Dia dos Professores e quase nada a comemorar
Natal, RN 1 de mar 2024

Dia dos Professores e quase nada a comemorar

15 de outubro de 2021
Dia dos Professores e quase nada a comemorar

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Marcar o 15 de outubro iniciando o título com um “quase” em pleno governo Bolsonaro pode soar como um atenuante, mas não, caro leitor, cara leitora: começamos pela única justificativa boa que é nossa relação afetiva, amorosa com nossos alunos e nossas alunas, razão de nossa profissão e de nossa resistência. Especialmente para educadores brasileiros, que, embora estejam no pior dos rankings no cenário mundial no que se refere à valorização profissional, lidam com um sem número de adversidades, incluindo, muitas vezes, o de refúgio de estudantes que, além de excluídos socialmente, não têm estrutura familiar que lhes ampare.

Embora tendamos a marcar o dia com certas nostalgias idealizadas, como “na escola do meu tempo...”, apesar de por muito tempo não se ter no país escola para todo mundo, não vamos parar aqui para os dizeres elogiosos ao dia, porque essa grandeza da figura do/a professor/a tem sido duramente atacada, especialmente nesse governo que ocupa o Planalto.

Em 2003, estudo do INEP trazia como chamadas para os dados apresentados sobre a situação da educação no Brasil:

“Professor da educação infantil ganha até 20 vezes menos que um juiz”

“45% dos docentes lecionam em escolas sem biblioteca”

“Crescimento da licenciatura não supera demanda por professores”

“Formação dos docentes é mais precária na zona rural”

Entre 2003 e 2015 (segue apenas um breve resgate factual) tivemos avanços importantes, como a Lei do Piso Nacional do Magistério, o FUNDEB, com orçamento triplicando em milhões, incremento da formação por meio da oferta das licenciaturas, inclusive com interiorização do Ensino Superior, expansão das universidades, dos Institutos Federais, realização de concursos públicos, criação de políticas educacionais para a infância, como o Pró Infância e o Brasil Carinhoso. Sem contar a áurea institucionalizada de respeito à figura dos trabalhadores e das trabalhadoras da educação. Foram avanços importantes num país com 500 anos de atraso na educação.

No entanto, chegamos a 15 de outubro de 2021 com o aprofundamento institucionalizado, a partir do governo federal, chefiado por Jair Bolsonaro, da desqualificação – tanto pessoal como profissional – da figura do professor e, principalmente, da professora. Sim, porque além de sua profissão, a professora também é desrespeitada todas as vezes que a figura da mulher é aviltada. Chegamos a este 15 de outubro com um retrocesso de duas décadas – é como se não se tivesse feito nada de 2003 para cá – agravado pela ingerência no trato com a pandemia, que aprofundou as desigualdades de classe, de raça e educacionais, com que se prejudicam os mais pobres.

Em 2020, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em seu relatório, apontou a remuneração dos professores brasileiros – em todos os níveis! – como das piores em relação aos países membros e convidados da organização, o que é possível conferir aqui

Em todo o mandato, o governo Bolsonaro liderou um processo de desinvestimento na educação, com troca de ministros a cada ano, retirando recursos e jogando professores e estudantes à própria sorte nessa pandemia. Vítimas de adoecimentos, de retaliações, de desrespeitos, de propostas de reformas que atentam contra o serviço público e a educação pública e seus profissionais, chegamos ao 15 de outubro de 2021 com o pior cenário educacional possível!

É um 15 de outubro de lutos vários. Aos milhares de educadores que perderam sua vida para a Covid-19, nenhum minuto de silêncio!

É um 15 de outubro de lutas várias. É o menor investimento em educação das últimas décadas; é tentativa de privatizar a educação; é golpe na democracia das instituições federais, ocupadas com interventores; é descumprimento do Plano Nacional da Educação; é ausência total de planejamento para melhoria dos índices educacionais; é desqualificação dos profissionais da educação; é corte de 92% do ministro da offshore em paraíso fiscal em Ciência e Tecnologia. É projeto obscurantista para jogar a nação na apatia, no desalento, na ignorância, na morte por inanição.

Mas sempre tem uma professora e um professor no meio do caminho.

Um professor não foge à luta.

Uma professora não foge à luta.

É apenas “quase nada a comemorar”, porque há o “tudo” de resistência, de amor e disposição para mudar as coisas. Como sentenciou o mestre Paulo Freire (1999, p. 75) em “Pedagogia da Autonomia”, a nossa “resposta à ofensa à educação é a luta política consciente, crítica e organizada contra os ofensores”.

Portanto, à luta sempre e até a vitória, educadores e educadoras do Brasil!

No ano do centenário de Paulo Freire, viva o 15 de outubro!

E Fora Bolsonaro!

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