dias depois de cometer a insanidade de falar que pagaria 500 reais pela orelha de quem me violentou, pedi para a pessoa que me deu o recado dizer na boca de fumo da Vila de Ponta Negra, e eu sei o endereço embora a polícia militar do Rio Grande do Norte não saiba, que não quero mais a orelha de quem me violentou. É assim mesmo, só sabe o que é violência quem já passou por ela. E eu, que tanto julguei quem é violento numa sociedade que se encaminha para a barbárie, quase cometi uma violência extrema. Não, bandido bom não é bandido morto. Não, não teria adiantado de nada, se eu tivesse pedalando armado. A vida vale mais que a violência, o amor deve ser maior que o ódio!

Viva a vida e eu juro que, pelo menos uma vez na vida, desses muitos anos que eu ainda tenho por viver, que eu ainda voltarei a subir numa bicicleta e voltarei a pedalar, voltarei a sentir o vento na cara, o suor descendo no rosto e o sorriso alegre de quem sabe que é aquilo que mais gosta de fazer na vida: PEDALAR!

 

 

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