OPINIÃO

Teses vitimistas do galo

As “teses vitimistas” do Galo, Atlético Mineiro, campeão brasileiro de 2021, quase 50 anos depois. O último título do alvinegro das alterosas se deu em 1971, sob o comando de Telê Santana e com os gols de Dario “Peito de Aço”, “Dadá Maravilha”, “Dadá Beija-Flor” e outros grandes nomes como Humberto Ramos, que chegaria a jogar no América de Natal. O time base era Renato Humberto Monteiro, Grapete, Vantuir e Oldair (Cincunegui); Vanderlei e Humberto Ramos; Lôla (Spencer), Ronaldo, Dario e Tião (Romeu ou Beto), mas eu não quero falar do título conquistado, mas dos que foram tomados descaradamente por arbitragens canalhas e arrumados que tinham, evidente, a intervenção da ditadura militar criminosa dos anos em questão.

Me lembro dessa época. Cruzeirense apaixonado, fã incondicional de Dirceu Lopes (me tornei na época meia destro por causa dele), amava aquele timaço que desbancou o de Pelé em 1966, portanto, achava, como o vídeo que vi deixa bem claro, e na cegueira de minha alienação, que realmente era choro de perdedor. Não era. Um dia, se o futebol brasileiro for realmente passado a limpo, muita coisa poderia ser corrigida, inclusive o cancelamento do título brasileiro de 1977 pelo São Paulo.

O Galo terminou a primeira fase com dez pontos na frente do segundo colocado. Reinaldo, 28 gols em 18 jogos, maior média da história da competição, trunfo da equipe, sempre crítico da ditadura dos anos de chumbo e crimes, foi tirado da final pela justiça desportiva por um simples desentendimento em campo com um jogador no início do campeonato, vejam o absurdo. O árbitro Arnaldo César Coelho, ele mesmo, o companheiro de Galvão Bueno por anos a fio, deixou de marcar um pênalti escandaloso a favor do Atlético e ainda ignorou o crime cometido pelo volante Chicão, que continuou em campo, depois de pisar e quebrar a perna do jogador Ângelo.

Não foi numa dividida, não, o meia do Galo estava de quatro, se arrastando, já machucado, ele passou e pisou. Impossível não se revoltar. O pior de tudo é que esse brucutu perna de pau, ao estilo Felipe Melo, ainda jogou na seleção brasileira, receberia o prêmio de ser convocado por, adivinhem quem? O milico Cláudio Coutinho para dar botinadas na Copa da Argentina, em 1978 e nos fazer passar vergonha com seu futebol medíocre. Baltazar Germano, jogando muito no Nordeste, merecia muito mais estar com a amarelinha naquela Copa, mas não foi nem cogitado, a não ser pela torcida do Botafogo/PB e capa da Revista Placar.

O Galo perdeu o duelo fatídico, irreal, ilegal,  nos pênaltis, 3 a 2, e terminou o campeonato, repito, com dez pontos na frente do São Paulo, e invicto. O timaço da época tinha, além do Rei Reinaldo, o fantástico Toninho Cerezo, Ângelo, Marcelo, Paulo Isidoro (surgindo), entre outros. Qualquer repaginagem feita encontraria motivos de sobra para cancelar esse vergonhoso título conquistado pelo tricolor paulista. Falando assim, até parece ser possível, reverter tantos absurdos nestes anos de vergonha e covardia num país que continua absolutamente o mesmo, talvez até pior nos quesitos de desumanidade e ilegalidade em todos os sentidos.

O filme do Galo promete muito mais armações vergonhosas em benefício, claro, da dupla Rio-São Paulo, com a colaboração de uma imprensa que, até hoje, a gente tem certeza, não merece confiança nenhuma. O vídeo que embasa meu registro de revolta, ainda tem um outro escândalo, esse relacionado ao Flamengo do vice-presidente Walter Clark, que também era diretor executivo da Globo no ano de 1980. O rubro-negro de maior torcida do Brasil nunca tinha ganho nada. Era projeto sim da mídia poderosa carioca e contava com o apoio da ditadura. O presidente Figueirêdo, aquele que preferia os cavalos aos humanos (no caso dele, eu realmente preferia a companhia dos cavalos ou qualquer outro animal) declarou seu apoio e torcida ao Flamengo, como fazem ainda hoje alguns que usam do mesmo artifício canalha da falsidade. Só que o ditadoreco de hoje dá azar em jogo de castanha, por isso o Mengo naufragou nesta temporada. Dias antes da final, a de 1980,  Reinaldo havia feito um artigo criticando o general e seu torpe regime.

Na primeira partida, ida, Mineirão. Galo 1 a 0. Era preciso fazer alguma coisa para mudar essa história. E José Assis Aragão fez. Marcou duzentas faltas favoráveis ao Flamengo e quebrou muitas ações de ataque do Galo. Reinaldo, astro do jogo ao lado de Zico (justiça seja feita, o Fla tinha um timaço), marcou dois gols, um deles quando estava em campo no sacrifício. Já no segundo tempo,  a partida estava empatada em 2 a 2, dando o título aos mineiros, um dos assistentes marcou um impedimento tão escandaloso, lance de gol certo, que envergonhou até mesmo os radialistas cariocas. Depois, simplesmente por retardar a partida, Reinaldo foi expulso. Aos 37 minutos, o Flamengo marcou o gol do título, mais um título surrupiado do Atlético.

Tem cego, doente, flamenguista, já li, que escreve justamente o contrário. No meu caso, vi, revi várias vezes os vídeos dos jogos para chegar a essa conclusão e concordar com os atleticanos, o time mais prejudicado da história do futebol brasileiro.

Domingo passado, chorando e comemorando nas arquibancadas, Reinaldo, o eterno Rei dos atleticanos, deve ter lembrado e repassado os filmes destes jogos retratados acima e que fazem parte do filme do Galo. O pior é que, ainda hoje, quando se trata de mídia, ainda sinto que ele é discriminado. Jogador de futebol, ou ex-, não pode ser inteligente e ter posição, cai em desgraça. Os exemplos estão todos aí para quem quiser ver.

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Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos