Senador Carlos Eduardo Alves: o que o PT tem a ganhar e a perder
Natal, RN 21 de jul 2024

Senador Carlos Eduardo Alves: o que o PT tem a ganhar e a perder

17 de fevereiro de 2022
6min
Senador Carlos Eduardo Alves: o que o PT tem a ganhar e a perder

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O PT quer ganhar as eleições de 2022 reduzindo riscos para, se possível, definir a parada ainda no 1º turno. As pesquisas de intenção de voto divulgadas até aqui mostram que o cenário não é impossível, embora as dificuldades existam e sejam óbvias.

O mesmo eleitor potiguar que concedeu a Fátima Bezerra um mandato de 4 anos em 2018 foi o mesmo que delegou a Carlos Eduardo o papel de liderar a oposição. Se ele cumpriu ou não esse papel é outra história. O eleitor lhe deu a procuração.

Portanto, numa análise fria, ao reabrir a porta para Carlos Eduardo, o PT está tirando da oposição seu principal nome. A profusão de pesquisas divulgadas nos últimos meses apontando Alves como o candidato que mais ameaçava a liderança de Fátima mostram a relevância dele no xadrez político eleitoral de hoje.

Para quem acredita que Carlos Eduardo virou um peso morto por ter ficado quatro anos sem mandato precisa olhar para as eleições municipais de 2020, quando o ex-prefeito indicou a vice do atual chefe do Executivo municipal Álvaro Dias. Ali, Carlos mostrou que, para ele, “vice é vice” só da boca para fora. O cargo é ocupado por Aída Cortez, prima da mulher do PDTista e ex-secretária municipal de Tributação na administração carlista.

Carlos e Álvaro formaram uma aliança por conveniência. Em 2010, na disputa para o Governo, o atual prefeito foi vice na chapa de Alves. Apesar do 4º lugar, os dois repetiram a dobradinha, dessa vez na vitoriosa campanha para a prefeitura de Natal em 2016. Álvaro tem vários defeitos, mas possui a paciência das raposas que olham lá na frente. Com a renúncia de Carlos para disputar o Governo em 2018, Dias assumiu a prefeitura, mas reconheceu a força do “aliado” em Natal ao permitir a ele a indicação do estratégico cargo de vice.

É essa força eleitoral em Natal – que alguns analistas duvidam ainda existir - que aproxima o PT do ex-prefeito. Goste-se dele ou não, Carlos Eduardo é inegavelmente o politico mais vitorioso dos últimos 20 anos na capital. De 2003 para cá, só em uma única eleição o candidato apoiado por Alves - ou ele próprio - não venceu. Carlos assumiu em 2002 com a renúncia de Wilma de Faria, venceu em 2004, 2012, 2016 e ajudou Álvaro Dias a ganhar, no 1º turno, em 2020.

Não por acaso, a única derrota de um aliado ocorreu em 2008, justamente Fátima Bezerra, a atual governadora que perdeu a disputa para a jornalista Micarla de Sousa, ex-vice do próprio ex-prefeito.

Natal é um calo na vida eleitoral do PT. Há embates históricos de Fátima contra Wilma, sempre vencidos pela ex-prefeita. E em todas as vitórias de Carlos Eduardo, quando houve 2º turno, o adversário não foi um petista. Em 2004, Alves disputou com Luiz Almir e em 2012 o rival foi Hermano Moraes, ambos do PMDB.

Nas eleições de 2018, quando perdeu para Fátima, Carlos Eduardo venceu em Natal colocando mais de 90 mil votos de diferença sobre a petista. A capital potiguar também foi um dos três municípios do Estado onde Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad. É possível extrair duas conclusões daí: a força eleitoral de Carlos Eduardo e a alta rejeição do PT em Natal.

Ao convidar o ex-prefeito de Natal para compor a chapa majoritária, o PT não tira apenas da oposição seu principal nome. Ele também busca reduzir a rejeição histórica que a legenda tem na capital.

De quebra, e talvez essa seja a jogada mais importante, é que a dobradinha PT/Carlos Eduardo imobiliza Álvaro Dias, que vem priorizando a eleição do filho, Adjuto Dias, para a Assembleia Legislativa. Se o prefeito tucano aceita ser o nome da oposição para enfrentar Fátima, “devolve” a prefeitura a Carlos Eduardo e tira do filho a estrutura voltada hoje para a ajudá-lo a chegar ao legislativo estadual.

Não é pouco o significado da estratégia petista ao convidar Carlos Eduardo para disputar o Senado na chapa majoritária: numa jogada só o PT tira da oposição seu principal jogador, tenta reduzir a rejeição da sigla em Natal e amarra Álvaro Dias na cadeira de prefeito.

E o que o PT teria a perder ficando ao lado de Carlos Eduardo ? Além do discurso de oposição às oligarquias, é muito doloroso, especialmente para a militância petista, se aproximar agora de quem há 4 anos declarou apoio e pediu votos para Jair Bolsonaro em 2018.

E não somente pelo personagem em si e por tudo o que representa o atual presidente. Nesse caso, é que Carlos Eduardo demonstrou até onde pode chegar para alcançar seus objetivos eleitorais, o que inclui os riscos de manchar a própria biografia.

Com oito anos de mandato no Senado, Alves sairá das urnas, se vencer, como potencial candidato ao Governo em 2026 em plena atividade política e com tempo de sobra para se aproximar do eleitor do interior, onde ainda não tem penetração.

Para alçar voo próprio, o ex-prefeito não pensou duas vezes em romper politicamente com a família em 2003. E não será uma aliança pontual com o PT que o manterá preso a um acordo tático voltado para uma eleição.

Será que, havendo 2º turno, um eventual senador eleito Carlos Eduardo usará seu prestígio em Natal para percorrer os bairros pedindo voto para a aliada Fátima com a mesma motivação do 1º turno ? Essa é uma dúvida importante.

Parte da militância e da sociedade que simpatiza com o PT ainda resiste e defende o nome do atual senador Jean Paul Prates para compor uma chapa “puro-sangue”.

A posição é legítima e coerente com a história do partido.

Fátima Bezerra não é dona do PT, mas a legenda delegou oficialmente à governadora a coordenação de todo o processo politico relacionado ao projeto de reeleição dela.

Ao colocar pros e contras na balança, Fátima está convencida de que Carlos Eduardo é o nome ideal, neste cenário, para o Senado. Para isso, está disposta a abrir mão de quem foi até aqui um leal aliado e faz, disparado, o melhor mandato da bancada potiguar.

O senador Carlos Eduardo Alves na chapa majoritária do PT é a vitória no 1º turno do pragmatismo.

O resto é história.

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